Fernando S. Trevisan - Leituras


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Fernando S. Trevisan
2007-2010
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Por: Mark Millar (roteiro), Dave Johnson e Kilian Plunkett (arte), etc.
Editora: DC Comics, 2003, 1ª edição em trade paperback (2004)
160 páginas

"O que aconteceria se..." - complete esta frase com quase qualquer possibilidade, das mais ridículas às mais interessantes, e você terá uma visão de tudo que as editoras de heróis já fizeram com seus personagens. A maioria dessas histórias é fruto de oportunismo e não se sustentam. Mas "Red Son" ("Superman: Entre a foice e o martelo" aqui no Brasil, pela Panini) é uma grata exceção.

Neste caso, como deve parecer óbvio, o complemento da frase é: "...a nave do Super-Homem caísse na Ucrânia, e não nos Estados Unidos?". A premissa é boa, mas já imagino o leitor pensando: "ih, lá vem mais uma história super-patriótica mostrando como os Estados Unidos são superiores..." Confesso que pensei exatamente isso antes de ler, mas Millar conseguiu surpreender. Ainda que o roteiro não seja tão "cinzento", sem maniqueísmo, como querem alguns dos que comentaram a série, ainda assim há inovação e espaço para idéias interessantes.

O autor inicia a HQ já em um caminho bastante diferente da maioria das histórias do tipo. Ao invés de recontar toda a origem do herói, sua infância, a doutrinação comunista, etc. Millar partiu do momento em que o mundo descobre a existência de um alienígena super-poderoso. Os primeiros quadros, mostrando a estupefação e o medo norte-americanos, são impagáveis, bem como o discurso caipira e medroso de Martha Kent, ou a "mãe adotiva" do Super na "linha de tempo oficial". Mas a escolha por esse início da história tem outro motivo: contar tudo a partir do ponto de vista norte-americano, usando esse mesmo ponto de vista como uma crítica aos Estados Unidos.

Imagens icônicas

Ainda que anunciado pelos soviéticos como um soldado, uma nova arma que desequilibrava a guerra fria de vez, o Super desta história tem, basicamente, a mesma personalidade do Super "normal". Ou seja, ele ainda vai salvar a todos, sejam americanos ou comunistas. E a primeira oportunidade para o discurso "escoteiro" do personagem aparece logo: após salvar Metrópolis de um satélite russo em queda, ele volta para cidade para impedir que o famoso (e também icônico) globo do "Daily Planet" caia sobre a população. O resultado é a imagem ao lado, um exemplo excelente da iconografia utilizada.

A atenção aos detalhes na arte é ótima: o modo como o Super se veste - ainda de cueca por cima das calças, mas cada vez mais cinza conforme a história evolui, cada vez mais "oficial" e "soldado", chegando inclusive a usar coturnos e luvas, além de golas e ombreiras. Os edifícios comunistas também são bastante fiéis tanto ao que foi construído como ao que foi "sonhado" pela URSS.

Opções ideológicas

O Super-Homem de Millar vai recrudescendo conforme a história avança. De princípio, ele é basicamente um rapaz como seria "Clark Kent" - querendo ajudar o mundo, deixando a política para Stalin, a KGB e outros. Conforme a história evolui - e Stalin morre - ele vai assumindo mais e mais responsabilidades e dobrando o mundo para aquilo que ele considera correto.

Algo que não fica bem explicado na história é a conivência, desde o início, que o Super-Homem tem com as mortes provocadas pelo regime soviético. Em um momento da história, ele assiste ao capitão Pyotr, chefe de polícia e filho bastardo de Stalin, contar como assassinou o pai e a mãe de um garoto de nove anos (que virá a se tornar, é óbvio, o Batman), por imprimirem propaganda contra o regime. Nem uma palavra contra essa barbárie, nem uma ação para acabar com a violência - apenas a conivência passiva de quem está ali para garantir o sistema e prevenir catástrofes naturais, ou ataques inimigos.

É também nessa conversa com Pyotr que fica claro um traço importante da história de Millar, que voltarei mais à frente. Diz o capitão: "Você é o oposto da Doutrina Marxista, Super-Homem. Prova viva de que nem todos os homens são criados iguais." (tradução minha).

