Fernando S. Trevisan - Leituras


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Fernando S. Trevisan
2007-2008
Arquivos (mês.ano)

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Lendo
Na fila de leitura
Acompanho

  Web #8
Em Leituras
@ 28.8.08 14:30


Mais uma seleção heterogênea de mini-resenhas das coisas que leio pela web afora, além de avisos sobre sites, blogs, vídeos, etc.

O pit bull é manso, mas o dono dele já mordeu uns quantos (12-16)

Por Simone Saueressig
www.porteiradafantasia.com

Inicialmente, é impossível não criticar o modo como a Simone publicou esta novela infanto-juvenil. Inicialmente disponível em um endereço no seu site - como resenhei no Web #7 - ao término ela modificou o endereço, tornando o anterior inacessível - e assim, o link da resenha se perdeu. Para completar, na nova página HTML disponível para visualização on-line, o texto ficou centralizado - o que, em monitores widescreen mais modernos, faz com que a leitura fique difícil pelos espaços em branco ao lado do texto - veja aqui. Finalizando, ela ainda colocou tudo em uma página só, tornando a rolagem extremamente longa e eventuais links para os capítulos inexistentes - portanto, para ler o 12º (que foi onde parei anteriormente), eu tive que rolar a página e procurar.

Como eu disse antes, a web é como outra mídia qualquer. É necessário ter cuidados com a publicação, desde escolha de cores, formatação, disposição do texto na página, uso de endereços amigáveis, técnicas para simplificar a indexação pelo Google e outros mecanismos de busca, divulgação... da mesma forma que um livro precisa tomar certos cuidados para ter mais chances de atingir seu público, a web também.

Passada essa (longa) crítica, vamos ao texto - que é o que realmente importa. A Simone prova novamente que é uma grande escritora. A história é empolgante, viciante, a leitura flui sem empecilhos. O final é ótimo - embora eu esperasse e preferisse um final um pouco mais longo, com algumas coisas se resolvendo de forma mais pausada e sem tanta explicação. Mas é uma obra fechada, sem pontas, com uma excelente solução. Excelente.

FreakAngels 18-25 (em inglês)

Por Warren Ellis (texto) e Paul Duffield (arte)
www.freakangels.com

Continua a história da gangue - ou família? - que tem poderes mentais e controla parte de uma Londres pós-apocalíptica, imersa em água e totalmente caótica. Ellis é um excelente roteirista e FreakAngels é um grande exemplo. Antes de finalizar o arco inicial, Ellis e Duffield fizeram o anúncio da versão "hard" desses quadrinhos, com duas opções - uma capa-dura e outra capa normal. Se você lê inglês mas não gosta de ler on-line, é uma boa pedida.

O enredo passa agora por um momento emocionante e aguardar o desfecho deste arco está sendo "penoso". Mas toda sexta-feira novas páginas são publicadas e vale a pena esperar e conferir.

E Atenção: Notícia Urgente

Por Romeu Martins
terrorcon.blogspot.com

Os terroristas da conspiração atacam novamente! Em um conto excelente, cheio de referências e de pistas falsas, o Romeu mostra que seus terroristas estão mais infiltrados - e são ainda mais insidiosos - do que se imaginava. Muito bom!

Casamento

Por Gian Danton/Ivan Carlo
ivancarlo.blogspot.com

Um ótimo e divertido conto sobre a "problemática" do casamento, da esposa mandona e do marido passivo.

O Caçador

Por Tibor Moricz
tmoricz.livejournal.com

Chocante, intenso e sangrento. Neste conto o Tibor consegue colocar diversos temas comumente tratados como tabu de forma crua e direta. A história prende, flui bem e tem um final condizente, infelizmente um pouco previsível, mas nada que realmente estrague o conto - minha opinião, é claro. O resultado final é instigante e estou ansioso para ler os demais contos no livro "Fome", que será lançado em breve pela Tarja, segundo o autor.

