Fernando S. Trevisan - Leituras


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Fernando S. Trevisan
2007-2010
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Dias 2 e 3 de maio rolou a quinta edição da "Virada Cultural", evento promovido pela Prefeitura de São Paulo, com parceria e apoio de diversas entidades. Nos outros anos em que o evento ocorreu, eu morava em Balneário Camboriú - SC e não tive oportunidade de participar. Resolvi que este ano, estando aqui, iria.

Foi uma excelente decisão. Segue meu relato - bastante pessoal - sobre o evento.

Iniciei minha participação com a longa fila para Les Souffleurs - das 21h40 até 23h, quando finalmente consegui entrar na Catedral da Sé. Toda apagada, com os bancos afastados, apenas a nave central acessível, a visão inicial já era de tirar o fôlego.

Sentados em cadeiras montadas em postes, de 1 a 2 metros do chão, artistas utilizavam longos "canos" iluminados para sussurrar poesia no ouvido das pessoas que ali estavam - por isso a demora para entrar. Circulei pelo ambiente, curtindo a Sé de uma forma que normalmente não é possível vê-la, além do espetáculo visual - e auditivo, pois havia um som de fundo - proporcionado pela performance.

Então, quando tentei ouvir uma das artistas sussurrando poesia, descobri que elas (ou eles, havia homens também) o faziam apenas no ouvido daqueles que escolhiam. Presenciei muita gente reclamando disso - e tive minha parcela de descontentamento. Fiquei um bom tempo tentando com uma, usando a lógica de que elas não deviam escolher e sim ir atendendo conforme fosse possível.

Enquanto esperava - e tentava - acompanhei por duas vezes um senhor baixinho e de óculos trazer pessoas e indicar para a artista que era para escolher AQUELES. Não tenho problema com uma instalação onde você deve ser paciente e curtir o ambiente, o visual e o som, enquanto aguarda uma chance de realmente participar. Afinal, eram muitas pessoas e um tempo de espera era natural. MAS, ver que algumas pessoas, sei lá por qual motivo - ao que pude notar, não eram portadores de necessidades especiais nem idosos nem nada -, tinham preferência, foi algo revoltante, sim.


Mais importante que isso era o espetáculo proporcionado pela instalação. Resolvi ignorar esses problemas e procurar uma artista disposta a sussurrar sua poesia no meu ouvido. Dei sorte com a terceira tentativa - e que sorte. Foi uma experiência extasiante, naquele ambiente, ouvir uma poesia sussurrada, em francês, em meu ouvido - como eu gostaria de ter aproveitado melhor meu curso ao invés de desistir!

O plano original era sair da Sé e tentar ver o Tom Zé no Municipal - porém era preciso chegar uma hora antes do início (às 23h portanto) para pegar ingresso; nesse horário eu tinha acabado de entrar na catedral. O plano alternativo era assistir "Shortbus" e aí vem o primeiro problema da organização: os horários divulgados no site nem sempre foram os horários indicados no folheto com a programação que foi distribuído aos participantes.

"Shortbus" começaria apenas às 2h e não 0h, conforme divulgado. Como não havia indicação de que horário pegar ingresso, se era pago ou não, etc. resolvi seguir até lá curtindo o evento no caminho. Passei por uma instalação - que não consegui identificar qual era - que utilizava o prédio da Prefeitura como apoio. Um projetor simulava uma pessoa passando pelas janelas, abrindo-as, fechando-as, arrancando o papelão que "cobriria" outras, com uma música de fundo. As pessoas se divertiam e brincavam dizendo que era o prefeito que ali estava.


Em frente ao Municipal, na Praça Ramos, estava o "Mass Ensemble - Earth Harp" ou "Harpa Monumental", como chamaram os organizadores. Musical e visualmente bonito, uma pena que "mal localizado" - e foi divulgado como "transformarão um prédio em uma harpa gigante". Quem procurasse um "prédio-harpa" ficaria perdido, uma vez que a instalação foi na praça, utilizando postes de luz como fixadores das cordas da harpa.


Continuei caminhando até o Cine Olido. Vi pessoas usando máscaras - e aí me questiono se era protesto pela sujeirada escatológica pelas ruas ou medo da "gripe suína" -, pessoas reclamando de terem sido furtadas e pessoas sendo atendidas em ambulâncias. Não, não presenciei nada grave, apenas coisas inevitáveis em eventos deste porte. Restaurantes como o "Ponto Chic" abertos me surpreenderam, as filas em frente ainda mais. A multidão, nos espaços maiores e pelas ruas, era assustadora. Mas não passei um aperto sequer, tentativa de furto, nada. No quesito segurança, realmente, nada a reclamar.

