Fernando S. Trevisan - Leituras


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Fernando S. Trevisan
2007-2010
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Por: Mark Millar (roteiro), Dave Johnson e Kilian Plunkett (arte), etc.
Editora: DC Comics, 2003, 1ª edição em trade paperback (2004)
160 páginas

"O que aconteceria se..." - complete esta frase com quase qualquer possibilidade, das mais ridículas às mais interessantes, e você terá uma visão de tudo que as editoras de heróis já fizeram com seus personagens. A maioria dessas histórias é fruto de oportunismo e não se sustentam. Mas "Red Son" ("Superman: Entre a foice e o martelo" aqui no Brasil, pela Panini) é uma grata exceção.

Neste caso, como deve parecer óbvio, o complemento da frase é: "...a nave do Super-Homem caísse na Ucrânia, e não nos Estados Unidos?". A premissa é boa, mas já imagino o leitor pensando: "ih, lá vem mais uma história super-patriótica mostrando como os Estados Unidos são superiores..." Confesso que pensei exatamente isso antes de ler, mas Millar conseguiu surpreender. Ainda que o roteiro não seja tão "cinzento", sem maniqueísmo, como querem alguns dos que comentaram a série, ainda assim há inovação e espaço para idéias interessantes.

O autor inicia a HQ já em um caminho bastante diferente da maioria das histórias do tipo. Ao invés de recontar toda a origem do herói, sua infância, a doutrinação comunista, etc. Millar partiu do momento em que o mundo descobre a existência de um alienígena super-poderoso. Os primeiros quadros, mostrando a estupefação e o medo norte-americanos, são impagáveis, bem como o discurso caipira e medroso de Martha Kent, ou a "mãe adotiva" do Super na "linha de tempo oficial". Mas a escolha por esse início da história tem outro motivo: contar tudo a partir do ponto de vista norte-americano, usando esse mesmo ponto de vista como uma crítica aos Estados Unidos.

Imagens icônicas

Ainda que anunciado pelos soviéticos como um soldado, uma nova arma que desequilibrava a guerra fria de vez, o Super desta história tem, basicamente, a mesma personalidade do Super "normal". Ou seja, ele ainda vai salvar a todos, sejam americanos ou comunistas. E a primeira oportunidade para o discurso "escoteiro" do personagem aparece logo: após salvar Metrópolis de um satélite russo em queda, ele volta para cidade para impedir que o famoso (e também icônico) globo do "Daily Planet" caia sobre a população. O resultado é a imagem ao lado, um exemplo excelente da iconografia utilizada.

A atenção aos detalhes na arte é ótima: o modo como o Super se veste - ainda de cueca por cima das calças, mas cada vez mais cinza conforme a história evolui, cada vez mais "oficial" e "soldado", chegando inclusive a usar coturnos e luvas, além de golas e ombreiras. Os edifícios comunistas também são bastante fiéis tanto ao que foi construído como ao que foi "sonhado" pela URSS.

Opções ideológicas

O Super-Homem de Millar vai recrudescendo conforme a história avança. De princípio, ele é basicamente um rapaz como seria "Clark Kent" - querendo ajudar o mundo, deixando a política para Stalin, a KGB e outros. Conforme a história evolui - e Stalin morre - ele vai assumindo mais e mais responsabilidades e dobrando o mundo para aquilo que ele considera correto.

Algo que não fica bem explicado na história é a conivência, desde o início, que o Super-Homem tem com as mortes provocadas pelo regime soviético. Em um momento da história, ele assiste ao capitão Pyotr, chefe de polícia e filho bastardo de Stalin, contar como assassinou o pai e a mãe de um garoto de nove anos (que virá a se tornar, é óbvio, o Batman), por imprimirem propaganda contra o regime. Nem uma palavra contra essa barbárie, nem uma ação para acabar com a violência - apenas a conivência passiva de quem está ali para garantir o sistema e prevenir catástrofes naturais, ou ataques inimigos.

É também nessa conversa com Pyotr que fica claro um traço importante da história de Millar, que voltarei mais à frente. Diz o capitão: "Você é o oposto da Doutrina Marxista, Super-Homem. Prova viva de que nem todos os homens são criados iguais." (tradução minha).

Homenagens aos personagens e passagens famosos

Um dos problemas é a necessidade - pela limitação de páginas, provavelmente - que Millar tem de "correr com a história". Ainda que isso não seja efetivamente algo que quebra a narrativa, é perceptível a tentativa de plantar homenagens em diversos pontos da história. Desde o Batman - que tem o pior uniforme, perdendo apenas para aquele filme com o George Clooney... - até a aparição relâmpago do amor de infância do Super - aqui, Lana Lazarenko - passando pelos vilões "clássicos" do herói, que, no entanto, não têm o peso normal: são todos "joguetes" de Lex Luthor. Exceto por Brainiac, o único vilão além de Luthor que tem participação efetiva na história - depois de transformar Stalingrado em miniatura, acaba reprogramado pelo Super para servir à humanidade...