Um aviso: tenho certeza que muitos leitores sentem-se realmente chocados com algumas situações retratadas no texto; eu também fiquei desconfortável... mas não é realmente chocante para mim. O "universo" em que a história se passa permite isso, é algo comum aos personagens, um fato da vida. Mas, esteja avisado! Não é leitura para qualquer um, com certeza.

Diálogo entre o Anjo e o Demônio

Por Ludimila Hashi
milahashi.livejournal.com

Neste diálogo inteligente e cheio de simbolismos - recado entendido, Ludi, interpretarei! :) - vemos um anjo que vai além de seu papel de subalterno sem no entanto realmente desafiar ou quebrar as regras e um demônio que, apesar dos pesares, é inteligente o suficiente para reconhecer no outro a vitória final, a quebra do arquétipo, aquele que é para além da regra, da definição e mesmo do auto-entendimento... ótima leitura, especialmente acompanhando as notas pós-texto e os comentários dos leitores.

Ataegina - Moonspell

Por Ana Cristina Rodrigues
letraevideo.wordpress.com

Como essa é a primeira mini-resenha do "Letra e Vídeo" por aqui, cabe explicar: o blog reúne textos baseados em vídeos de músicas do YouTube, embora em alguns casos o respectivo vídeo falte - provavelmente, removido por problemas de direitos autorais, algo comum no portal de vídeos.

Este texto curto da Ana Cristina é um ótimo começo - das minhas mini-resenhas, não do blog, que tem textos anteriores a este. Confesso que não vi o vídeo nem ouvi a música, mas a história é muito boa. Em Roma, durante uma invasão "bárbara", a filha do imperador aguarda seus inimigos que, ignorantes dos poderes que protegem Roma, terão uma pequena surpresa...

A Partida

Por Nazarethe Fonseca
jornaldepoesia.jor.br/nazarethe2

Ótimo conto da Nazarethe, o drama de uma mulher grávida prestes a ser abandonada pelo marido ganha contornos mórbidos quando ela corre risco de sofrer um aborto... confesso que o final me surpreendeu e de certa forma chocou; quando eu estava pensando que era apenas um texto bom, o fechamento dá uma reviravolta e muda tudo.

Between the Bars - Madeleine Peyroux

Por Mariana Gouvin
letraevideo.wordpress.com

Além da ótima escolha musical, a Mariana teceu uma história melancólica, com um toque de FC, bastante singela e bonita. Não sou o maior fã deste tipo de narrativa, mas o texto é muito bom e vale conferir, em conjunto com o vídeo da música escolhida, uma excelente combinação.

Os mortos não choram...

Por Nazarethe Fonseca
jornaldepoesia.jor.br/nazarethe1

Mais um bom texto da Nazarethe. O tema de certa forma se repete em relação ao anterior, mas ainda assim a história flui e o final é bom. Não fossem os erros de digitação, de revisão, poderia dizer que é ótima - mas eles atrapalham o andamento e prejudicam a experiência do leitor. Ainda assim, uma boa leiura.

Do the Evolution - Pearl Jam

Por Ana Carolina Silveira
letraevideo.wordpress.com

Uma história interessante - embora bastante previsível - sobre um líder mundial (planetário!) e seu método para resolver os problemas... Vale pela música e excelente clip, animação desenhada por Todd McFarlane, na época em que ele ainda era gente.

Sheep go to Heaven - Cake

Por Rafael "Lupo" Monteiro
letraevideo.wordpress.com

Um texto interessante mas apenas regular do Lupo, onde um rapaz ignorado e humilhado no colégio resolve se vingar, para depois descobrir que foi uma péssima idéia. Embora a música (e seu clipe) sejam ótimos e a história seja condizente, achei bastante previsível e fraquinha, até em vista do que o Lupo já fez por aí.