Porém chegando ao Cine Olido, descubro que não há ingresso para nenhum evento até seis horas da manhã (ainda era uma hora). Desanimado após a longa caminhada, descansei por alguns minutos no degrau de uma agência de banco e resolvi ir para a Paulista - estava de moto, ainda bem, para os deslocamentos maiores.


Na Casa das Rosas, estava a "Banda Babilaques" que, segundo divulgação, surgiu no segundo semestre de 2008 (nova, portanto) e apresentou um som bastante interessante, com o vocalista desenvolto "tomando" o palco e os músicos misturando com qualdiade diversos estilos (rock pop, blues, hiphop, etc). Uma boa surpresa.

De lá, rumei para o CINESESC a fim de comprar o ingresso para "Stella", de Sylvie Verheyde. Não deveria ter feito isso: a sessão não lotou e ninguém exigiu o ingresso. Voltei ao centro - que tinha boa parte de sua área bloqueada para circulação de veículos - e me perdi caminhando em direção à Praça da República, onde ia assistir "Los Goiales All Stars", banda em que toca o namorado de uma amiga. Quando lá cheguei, tive a única frustração "real" da Virada: a banda não era nada do que imaginei. Por ser o palco "rock", esperava, bem, rock. Mas "LGAS" é uma banda de escracho, por assim dizer, "sucessores" de Mamonas Assassinas e semelhantes. Não é exatamente meu estilo e por isso não fiquei ali muito tempo.

"Stella", por outro lado, reservava o segundo "momento emocionante" da Virada. Filme sensível, sem respostas ou saídas fáceis, sobre um determinado momento da infância de uma garota francesa, que é criada em um bar e pensão dirigido por seus pais. Como é de imaginar, a vida dela é desregrada e cercada de pessoas com diversos vícios. Parcialmente auto-biográfico (segundo o IMDB, linkado acima), o filme tem na garota Léora Barbara - que interpreta Stella - um trunfo, sua interpretação empresta realidade e dramaticidade sem apelos, grandes caretas ou exageros. Excelente filme!

O CINESESC prometia um "café da manhã" para depois do filme e, claro, eu fiquei para participar. Que decepção! Um café meia boca, que nem era da máquina de expresso deles; alguns croissant; uma maçã e um suco de uva de caixinha. Honestamente, preferiria pagar algo e ter um café da manhã decente. Rumei para a Bella Paulista (ignore o site horrível, o lugar é fantástico). De lá o plano era ir para a "Saudação ao Sol" - um exercício de alongamento na Praça Pedro Lessa.

Mas não dava tempo e fui direto ao "Cordel do Fogo Encantado", na Av. São João. Por incrível que possa parecer a algum leitor, não conhecia o som da banda que, a despeito do vocalista exagerado (ou do som mal regulado), gostei. A versão de "Cio da Terra" que tocaram foi intensa.

O "roteiro inicial" ainda incluía "Le Chant des Sirènes", Beethoven na Sala São Paulo e o documentário "Paris, te amo", na Casa das Rosas. Mas a necessidade de um banheiro decente, um bom banho e algumas horas de sono foram maiores do que a vontade de aproveitar o restante do evento.

Rumei para casa feliz, apesar da sujeirada, do mapa meia boca que distribuíram (sem escala, sem algumas ruas, sem localização exata dos locais), da falta de pessoal para informações e do meu próprio péssimo planejamento, que me fez perder tempo localizando lugares que eu já deveria conhecer.

"Les Souffleurs" e "Stella", sozinhos, já teriam compensado esses contratempos. "Babilaques" e "Cordel do Fogo Encantado", além dos diversos eventos de rua, espalhados pelo centro, foram a cereja do bolo. A Virada tem problemas, claro, muita coisa pode ser melhorada para o próximo ano. Mas a avaliação final é extremamente positiva, no mínimo pelas oportunidades únicas que ela proporciona e por toda a movimentação de pessoas de diversas classes sociais e idades em busca de cultura.

Que venha a Virada de 2010!

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Em Leituras
@ 15.5.09 02:00

Sei que é jabá, mas se eu não divulgar, qual a graça, não é mesmo? HOJE, às 19h, no Bardo Batata, será o lançamento do volume 2 da coleção Paradigmas, da Tarja Editorial, com um conto de minha autoria: "Fuga", uma ficção-científica.

Você pode ver o convite - e sinta-se desde já convidado(a) - aqui.

Quem quiser comprar ou saber mais sobre o livro, pode ir direto no site da Tarja ou deixar um recado aqui, para comprar comigo (R$ 13,00 mais frete).

Existem também três sites com promoções distribuindo o livro: POP DICE, RPG On-line e Pensotopia.