Homenagens aos personagens e passagens famosos

Um dos problemas é a necessidade - pela limitação de páginas, provavelmente - que Millar tem de "correr com a história". Ainda que isso não seja efetivamente algo que quebra a narrativa, é perceptível a tentativa de plantar homenagens em diversos pontos da história. Desde o Batman - que tem o pior uniforme, perdendo apenas para aquele filme com o George Clooney... - até a aparição relâmpago do amor de infância do Super - aqui, Lana Lazarenko - passando pelos vilões "clássicos" do herói, que, no entanto, não têm o peso normal: são todos "joguetes" de Lex Luthor. Exceto por Brainiac, o único vilão além de Luthor que tem participação efetiva na história - depois de transformar Stalingrado em miniatura, acaba reprogramado pelo Super para servir à humanidade...

Outros personagens aparecem: a Mulher-Maravilha assume a utopia soviética e luta ao lado do Super-Homem; o Lanterna Verde aparece, mas totalmente modificado, assim como outros heróis têm participação minoritária. O amor entre o Super e Lois Lane existe, mas é reprimido pela impossibilidade de concretização. Ela é esposa de Lex Luthor, ele, a principal arma do sistema adversário. É curioso também como as ilustrações são utilizadas para passar dicas e homenagens, como o processo de independência dos estados que compõem os EUA (visto em um jornal) ou a aparição de uma famosa estrela do cinema em idade avançada, quando na nossa realidade ela teria morrido no auge de sua carreira.

A vitória do ser humano

Talvez o ponto mais importante na história narrada por Millar - que já comecei a tratar anteriormente na citação ao capitão Pyotr - seja justamente uma crítica velada aos quadrinhos. Em todas as histórias de super-heróis, os seres humanos são fracos, dependentes, irresponsáveis. Não que isso não seja verdade, mas sabemos que isso é a "verdade da média". Temos provas - históricas e também atuais - de pessoas extraordinárias, com habilidades, bondade, inteligência, etc. acima da média - assim, claro, como o oposto.

O Super-Homem de Millar - que não tem nome, nem identidade alternativa e humana em nenhum momento da história - é cruel. Para sustentar seus ideais - da mesma forma que fez o socialismo soviético - ele aceita a morte, tanto física quanto da personalidade. Opositores são "lobotomizados" e têm de viver com um aparelho implantado no cérebro que os impede de ir contra o sistema, mas os deixa imbecilizados.


Tal comportamento não seria aceito pelo "Super-Homem original". Ainda que bem-intencionado, a utopia criada por ele é falsa, mantida apenas pelo engenho tecnológico e pela imposição à força das regras. Ainda que a miséria, fome, analfabetismo, etc. tenham sido eliminados (exceto no que resta dos EUA, que resiste), a realidade é que a humanidade não vive - apenas segue dia após dia em uma rotina enfadonha onde nada pode dar errado. Como diz o próprio:

"Moscou funcionava com a precisão de um relógio suíço assim como toda cidade em nossa União Global Soviética. Todo adulto tinha um trabalho, toda criança um passatempo, e toda a população humana dormia suas oito horas diárias, de acordo com as necessidades de seus corpos. O crime não existia. Acidentes nunca aconteciam. Sequer chovia sem que Brainiac estivesse absolutamente seguro que todos tinham um guarda-chuva. Quase seis bilhões de cidadãos e quase ninguém reclamava. Mesmo intimamente." (tradução minha)

Essa "distopia" é combatida com a mesma "precisão de um relógio suíço" por Luthor, que toma posse de um anel dos Lanternas Verdes, assume a presidência dos Estados Unidos e inicia a campanha final para tanto derrotar o Super-Homem como implementar uma utopia alternativa, com resultados interessantes. Recomendo que o leitor não pule ao final da história, que é inteligente e surpreendente.

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Por: Max Mallmann
Editora: Rocco, 2003, 1ª edição
224 páginas

Nada melhor para iniciar uma nova fase - com um novo layout aqui no Leituras - do que com a resenha de uma obra excelente: "Zigurate" é o quarto livro de Max Mallmann - ainda não tive a oportunidade de ler os outros, porém isso não deve demorar agora que li este. Um nome conhecido dentro e fora dos meios de ficção científica nacionais, Mallmann é roteirista da TV Globo e um dos grandes talentos consolidados do país, com projeção internacional, inclusive.