ADSENSELESS - Parte 3

Por Márcio Massula Jr.
txt.blogsome.com

Continua a inusitada saga do Sr. Macanudo e seu anúncio na testa! Angustiado por problemas sentimentais, o protagonista procura a ajuda de seu melhor (e sarcástico) amigo, enquanto aprende a conviver com a realidade do anúncio na testa. Bom, mas a história precisa andar mais e o Márcio demora muito a publicar os "novos capítulos". Márcio, publica logo aí, meu! :)

Crônica Gonzo

Por Ludimila Hashi
milahashi.livejournal.com

Uma crônica reflexiva sobre como uma caminhada em São Paulo pode trazer reflexões, insegurança e o contato com o outro, aquele que tememos, ignoramos e/ou evitamos. Inteligente e com uma dose de inocência surpreendente, uma história interessante sobre a metrópole.

She Wants Revenge - True Romance

Por Marcelo Jacinto Ribeiro
letraevideo.wordpress.com

Um excelente conto sobre as conseqüências de tentar prever o que acontecerá em nossos relacionamentos. Prever o futuro, na maior parte da ficção, não é uma idéia muito inteligente. Infelizmente o vídeo com a música não estava mais disponível pra saber se um casava com o outro, mas o texto é recomendado.

Simbolismos menos Herméticos (I hope I hope)

Por Ludimila Hashi
milahashi.livejournal.com
e republicado como:
Never the Same - The Supreme Beings of Leisure

Uma reflexão interessante - com comentários idem - sobre as diferenças, complementos e distâncias entre os homens e as mulheres. Um bom texto simbólico da Ludimila.

O Mundo Real da Ficção Científica

Por Marcelo Marcio
www.overmundo.com.br

O autor analisa e desmistifica a ficção científica, ligando a nossa realidade com o que as obras retratam e mostrando como a FC é utilizada por diversos autores para falar sobre o agora e os dramas humanos, apenas com a diferença da roupagem futurista ou espacial.

Embora eu considere a análise dele limitadora, é um excelente apanhado de exemplos e de analogias, citando diversos livros e autores seminais para o gênero, tanto internacionalmente quanto aqui no Brasil.

Avisos

A revista Wainscot apresenta o "irregular webozine" Behind the Wainscot, apresentando o material que é bom mas não "coube", por assim dizer, nas edições da revista. Vale conferir a proposta - em inglês.

O onipresente Fábio Fernandes (!) publicou uma série de resenhas dos livros, contos, novelas, etc indicados ao Hugo. Excelente leitura e guia sobre o mais conhecido prêmio de FC&F do mundo! Os links, na ordem de publicação:
Parte 1, 2, 3, 4, 5, 6 e 7. É bom lembrar que vale conferir as outras resenhas (em abundância, aliás) do Fábio nos diversos blogs dele, que linkei ali no começo do texto ou no Le Monde diplomatique, como esta sobre "A Defesa Lujin", de Vladimir Nabokov.

Ainda falando de resenhas alheias, o Lúcio Manfredi atacou de forma genial o romance "A Mão que Cria", de Octavio Aragão. Minha opinião é de que, quando sair a segunda edição - porque ela virá, eu aposto - esse texto deveria ser incluído ao final do livro.

Romeu Martins, por sua vez, voltou a atacar no Overmundo com "Ficção Científica Semestral", uma resenha da elogiada revista Portal Solaris - que não tem representação on-line e nem venda, apenas distribuição selecionada. Aliás, o Fábio Fernandes também resenhou a revista, no "diplo" - eu disse que ele é onipresente, não disse?

Foram publicados diversos vídeos com entrevistas nestes dois meses sem o Leituras Web: Octavio (¹) Aragão (²), Cristina Lasaitis, Nazarethe Fonseca, Richard Diegues...

Um novo site foi criado, também: o Fantastik, capitaneado pelo Eric Novello, que promoveu a maioria das entrevistas acima e que tem um projeto ambicioso de falar sobre a literatura fantástica no país.

Uma entrevista com o sempre excelente Braulio Tavares pode ser lida aqui - junto com outros autores interessantes, aliás, na Substantivo Plural.