Para os ainda mais curiosos, aqui está o pre-release e aqui uma amostra do livro.

Espero a presença de todos que puderem e, aos que não puderem, comprem o livro, comentem (ou critiquem), resenhem, etc. A literatura de FC&F nacional - e eu, claro - agradece!

PS: o primeiro volume da coleção tem contos excelentes e recomendo - uma resenha mais detalhada deve sair em breve. No meio tempo, você pode comprar o vol. 1 clicando na imagem abaixo.

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Por: Aguinaldo Peres, Ana Carolina Silveira, Ana Cristina Rodrigues (também organizadora), Daniel Gomes e Roderico Reis
Editora: Multifoco, 2009, 1ª edição
188 páginas

Aviso: "Espelhos Irreais" terá lançamento em São Paulo no sábado, 9 de maio. Saiba mais.

Primeira coletânea impressa do coletivo "Fábrica do Sonhos", fundado em fevereiro de 2005 pela Ana Cristina Rodrigues (meu conto no volume 2 do Paradigmas teve sua primeira versão em um desafio promovido pelos "operários") é uma conquista e pequena mostra da qualidade que o grupo está alcançando.

A capa, bonita e com cores chamativas - criada por Estevão Ribeiro; a diagramação simples mas efetiva e a orelha escrita por Max Mallmann mostram o apuro e profissionalismo dispensados ao projeto. Só senti a ausência de uma ficha catalográfica, ainda mais que a Ana é uma historiadora que trabalha na Biblioteca Nacional. Mas, óbvio, nada que atrapalhe o livro.

O primeiro conto, "Os Três Trilios", de Aguinaldo Peres, reúne diversos elementos clássicos da fantasia - "buscas", dragões, reis, amores impossíveis, fadas. Mas o autor trabalha de forma inteligente, primorosa até, especialmente se levarmos em consideração as poucas páginas. A estrutura tem algo de fábula, o desenvolvimento é fluido e a história (ou as histórias, de cada um dos trilios), muito interessante. Fica o porém - nítido aqui, mas que repete-se pela obra - da revisão que poderia ter sido mais atenciosa.

Ana Cristina sucede-o com "A Morte do Temerário". Flutuando entre o real e a fantasia, o conto - muito bem escrito - retrata a morte de Carlos, Duque da Borgonha como um evento fantástico, envolvendo uma fênix, traições e grandes buscas por lugares mágicos e lendários. Novamente, a coletânea consegue inovar e surpreender em qualidade e temática, usando dos "clichês" do gênero com inteligência, para prender o leitor a uma boa história, misturando história real (e alternativa?) e gêneros.


Já "Bohtu e o elfo negro", de Roderico Reis, peca justamente por não inovar. É uma boa história, que poderia ser melhor escrita, mas a ladainha do rapazote órfão e desprezado, tentando salvar a princesa e o reino, já foi contada muitas vezes. Não é um conto ruim, apenas comum e sem brilho.

"Prelúdio", de Daniel Gomes, quase me fez desistir. Os clichês tropeçam um no outro, a escrita é péssima e me fez acreditar que o livro não tinha passado por revisão - a despeito do texto impecável de Ana Cristina. Saber que houve duas revisões (pelo menos) só aumentou meu desgosto.


O livro fecha, porém, com o ótimo "Gênese de um Novo Mundo", de Ana Carolina Silveira. Bem escrito, o conto é uma ficção científica com alguns elementos clássicos de fantasia. A história flui bem, porém - como bem apontou Eric Novello em sua resenha - os personagens exercem papéis muito bem definidos de "vilão, herói, mocinha em apuros, etc".

Mais que isso, a história é longa e cheia de informações que não necessariamente ajudam à trama. Seria melhor - visando o conto - que a autora reduzisse a parte explicativa ou fundisse a mesma com a trama atual, criando identificação no leitor com os personagens. Ou, outra opção, transformar o conto em novela e trabalhar melhor a história prévia e o desenrolar dos fatos.

A avaliação final é de que a "Fábrica dos Sonhos" traz grandes promessas de autores - como o Aguinaldo e a Ana Carolina; alguns "diamantes brutos", que precisam de mais trabalho mas estão na direção certa, como Roderico Reis; e autores que realmente precisam rever sua escrita, a despeito de terem idéias boas ou não, como é o caso de Daniel Gomes. Da Ana Cristina não falarei pois espero, em breve, resenhar "AnaCrônicas", primeiro - e excelente - livro "solo" dela.

Aos fãs de fantasia e de bons contos, fica a dica: dêem uma chance para "Espelhos Irreais" e vejam que sim, a internet pode trazer boa literatura, mesmo em gêneros normalmente desprezados, como a FC&F.

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