Para escrever este livro ele mergulhou no mito de Gilgamesh - a ponto de estudar o idioma e dos capítulos abrirem com caracteres cuneiformes sumérios - entrelaçando a história do mítico rei que buscava a imortalidade com o questionamento às origens do Cristianismo. Não pense, porém, que esse é um romance histórico. Na realidade, a história não poderia ser mais moderna.

Logo de cara somos confrontados com a "sentença de morte" da protagonista, uma balzaquiana francesa que, em conseqüência de genes ruins e dos coquetéis anti-AIDS que toma desde os 20 anos, sofre do coração. "Sofre" na realidade é um eufemismo: o infarto, segundo os médicos, é apenas uma questão de pouco tempo.

Sem amigos realmente íntimos e nem amores, distante de sua mãe, Sophie - nossa quase-morta - não vê outro consolo a não ser continuar vivendo e trabalhando em sua tese de doutorado: um estudo antropológico sobre como o velho testamento bíblico é, na realidade, uma compilação de mitos anteriores ao povo Hebreu.

É nesta pesquisa que Sophie se depara com uma evidência daquilo que ficará conhecido no livro como "Bíblia dos Áureos", uma versão adulterada que dá conta da criação do homem inicialmente a partir do ouro e não do barro, e de fato idêntico a Deus e imortal. Tendo - é claro - desafiado o Senhor, o primeiro homem e a primeira mulher são amaldiçoados a viverem eternamente, sem poderem ter filhos e sendo condenados ao esquecimento por parte dos "humanos de barro", que vivem tão pouco.

Parece incrível que, em um romance com pouco mais de 200 páginas, Paris, Edimburgo e Rio de Janeiro - com criminalidade e favela, inclusive, mas de forma interessante e original - possam coexistir com imortais de ouro, mitos Sumérios e uma francesa à beira da morte? Pois eu recomendo que você leia: o Mallmann atropela tudo e ainda adiciona marqueteiros norte-americanos e políticos brasileiros!

O ritmo do texto não é frenético, está mais para um passeio em uma estrada bem pavimentada, com um bom carro: não há solavancos, as coisas vão fluindo e os acontecimentos sucedem com inteligência e criatividade. Mesmo as reviravoltas e surpresas encaixam com perfeição na trama, que por vezes acelera, especialmente para o clímax ao final.

É uma pena que, nestes cinco anos, a história não tenha dado outros frutos - eu acho que caberiam tranqüilamente continuações ou histórias anteriores no mesmo "universo". No livro chegamos a saber o e-mail de um dos personagens e somos incentivados a escrever para ele na "orelha", mas o endereço já não pertence ao autor e as iniciativas de blogs de personagens não são atualizadas desde 2004.

A edição da Rocco é ótima, bastante durável e com uma capa, cores e diagramação atrativas. Porém, quando recebi o livro fiquei surpreso com a capa: não parecia algo de FC. Confesso que, se visse exposto numa livraria, sem saber quem é o Max e o que ele escreve, nem pegaria na mão para ler a sinopse. Mas, isso sou eu, nerd e fã de fc e fantasia. Eventualmente, pode ser que o livro tenha boa saída com o público "leigo" justamente por esses atributos que, para mim, são defeitos.

Portanto, não se deixe enganar pela capa e nem pelo "rótulo" de roteirista da Globo, que pode soar mal aos ouvidos mais, errr, "literatos". "Zigurate" é literatura de qualidade e o Max não foi finalista do Jabuti - com Síndrome de Quimera - à toa. Atualização: o parágrafo anterior foi mal-escrito por mim e dá a impressão que a capa é de má-qualidade; ela não é. Veja meu comentário abaixo, em resposta ao do Fábio Fernandes.

Cabe ainda uma nota final: o livro está em adaptação para o cinema! Segundo o IMDB, a estréia deve ser em 2009 e ele está em pré-produção... e eu mal posso esperar :)

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Em Leituras
@ 13.7.08 01:35

Veja também:
"PS"
Continuando a série de artigos sobre a FANTASTICON 2008... se você chegou aqui agora, leia a Parte 1 e a Parte 2 primeiro.

"Um olhar sobre a literatura fantástica atual", Fábio Fernandes, Guilherme Kujawski, Jacques Barcia e Sérgio Kulpas

Quero iniciar este texto dizendo que é impossível dar uma descrição tão detalhada quanto a que fiz da palestra do Octavio. Em primeiro lugar, não foi uma palestra "linear", com um conteúdo específico: foi muito mais um debate aberto, com interferência constante (e geralmente positiva) do público e troca de idéias entre os palestrantes - importante dizer que não há julgamento de valor aqui.