O Jacques Barcia (com o Fábio Fernandes - olha ele aí de novo) fez uma excelente entrevista com China Miéville, autor do premiado "Perdido Station Street", em que ele fala sobre seu trabalho; o New Weird; ficção para jovens; sua "não-presença" on-line - concordo com os argumentos dele, aliás, uma vez que eu mesmo estou me retirando de diversas listas e grupos on-line, em prol da minha produtividade. Mas, é importante notar, ele não "dispensa" o meio, apenas não tem nada adequado a publicar nele. Vale a pena conferir.

Clinton Davisson, autor do bom "Hegemonia" e do ótimo "Fáfia - A Copa do Mundo de 2022", atualizou seu site com um blog, na realidade "migrado" do seu antigo "The Purple Alien Invaders". Ótimos textos (que receberão mini-resenha no próximo Leituras Web), com muito humor e inteligência. A reclamar, a falta do recurso de "página do post", que permite linkar individualmente cada texto e o fim do RSS feed para acompanhamento do blog. Clinton, facilita a vida dos leitores, vai! :)

Ana Cristina Rodrigues avisa que continua, sim, trabalhando em seu romance, Finisterra, com uma "cross-publicação" lá no Letra & Vídeo, que "mini-resenharei" no próximo Leituras Web.

O site HQNado! (ótimo, aliás) publica on-line a divertida edição roteirizada por Gian Danton de "A Estonteante Mulher Estupenda". O mesmo Gian ataca em Exploradores do Desconhecido. Para "fechar" a parte de avisos sobre HQs on-line, recomendo novamente o "Nerdson não vai à escola". Apesar do conteúdo criado pelo Karlisson algumas vezes ser complicado para não-programadores, as tiras são em geral bem acessíveis, com humor delicioso. A série sobre propagandas políticas, aliás, é ótima.

O mesmo Gian Danton (Ivan Carlo?) - bastante profílico, aliás - faz uma longa e extremamente didática seqüência de textos sobre a história dos quadrinhos (começa aqui e aqui tem um índice, improvisado), incluindo os nacionais. A reclamar, só o fato de não haver um índice específico destes textos, sendo que o autor nem utiliza uma tag (ou etiqueta) para organizar tudo e facilitar a vida do visitante.

Para fechar este "Leituras Web", uma tradução de "Printcrime", do Cory Doctorow (autor de FC que escreve no famoso blog BoingBoing), bem como links para outros textos dele, todos em português, é claro:
"Down and Out in the Magic Kingdom" (também em português de Portugal) e "Scroogled" (também em pt-pt). Agradecimentos ao "fabi on Eves" e ao Saint-Clair pelos links lá na comunidade de FC (e do CLFC) Orkut.

O próximo Leituras Web deve acontecer logo no começo de setembro, pois existem resenhas do Letra e Vídeo, Terroristas da Conspiração, Clinton Davisson, Ludimila Hashi, Mary Robinette Kowal, Jorge Candeias, Rogério Amaral de Vasconcellos e outros engatilhadas. Até lá!

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Depois de ler os textos do Fábio e do Jacques (listados ali no "Veja Também") resolvi escrever sobre o tema. Em primeiro lugar, um esclarecimento sobre o propósito do Leituras: a idéia aqui é coletar as minhas impressões sobre praticamente tudo o que tenho lido, tanto on quanto offline.

Postando aqui, garanto que não vou esquecer do que li, tenho um arquivo de consulta rápida (viva o "site:" do Google) e ainda ajudo a divulgar o autor, algo que me incentiva, também.

Porém, sexta passada, na Bienal, aconteceu algo novo: eu "ganhei", por assim dizer, a coletânea "Amor Vampiro" das mãos da Giulia Moon, cortesia do pessoal da Giz Editorial, que me pediu para resenhar o livro e ajudar na divulgação.

Aí surgem as questões: posso ser totalmente honesto? Se não gostar, posso criticar mesmo? Uma coisa é "massacrar" um livro que paguei para ler, que investi tempo e me desagradou. Outra é ganhar algo e sair criticando.

Mas, desde o começo, minha intenção nunca foi de massacrar livro algum. Como o Jacques bem coloca no texto dele, existem livros para todos os nichos e alguns não nos atingem. Assim, gostando ou não de um livro, ele deve figurar mais cedo ou mais tarde aqui no Leituras, pois esse é o propósito de ter o blog.

