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Fernando S. Trevisan
2007-2008
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@ 23.6.07 16:26

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Notas de Leitura
Por Virginia Woolf (tradução de Cecília Meireles)
180 páginas, Editora Nova Fronteira

Como escrevi antes, Woolf foi uma grande escritora. Sua prosa é rica e cínica, com diversas passagens memoráveis. A tradução de Cecília Meireles é excelente e vai além da mera transcrição de palavras, como faz o bom tradutor.

Orlando é a "biografia" deste personagem fictício de que Woolf se utiliza para veicular seu romance com tons de fantasia e crítica social. O tempo é utilizado de forma imprecisa - Orlando nasceu no século XVI, a história termina nos primeiros anos do século XX.

Nas primeiras páginas, dada a virtuosidade e crescente velocidade da narrativa, tentamos nos apegar a Orlando como fio condutor, um constante que permite nos situarmos na narrativa. Mas Woolf quebra e muda Orlando - mesmo mantendo-o o mesmo, de certa forma - e faz com que toda certeza, toda afirmação seja vã. Nada é constante, é como um longo sonho - em momentos, pesadelo - de que não acordamos, senão com o apagar das luzes.

O romance navega pela literatura e pela personalidade dos escritores, o papel da mulher e do homem na sociedade, as mudanças enfrentadas nos séculos passados - que devem ter parecido à autora mudanças velozes, dada a forma como cita os livros impressos, os aviões, os automóveis - pela psicologia de seu personagem principal e usa-o sem dó para demonstrar os pontos de vista da autora - que jamais ficam claros, sendo mais um convite para reflexão que uma defesa de valores e ideais.

Certamente um tanto auto-biográfico - Orlando é um escritor, durante todo o livro -, instigante, embora enfadonho em algumas passagens mais rebuscadas ou mesmo satíricas, é um livro virtuoso e excelente leitura. Recomendado. Cito aqui mais alguns trechos que me impressionaram ou pelo conteúdo ou pela forma:

"(...)'Diabo leve as mulheres!', disse Orlando para si mesma, dirigindo-se ao armário para servir um copo de vinho, 'nunca deixam uma criatura em paz. Não existe gente mais bisbilhoteira, mais curiosa, mais intrometida que essa.(...)"
Pág. 99

"(...)Orlando já sabia, pela sua própria experiência de homem, que os homens choram tão freqüentemente e tão sem razão quanto as mulheres; começava, porém, a perceber que as mulheres se escandalizam quando os homens manifestam sua emoção diante delas.(...)"
Pág. 100

"(...)Um homem que pode destruir ilusões é, ao mesmo tempo, fera e dilúvio. As ilusões são para a alma o que a atmosfera é para a terra. Retirai esse brando ar e a planta morre, a cor empalidece. A terra por onde caminhamos é um ardente rescaldo. É marga o que pisamos, e seixos de fogo queimam nossos pés. Somos desfeitos pela verdade. A vida é um sonho. É o despertar que nos mata. Quem nos rouba os sonhos rouba-nos a vida.(...)"
Pág. 113

"(...)'É igualmente inútil', pensava ela, 'sonhares que me podes proteger, ou pensar que te posso adorar. A luz da verdade bate em nós sem uma sombra, e a luz da verdade nos assenta horrivelmente mal.(...)"
Pág. 115

"(...)'As mulheres são apenas crianças grandes... Um homem inteligente apenas se diverte com elas, brinca com elas, agrada-as e adula-as'.(...)"
Pág. 119

"(...)coisas que, fora do seu lugar, não têm encanto, mas no lugar próprio são positivamente de uma beleza deslumbrante. Pois, por uma sábia economia da natureza, nosso espírito moderno quase pode dispensar a linguagem; as expressões mais comuns bastam, desde que nenhuma expressão basta; por isso, a mais banal conversação é muitas vezes a mais poética.(...)"
Pág. 142

"(...)Todos aqueles anos pensara na literatura... ...como alguma coisa selvagem como o vento, ardente como o fogo, rápida como o raio; uma coisa errante, incalculável, insólita, e eis que a literatura era um senhor de idade, vestido de cinzento e falando de duquesas.(...)"
Pág. 157

"(...)a idéia de de que não são os artigos de Nick Greene sobre John Donne nem leis de oito horas nem convênios nem legislações fabris que têm importância, mas uma coisa inútil, súbita, violenta; uma coisa que custa a vida; encarnada, azul, púrpura; um jorro, um respingo; como aqueles jacintos... ...um barco de brinquedo no Serpentine, êxtase - êxtase, isso sim, é que importa.(...)"
Pág. 162

"(...)a literatura, depois de comer todos esses jantares, ficava muito corpulenta; em seguida... ...que a literatura, ouvindo todas essas conferências, ficaria muito seca; depois... ...que a literatura, usando todas essas estolas de pele, iria ficando muito respeitável; depois... ...que se o gênio necessita de todo esse mimo, vai ficando muito delicado.(...)"
Pág. 163

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   Vários (2) comentaram:
Eu queria tanto ser organizada com minhas leituras assim...¬¬
    por: Blogger Ana "Quindim Girl" Rodrigues @ 23/06/07 23:22  

Cara, sua resenha está bem feita! Puxa, depois me dá umas aulas de resenha? =P
    por: Anonymous Giseli @ 24/06/07 11:43  

 
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