A mesa/palestra teve início com uma longa exposição - embora de forma alguma cansativa - do Fábio Fernandes sobre o "New Weird" e o novo na ficção científica. É preciso dizer que, apesar de ser uma mesa sobre a "literatura fantástica atual", falou-se muito mais em FC e um pouco de fantasia, sendo que os outros gêneros praticamente ficaram de fora. Novamente, isso não foi ruim!

Um dos primeiros livros citados foi "Perdido Street Station", de China Miéville, autor britânico. Comparado por Fernandes com "Neuromancer", de William Gibson - autor no qual o palestrante é especialista - devido a quebrar paradigmas então vigentes na literatura fantástica. A história envolve ficção científica, steampunk, magia e mitologia; sendo um exemplo perfeito da "New Weird".

Fernandes deu continuidade a sua fala com um clamor aos escritores que busquem e criem novos referenciais além dos clássicos como Clarke, Asimov e Heinlein - sem ignorá-los, claro - no que foi secundado por todos os participantes da mesa; que é necessário ler tanto para ter referências ("e por que não absorver estilos alheios? Por que não se influenciar?") e também para não "plagiar", para realmente inovar. Contraditório? Não: é assim que tudo vem sendo feito há tempos, como bem destacou o Octavio na palestra de sábado.

Conforme a globalização avança, ainda segundo o palestrante, devemos ter mais obras inovadoras de povos que tinham sua produção "represada" até agora, como os chineses, indianos e dos países do leste europeu. Não apenas a produção, mas também os temas estão globalizados, sendo um sinal disso os livros "River of Gods" e "Brazyl", ambos de Ian Mcdonald, ganhadores do Prêmio da Associação Britânica de Ficção Científica e indicados ao Hugo Award.

Se autores britânicos podem escrever sobre a Índia e o Brasil - e o melhor, com qualidade, sem cair nos clichês - por que não podemos escrever sobre o medieval? Por que não explorar os temas, os países, o mundo? Se houver inovação, não há motivo para limitar-se.

Desta análise a conversa focou no mercado nacional, que apresenta sinais claros de melhoria. Aumentou a quantidade de livros publicados - ainda que muitos sejam clássicos antigos ou republicações, há muitos novos autores nacionais publicando. Existe um aumento de eventos relacionados aos gênero fantástico - como as mesas promovidas pela Livraria Cultura em SP - e estes têm obtido boa recepção de público, para além do "fandom". Há ainda uma sintomática movimentação on-line, com as comunidades relativas ao gênero tendo participação massiva. Novas revistas, e-zines e publicações exclusivamente on-line também surgem quase que mensalmente.

O Fábio indicou ainda uma mudança de postura, como no caso do autor Nelson de Oliveira com seu "Subsolo Infinito", que é claramente literatura fantástica, publicada por uma grande editora e com boa recepção de crítica, mas que inicialmente não "se assumia" - a velha situação, se é bom, então não é de um dos "gêneros fantásticos". A situação está mudando com seu autor aproximando-se do gênero e desejoso de republicar o livro, agora assumindo o gênero¹.

Por fim, citou que há uma "mudança dos tempos" no "fandom" e nos escritores que participam do mesmo, onde o espaço para discussões inúteis, lamentações e imposição de egos está acabando, dando lugar a produção constante, consciente e, cada vez mais, com qualidade.

Sérgio Kulpas assumiu então, destacando que a FC não tenta "prever" ou "falar do" futuro, mas que ela o molda. Como? Devido a conexão que o gênero tem com tudo o que acontece de novo hoje; como Verne fazia e Gibson faz até hoje: lendo o jornal diariamente, estando a par daquilo que ocorre hoje e extrapolando isso, pensando no que isso significa ou no que isso pode influenciar nos anos futuros.

Guilherme Kujawski, que é um dos organizadores da "Emoção Art.ficial 4.0" e autor de "Piritas Siderais - Um Romance Cyberbarroco", considerou a dificuldade em criar FC hoje, devido a velocidade das mudanças tecnológicas, lembrando novamente de Gibson com seus "Reconhecimento de Padrões" e "Spook Country", que ocorrem nos tempos atuais, abandonando a ficção científica especulativa, pois ela já aconteceu na realidade.