Creio que se aplicam as mesmas regras que tento seguir em qualquer interação social que exija dar opinião ou comentar sobre o produto, idéia ou serviço prestado por outros: não fazer o que não gostaria que fizessem comigo ou com algo que produzi.

Assim, tento concentrar a resenha no texto, na história; dizer logo se gostei ou não; citar os problemas que me impediram de gostar, se for o caso - como má revisão ou desenvolvimento de história/personagens; tema ou final ruim; estilo pomposo (que é algo que dificilmente me agrada, em especial em autores novos), etc.

Mas, o principal talvez seja que eu sempre tento deixar claro que é minha opinião e minha leitura. Não me importam as intenções do autor, sua agenda política, nada. Aliás, quanto menos eu souber previamente sobre isso, melhor, influencia menos minha interpretação do texto.

Sempre me revoltei com as aulas de interpretação de texto justamente por muitos professores forçarem que devemos interpretar de tal e tal forma. O texto final, escrito pelo autor e revisado, impresso e enfim comprado pelo leitor é, na realidade, só o começo. A história só acontece mesmo durante a leitura, dentro da interpretação, conhecimento, referências e entendimento do leitor.

Da mesma forma, não existe o entendimento "certo" ou "errado", apenas o entendimento do momento em que a história é "vivida" pelo leitor, que pode mudar (e geralmente muda mesmo) em eventuais releituras. Não me importo, quando escrevo ficção, se o leitor interpreta as coisas como eu pretendia. Ele pode ter uma releitura totalmente diferente e, inclusive, mais interessante do que eu originalmente pretendia.

Tudo isso não garante que autores reclamem, corrijam ou simplesmente detestem alguma resenha que eu venha a publicar - é apenas minha "bússola interna", meu modus operandi para este blog, que eu achei por bem tornar público e "transparente", por assim dizer. Aí está!

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Por: Max Mallmann
Editora: Rocco, 2003, 1ª edição
224 páginas

Nada melhor para iniciar uma nova fase - com um novo layout aqui no Leituras - do que com a resenha de uma obra excelente: "Zigurate" é o quarto livro de Max Mallmann - ainda não tive a oportunidade de ler os outros, porém isso não deve demorar agora que li este. Um nome conhecido dentro e fora dos meios de ficção científica nacionais, Mallmann é roteirista da TV Globo e um dos grandes talentos consolidados do país, com projeção internacional, inclusive.

Para escrever este livro ele mergulhou no mito de Gilgamesh - a ponto de estudar o idioma e dos capítulos abrirem com caracteres cuneiformes sumérios - entrelaçando a história do mítico rei que buscava a imortalidade com o questionamento às origens do Cristianismo. Não pense, porém, que esse é um romance histórico. Na realidade, a história não poderia ser mais moderna.

Logo de cara somos confrontados com a "sentença de morte" da protagonista, uma balzaquiana francesa que, em conseqüência de genes ruins e dos coquetéis anti-AIDS que toma desde os 20 anos, sofre do coração. "Sofre" na realidade é um eufemismo: o infarto, segundo os médicos, é apenas uma questão de pouco tempo.

Sem amigos realmente íntimos e nem amores, distante de sua mãe, Sophie - nossa quase-morta - não vê outro consolo a não ser continuar vivendo e trabalhando em sua tese de doutorado: um estudo antropológico sobre como o velho testamento bíblico é, na realidade, uma compilação de mitos anteriores ao povo Hebreu.

É nesta pesquisa que Sophie se depara com uma evidência daquilo que ficará conhecido no livro como "Bíblia dos Áureos", uma versão adulterada que dá conta da criação do homem inicialmente a partir do ouro e não do barro, e de fato idêntico a Deus e imortal. Tendo - é claro - desafiado o Senhor, o primeiro homem e a primeira mulher são amaldiçoados a viverem eternamente, sem poderem ter filhos e sendo condenados ao esquecimento por parte dos "humanos de barro", que vivem tão pouco.