Houve também uma citação que o Kujawski fez referente a um autor que não recordo (e que não consegui anotar a tempo), mas que dizia que existem três grandes problemas que a humanidade precisa resolver: o crescimento populacional, a imposição dos valores ocidentais e o progresso tecnológico¹ e que, resolvendo-se um dos três, os outros dois resolveriam-se por si - e isso poderia ser base para muitas histórias de FC "atualmente".

Kujawski falou também do que considera um problema atual para a FC: a queda para o transcendental; a experiência fora do corpo, o abandono dos problemas e questões de agora para uma solução pós-morte. Há uma tendência para reverter isso - ainda segundo o Guilherme¹ - trazendo uma estética imanente para a arte e, portanto, para a literatura e seus gêneros.

Fábio Fernandes fez um aparte citando o Accelerando, de Charles Stross (que está disponível para download gratuito aqui, em inglês, claro) que trata de um grupo de "realizadores", de pessoas que decidem fazer algo e realmente tomam a tarefa a cabo, mesmo levando séculos para resolver. Assim, o Fábio propõe que os escritores realmente assumam a tarefa de moldar o futuro.

O Jacques Barcia, que até então havia feito apenas alguns apartes e comentários, iniciou uma descrição dos principais "sub-gêneros", por assim dizer, atuais. Iniciando pelo já citado "New Weird", caracterizado pelo surreal; pelo grotesco do corpo, como meio de questionar o real e retratando sempre a cidade, como uma forma de questionar as estruturas de poder. O New Weird teria um componente muito forte de fantasia, porém não escapista e sim entrelaçada com a nossa realidade de alguma forma que a reflita e ainda possa gerar identificação.

Na seqüência ele falou do steampunk como um gênero em alta, senão na literatura ao menos nas animações, cinema, quadrinhos e outros meios mais visuais. Não poderia deixar de ser diferente, pois o steampunk tem uma "levada" muito mais estética do que política e/ou reflexiva, desde sua criação por William Gibson e Bruce Sterling com seu "The Difference Engine". Gerson Lodi-Ribeiro, que estava na platéia, fez um aparte sobre steampunk e história alternativa, mas o Jacques consideruo que steampunk eventualmente pode ser história alternativa, mas não obrigatoriamente, por não haver (muitas vezes) um ponto de divergência bem definido. Da mesma forma, steampunk é exatamente o cyberpunk, porém historicamente deslocado, utilizando tecnologia e estética vitorianas para quebrar com a frieza do concreto, do digital.

Não creio que o steampunk seja forte como literatura, hoje. Porém é forte com certeza como "imagem", como "imaginário". A quantidade de coisas criadas em torno da estética é estonteante, especialmente nos Estados Unidos.

Outros dois temas abordados foram o pós-humanismo, que seria o fim do corpo como conhecemos, sendo algo totalmente diferente no futuro e a new space opera. O pós-humanismo "per si" gera muita polêmica, especialmente em mentes mais "cruas", mas é uma realidade já hoje: quantas pessoas não vivem quase normalmente às custas de modificações corpóreas como marca-passos, próteses e similares? As técnicas de "brain hacking" estão tornando-se constantes em publicações científicas como um debate atual que precisa ser travado. A alteração do corpo por motivos estéticos também já é bastante comum, desde implantes sub-cutâneos até modificações mais extremas como bipartir a língua.

Isso indica que a FC ainda tem sim caminhos a percorrer, mesmo no meio especulativo. Não pude deixar de lembrar de Warren Ellis e seu "Transmetropolitan", onde um rapaz deixa seu corpo para viver como uma "poeira nanorobótica", fazendo "download" (ou "upload"?) de seu cérebro, de sua consciência, para essa "nanopoeira", que ele pode manipular de qualquer forma, inclusive dando aspecto "humano". Neste ponto, todos na mesa foram a favor de boas histórias, com elementos humanos, ao invés da mera "previsão futurística", no que foram aparentemente secundados pela platéia. Outra associação imediata foi com um conto de Cristina Lasaitis, onde o ato de deixar seus "corpos virtuais", pós-humanos, para trazer a "realidade física, limitadora" traz conseqüências funestas aos protagonistas.