Parece incrível que, em um romance com pouco mais de 200 páginas, Paris, Edimburgo e Rio de Janeiro - com criminalidade e favela, inclusive, mas de forma interessante e original - possam coexistir com imortais de ouro, mitos Sumérios e uma francesa à beira da morte? Pois eu recomendo que você leia: o Mallmann atropela tudo e ainda adiciona marqueteiros norte-americanos e políticos brasileiros!

O ritmo do texto não é frenético, está mais para um passeio em uma estrada bem pavimentada, com um bom carro: não há solavancos, as coisas vão fluindo e os acontecimentos sucedem com inteligência e criatividade. Mesmo as reviravoltas e surpresas encaixam com perfeição na trama, que por vezes acelera, especialmente para o clímax ao final.

É uma pena que, nestes cinco anos, a história não tenha dado outros frutos - eu acho que caberiam tranqüilamente continuações ou histórias anteriores no mesmo "universo". No livro chegamos a saber o e-mail de um dos personagens e somos incentivados a escrever para ele na "orelha", mas o endereço já não pertence ao autor e as iniciativas de blogs de personagens não são atualizadas desde 2004.

A edição da Rocco é ótima, bastante durável e com uma capa, cores e diagramação atrativas. Porém, quando recebi o livro fiquei surpreso com a capa: não parecia algo de FC. Confesso que, se visse exposto numa livraria, sem saber quem é o Max e o que ele escreve, nem pegaria na mão para ler a sinopse. Mas, isso sou eu, nerd e fã de fc e fantasia. Eventualmente, pode ser que o livro tenha boa saída com o público "leigo" justamente por esses atributos que, para mim, são defeitos.

Portanto, não se deixe enganar pela capa e nem pelo "rótulo" de roteirista da Globo, que pode soar mal aos ouvidos mais, errr, "literatos". "Zigurate" é literatura de qualidade e o Max não foi finalista do Jabuti - com Síndrome de Quimera - à toa. Atualização: o parágrafo anterior foi mal-escrito por mim e dá a impressão que a capa é de má-qualidade; ela não é. Veja meu comentário abaixo, em resposta ao do Fábio Fernandes.

Cabe ainda uma nota final: o livro está em adaptação para o cinema! Segundo o IMDB, a estréia deve ser em 2009 e ele está em pré-produção... e eu mal posso esperar :)

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Em Leituras
@ 3.8.08 12:30

Veja Também:
Resenha do Romeu Martins no Overmundo
Por: Flávio Medeiros Jr.
Editora: Monções, 2004, 1ª edição
232 páginas

Elogiado primeiro romance do autor, "Quintessência" faz por merecer seus fãs: é uma estréia e tanto, misturando ficção científica, investigação e suspense.

A história situa-se em Minas Gerais - e esta já é uma boa surpresa -, em algum momento após a primeira metade do século XXI, sendo que a data nunca é precisada. De cara somos apresentados a um crime horrendo, aparentemente um atentado terrorista, que termina com seu autor suicidando-se usando uma "Sacred Fire" (ou "Fogo Sagrado"), um tipo de bomba que acaba com tudo o que toca em nível molecular - isto é, o autor do atentado não pode ser identificado, pois nada sobra dele para isso.

Designado para o caso, o oficial Tom Rizzatti fica assustado: ele já viu algo muito parecido, 5 anos atrás... Deste momento em diante temos uma corrida contra o tempo, conforme novas mortes acontecem e a polícia - em última instância, Rizzatti - encontra-se pressionada para resolver o caso.

Mas não pense que o livro é um page turner, no sentido de ser um daqueles livros que você vai pulando palavras e fazendo leitura dinâmica para chegar logo ao final, de tão empolgante. Ele é empolgante, mas a história tem pausas estratégicas, onde o autor inseriu reflexões de seu protagonista (creio que espelhando idéias do próprio autor) sobre a tecnologia, a sociedade e as motivações das pessoas.

Servindo tanto para pausar o ritmo - que poderia ser alucinante - como para acrescentar psicologia e profundidade na obra - que poderia ser rasa -, os pensamentos de Rizzatti fornecem pistas sobre a evolução do mundo e do Brasil nesses mais de 50 anos no futuro, com as implicações morais e éticas decorrentes da tecnologia cada dia mais avançada.

Os personagens não são "super-reais" - exceto pelo protagonista e alguns outros personagens importantes, mas isso não é um problema de forma alguma. As referências à literatura policial noir, aos quadrinhos e à cultura estadunidense são claras, prazerosas e não comprometem a leitura para os leigos nos assuntos - não são crípticas, sendo que muitas são explicadas pelo próprio protagonista, sob a forma de piadas.

Aliás, essa é outra excelente parte do romance, que balanceia o conflito entre a tensão e a profundidade com um humor aliviante, inteligente e não repetitivo. A própria situação-chave do romance, quando começa a se resolver, é cômica - embora trágica. E nisso o romance aproxima-se ainda mais de fatos reais, a despeito de toda a super-tecnologia existente e do distanciamento temporal da história.

Algo que também me atraiu foi o modo como o Flávio consegue projetar discussões atuais para esse seu futuro - só tomando um exemplo, o Brasil tem a Polícia Unificada, isto é, a Civil e Militar de hoje como uma polícia só, mas com dois gabinetes de comando, o civil e o militar. Ou seja, a mesma zona sob um nome só - bem típico do Brasil, bastante realista e ainda assim inovador.

Alguns amigos meus citaram que o livro pede uma seqüência. Eu não acho, mas não reclamaria nada de ler contos ou novelas das "Aventuras de Tom Rizzatti" ou algo assim - mas aí é o fã de histórias policiais/detetivescas, e de ficção científica, falando.

No saldo geral, um excelente livro, um dos melhores dessa "nova geração" de autores nacionais que agora começam a ganhar espaço no "fandom" - e nas livrarias, espero eu. Não consegui encontrar o "Quintessência" para vender on-line, minha edição - com uma simpática dedicatória - foi comprada diretamente do autor na Fantasticon 2008. O e-mail para contato é: livro.quintessencia@terra.com.br. Entre em contato com ele, garanta sua cópia e divirta-se!

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Por: Cristina Lasaitis
Editora: Tarja Editorial, 2008, 1ª edição
176 páginas

Às vezes, fico pensando nas pessoas que resenharam Asimov, Clarke, etc em seu começo de carreira. Era evidente que eles teriam a popularidade e o reconhecimento que tiveram? Soube a crítica, os resenhistas de então, captar isso?

Eu tenho a sensação de que, sendo consistente o crescimento atual da Ficção Científica e da Fantasia nacionais, a Cristina com certeza terá um lugar entre os melhores escritores daqui. E resenhar o primeiro livro dela é uma responsabilidade e uma aposta.

Prematuro? Não creio. Embora tenha começado a escrever recentemente - desde 2004 - a Cristina vem consistentemente emplacando contos em concursos e coletâneas, desde a polêmica "FC do B - Panorama 2006/2007" até a "Visões de São Paulo". Ter um prefácio de Fábio Fernandes em seu livro de estréia não é para qualquer um, com certeza, então creio sim que é uma aposta, mas mais devido ao risco - ou o potencial - de um mercado como o nacional para absorver e realmente recompensar uma escritora como ela.

"Fábulas" é uma coletânea de contos, primariamente de ficção científica, mas com a fantasia aparecendo aqui e ali. É uma bem construída, inteligente e prazerosa colcha de retalhos. Alguns contos interligam-se e, ao final da leitura, a sensação é de que tudo faz parte de um mesmo "multi-verso", onde personagens tão díspares quanto um Inca medroso e sedento de poder, uma cientista inteligentíssima e otimista e um anjo "caído" podem fazer parte do mesmo universo - mas não do mesmo tempo.