A New Space Opera, por sua vez, seria uma atualização de Flash Gordon e Buck Rogers (exemplos), tendo a grandeza, a conquista espacial, grandes impérios com o elemento épico e a estética como chaves para a renovação do gênero. Removendo as "princesas" e o heroísmo maniqueísta original, claro.

Ao final da palestra, fiquei com a certeza de que existem chaves para a nova FC ou mesmo para a nova literatura fantástica, sendo a principal delas a "estética". Do papel que o "design" tem em nossa vida até a "imagética" que envolve os novos gêneros descritos, em tudo a estética exerce uma força enorme, quando não predominante, como no caso do steampunk e da new space opera.

Por fim, o Jacques anunciou a revista Kalíopes (que foi ao ar no site do CLFC ao mesmo tempo que o e-zine Somnium Nº 101) e a Terra Incógnita, uma revista editada em conjunto com o Fábio Fernandes, que será primariamente publicada em inglês, visando alçar a produção nacional ao alcance mundial. Atualização: Fábio Fernandes avisa nos comentários que a revista não será, inicialmente, em inglês, apenas o blog Post-Weird Thoughts, que já é em inglês, será incorporado. Porém avisa também que os planos são de publicações em inglês no futuro, sim, o que não invalida meu comentário abaixo :)

Particularmente, não só quero aplaudir como festejar a iniciativa. Faz tempo que debato, especialmente na extinta (infelizmente!) lista da Intempol, que a internacionalização não só é uma saída para o mercado de nicho que é a literatura fantástica aqui no Brasil, como também a via mais "futurista" possível. O uso de inglês tende a difundir-se cada vez mais, sendo já a linguagem padrão nos negócios e no turismo. O lançamento de um fanzine como o Fabulário em inglês, dentro de uma feira literária nacional, apenas reforça essa impressão e o acerto da iniciativa. Sabendo ainda que eles têm diversos textos de grandes autores anglófonos para publicar, a coisa só fica melhor.

O Kulpas e o Kujawski, por sua vez, anunciaram planos de publicar livros, sendo um em conjunto e outro "solo" (do Kulpas). O livro em conjunto, ao que tudo indica, vem sendo desenvolvido há anos e trata-se de dois irmãos que comunicam-se apenas via cartas (ou e-mails?) e que refletem sobre suas vidas em ambientes totalmente diferentes, um imerso na cidade, na urbanidade e o outro em um ambiente mais saudável/bucólico¹.

Achou esta descrição da mesa muito cheia de referências, links? Sua cabeça está explodindo com a quantidade de coisas faladas, com a diversidade de assuntos? Se a reposta for sempre "sim", então eu consegui passar para você o que foi estar lá. Era impossível anotar tudo de interessante que vinha à tona! Caso contrário, fique ligado para a FANTASTICON do ano que vem e, se alguma mesa deste estilo, com algum desses caras (ou, melhor ainda, todos juntos) estiver na programação, não perca!

Aproveito para pedir desculpas pelo atraso na publicação deste relato, espero que o resultado final tenha compensado a espera!

¹ Aqui escrevo de memória e, como já faz uma semana praticamente, posso estar errado. Corrijam-me nos comentários se for o caso, por favor!

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Em Leituras
@ 10.7.08 13:20

Veja também:
Parte 3

"PS"
Continuando a série de artigos sobre a FANTASTICON 2008... se você chegou aqui agora, leia a Parte 1/3 primeiro.

"A Ficção como base para uma nova realidade: de Baker Street ao Sítio do Picapau Amarelo", Octavio Aragão

A palestra teve início com um pouco de atraso, mas começou bem, com uma surpresa: um "clipe" da nova HQ "Para tudo se acabar na quarta-feira", que se passa no "multiverso" da Intempol. Muito bem produzido, o vídeo deixou todos ansiosos pela publicação.

Logo após - e aqui estou me guiando tanto pela memória quanto pelas notas que fiz - Octavio apontou a pós-modernidade como chave para toda a palestra. Contrapondo a "leitura funcional" - extremamente popular hoje com os best-sellers de auto-ajuda - e a leitura "por prazer", apresentou a visão de que a realidade hoje é composta pela ficção.

Segundo o palestrante, quando assistimos a um jornal, o "fato" ali apresentado é incompleto e depende da nossa imaginação e interpretação para tornar-se real. Dessa percepção - e de dados como a pesquisa onde os entrevistados disseram que Winston Churchill era ficcional e Sherlock Holmes, real - conclui-se que a realidade é composta pela ficção e que descartar uma leitura por ser "ficcional demais" ou não-utilitária é não atentar para o que fazemos diariamente, mesmo que inconscientemente.

O "mix" entre personagens e fatos "reais" (ou "históricos") com personagens e fatos "fictícios" foi um dos temas mais presentes na palestra do Octa. Desde Homero e a Ilíada, passando pelos folhetins - que teriam realmente iniciado a confusão de "real" com "ficcional" na mente do leitor, talvez por serem seriados - até as "biografias" de Holmes e de outros personagens ficcionais, o "crossover" realidade vs. ficção está presente na literatura e no imaginário das pessoas.

O "mapeamento" invocou a confusão com direitos autorais - o que fazer no caso de "reaproveitamento" de personagens como, por exemplo, Alan Moore fez em seu "Lost Girls"? Essa é uma questão atualíssima, que o palestrante soube trazer à tona com uma visão histórica - os direitos autorais, especialmente na "ficção alternativa", jamais foram respeitados, a não ser forçosamente, por meio de leis e ação policial ou, em casos raros, preventivamente, por meio de compra ou cessão dos direitos de uso.

Ainda falando nesse "crossover" realidade e ficção, bem como sobre "ficção alternativa", Octavio comprovou que as "fanfics" são muito mais presentes do que se imagina. Citando o infame livro de Jô Soares, "O Xangô de Baker Street" e a obra de Monteiro Lobato (que reconta Peter Pan e inclui diversos personagens de outros escritores em seus livros), a "fanfic" é presente e antiga, recebendo essa denominação e sua atual popularidade com a internet - de onde também vem sua conotação negativa, devido a alguns trabalhos de baixa qualidade publicados on-line.

Aproveitando o tema, Octavio demonstrou que "ficção alternativa" é um termo real, acadêmico, citando o livro de Eric B. Henriet (veja abaixo) e também que seu livro, "A Mão que Cria", foi o primeiro a ser publicado assumindo-se como ficção alternativa, e não o primeiro texto de ficção alternativa publicado no Brasil.

Outro tema, conseqüência dos anteriores, foi o conceito de "Mitoversos", ou os mundos "mitológicos" formados pela união de diversos cenários, personagens e fatos reais e ficcionais, como no caso de Wold Newton, de Philip José Farmer.

Por fim, Octavio citou alguns livros que inclui em minhas anotações para comprar ou pesquisar futuramente: "Encyclopedia of Science Fiction", de John Clute (mais informações); "L' Histoire Revisitée" de Eric B. Henriet e "A Turma do Sítio na Semana de 22" de Márcia Camargos.

A palestra toda foi bastante empolgante, cheia de insights e de referências interessantes. Deu para perceber que o conteúdo foi preparado com esmero e que o Octavio falou de algo que realmente entende. Houveram as "cutucadas básicas", como na questão da importância e qualidade das fanfics, bem como no assunto "ficção alternativa" (conforme descrevi acima). Enfim, uma palestra excelente e com conteúdo relevante. Estou na torcida para que o Octa coloque a palestra on-line para download!

Respondendo aos comentários

Vou aproveitar o espaço para falar um pouco dos comentários recebidos para a parte 1 deste relato. Primeiro agradeço a leitura e a disposição em comentar da Gi, da Cris e do Silvio Alexandre, organizador da FANTASTICON. Creio que é importante avaliar os problemas e as qualidades de toda empreitada, a fim de fazer um ajuste fino nas próximas oportunidades. Embora tenha resultado em um evento "escondido", a mudança de local foi bem justificada pelo Silvio, que lembrou a barulheira (realmente) vinda do pátio no ano passado.

Quanto a ter que escolher entre boas palestras rolando ao mesmo tempo, claro que não era uma "reclamação": sem dúvida prefiro um evento com muitas oportunidades. Como não consegui me ater ao que havia programado, não tive realmente essa dificuldade, mas foi algo que me deixou pensando e planejando antes de ir para lá. E isso é bom! Que o ano que vem nos deixe assim, ansiosos e planejadores, novamente.

Amanhã, a parte final do meu relato da FANTASTICON 2008, com as impressões sobre a mesa "Um olhar sobre a literatura fantástica atual". Até lá!

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