Durante todo o livro fica-se com a sensação de que cada conto é apenas um ensaio, uma pequena introdução a algo maior. Como se ela estivesse apresentando pequenas histórias, para nos acostumar com seus personagens, seus cenários... e depois virem os romances desenvolvendo melhor o povo que vive no deserto, tendo que "ressuscitar" o conhecimento perdido da humanidade em velhos computadores ou as aventuras da cientista que ousou tentar matar o tempo - a Susan Calvin da Cristina.

Alguns contos já eram conhecidos do site Nova Visões ou mesmo da coletânea FC do B, e aparecem com algumas modificações aqui. Não é algo ruim - ao contrário, para entender essa "colcha de retalhos" é preciso ler tudo do começo ao fim, identificando aqui e ali onde ela mudou os textos e os interligou.

Não cabe aqui - tanto para não estragar a surpresa do leitor como por não ser o meu objetivo - mapear essas interligações, mas é algo que vai dando prazer de acompanhar conforme o livro se desenvolve. Claro que, como qualquer coletânea, existem contos mais fracos e outros excelentes. Em minha opinião, por exemplo, "Meia-noite", o décimo-segundo conto, que fecha o livro, é um dos melhores textos que já li na minha vida. Mas isso pode ter a ver com a Cristina falar diretamente ao meu "universo" aqui, com personagens que adoram estar on-line, "hackeando" e brincando com os códigos que formam os programas, a rede e os web-sites - e, neste caso, as realidades virtuais também.

Já o conto "Caçadores de Anjos", embora interessante, não captou tanto minha atenção, bem como "Irmãos Siameses". Eles não são ruins, que fique claro - apenas não alcançaram a expectativa que eu tinha antes de ler.

Há em todo o livro, como pode parecer óbvio, o questionamento do tempo, das marcas de sua passagem e de quanto realmente entendemos dele - cientificamente falando - e quanto o sentimos. E talvez essa seja uma chave para entender o sucesso da Cristina - embora meticulosa com os detalhes, com a pesquisa, seus contos não estão focados na ciência, nos mecanismos fantásticos e nem em questionamentos polêmicos. O foco é nas pessoas, em como elas vivem, sentem e reagem ao tempo, aos acontecimentos - frutos do acaso? Ou de um destino?

Algo que inicialmente me decepcionou foi o modo com o a Cristina, em basicamente todos os contos, dá por certo a existência do "Destino". Em "A Outra Metade", por exemplo, têm-se a sensação de uma entrega absurda a um destino sem divindades, sem justiça ou compensação, mas ainda assim pré-definido. Porém, com o correr do livro, vemos que não é bem assim e que há espaço para o livre-arbítrio nesses mundos, mesmo que ele jogue uma parte pequena da história e tenha aparência de ser mais esperança, ilusão dos personagens do que algo real. Bom esclarecer, esta é uma "decepção filosófica pessoal", pois a autora tem todo o direito de posicionar-se como quiser em relação aos seus temas.

Um ponto a criticar é o acabamento do livro, que não é muito durável. Pelo preço de venda da Tarja - R$ 23,00 ou 25, dependendo de onde você comprar - eu esperava um "pocket" melhor acabado ou um livro de "porte normal" com o acabamento que o "pocket" teve. Embora o formato seja um acerto por ser fácil de levar no metrô, ônibus e outros lugares, o acabamento é ruim: minha edição, comprada há apenas um mês e lida por apenas duas pessoas, já está bem desgastada, especialmente a capa. O valor do livro, portanto, deveria ser menor ou o acabamento melhor, creio eu.

Se você leu esta resenha até aqui, deve ter notado que o livro me empolgou. A capacidade da Cristina de falar diretamente no imaginário, de criar descrições interessantes e ao mesmo tempo sem preciosismos desnecessários e de absorver os dramas humanos, tornando seus personagens reais, próximos, é viciante. Recomendadíssimo!

Atualização:
Faltou dizer que, para comprar o "Fábulas", o melhor caminho é acessar:
http://cristinalasaitis.wordpress.com/2008/07/17/como-adquirir-o-fabulas/

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