Outros personagens aparecem: a Mulher-Maravilha assume a utopia soviética e luta ao lado do Super-Homem; o Lanterna Verde aparece, mas totalmente modificado, assim como outros heróis têm participação minoritária. O amor entre o Super e Lois Lane existe, mas é reprimido pela impossibilidade de concretização. Ela é esposa de Lex Luthor, ele, a principal arma do sistema adversário. É curioso também como as ilustrações são utilizadas para passar dicas e homenagens, como o processo de independência dos estados que compõem os EUA (visto em um jornal) ou a aparição de uma famosa estrela do cinema em idade avançada, quando na nossa realidade ela teria morrido no auge de sua carreira.

A vitória do ser humano

Talvez o ponto mais importante na história narrada por Millar - que já comecei a tratar anteriormente na citação ao capitão Pyotr - seja justamente uma crítica velada aos quadrinhos. Em todas as histórias de super-heróis, os seres humanos são fracos, dependentes, irresponsáveis. Não que isso não seja verdade, mas sabemos que isso é a "verdade da média". Temos provas - históricas e também atuais - de pessoas extraordinárias, com habilidades, bondade, inteligência, etc. acima da média - assim, claro, como o oposto.

O Super-Homem de Millar - que não tem nome, nem identidade alternativa e humana em nenhum momento da história - é cruel. Para sustentar seus ideais - da mesma forma que fez o socialismo soviético - ele aceita a morte, tanto física quanto da personalidade. Opositores são "lobotomizados" e têm de viver com um aparelho implantado no cérebro que os impede de ir contra o sistema, mas os deixa imbecilizados.


Tal comportamento não seria aceito pelo "Super-Homem original". Ainda que bem-intencionado, a utopia criada por ele é falsa, mantida apenas pelo engenho tecnológico e pela imposição à força das regras. Ainda que a miséria, fome, analfabetismo, etc. tenham sido eliminados (exceto no que resta dos EUA, que resiste), a realidade é que a humanidade não vive - apenas segue dia após dia em uma rotina enfadonha onde nada pode dar errado. Como diz o próprio:

"Moscou funcionava com a precisão de um relógio suíço assim como toda cidade em nossa União Global Soviética. Todo adulto tinha um trabalho, toda criança um passatempo, e toda a população humana dormia suas oito horas diárias, de acordo com as necessidades de seus corpos. O crime não existia. Acidentes nunca aconteciam. Sequer chovia sem que Brainiac estivesse absolutamente seguro que todos tinham um guarda-chuva. Quase seis bilhões de cidadãos e quase ninguém reclamava. Mesmo intimamente." (tradução minha)

Essa "distopia" é combatida com a mesma "precisão de um relógio suíço" por Luthor, que toma posse de um anel dos Lanternas Verdes, assume a presidência dos Estados Unidos e inicia a campanha final para tanto derrotar o Super-Homem como implementar uma utopia alternativa, com resultados interessantes. Recomendo que o leitor não pule ao final da história, que é inteligente e surpreendente.

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Por: Ana Cristina Rodrigues
Editora: A1, 2009, 1ª edição
90 páginas

Com o sub-título de "Pequenos contos mágicos", a coletânea - primeiro livro "solo" de Ana Cristina - apresenta exatamente isso: textos rápidos, bem escritos, que transportam o leitor a um mundo de fantasia; mas sem com isso perder a veia irônica e sarcástica característica da autora.


Ana Cristina é uma das poucas pessoas multitarefa e onipresentes do "cenário" de literatura fantástica no país. Presidente do Clube de Leitores de Ficção Cientifica (CLFC); palestrante; divulgadora de obras; fundadora e coordenadora da Fábrica dos Sonhos - um coletivo virtual de escritores; organizadora da coletânea "Espelhos Irreais"; "owner" - ou principal moderadora - da maior comunidade de ficção científica, em português, no Orkut. Dá para passar horas conversando com a Ana sobre as diversas atividades dela - e eu só listei algumas das atividades relacionadas com o "gênero fantástico". Ela ainda trabalha, estuda, é mãe, esposa e cuida de um número flutuante de gatos. Ah, eu mencionei os - no plural mesmo, pois são vários - twitters e blogs? Não? Estão linkados ali no "Veja Também".

Com tantas atividades, é de espantar que sobre tempo para que ela produza literatura, ainda mais com qualidade. Mas, de alguma forma inexplicável, Ana Cristina trabalha em um romance, com título provisório de "Finisterra", participa como autora em diversas coletâneas e ainda publicou em março o ótimo "AnaCrônicas - Pequenos contos mágicos", com capa e diversas ilustrações de Estevão Ribeiro e apresentação de Octavio Aragão.

Uma coletânea honesta, singela e corajosa

Os vinte contos falam de reinos distantes e homenageiam clássicos da literatura fantástica e da fantasia, mas também falam ao presente, tanto por figuras de linguagem como por descrições iluminadas de fatos reais. É o caso do melhor conto do livro, "O mapa para a terra das fadas", em que uma mãe ajuda o filho a lidar com o luto por perder seu coelho de estimação.

"O mapa..." não é o melhor conto apenas pelo componente tocante - fica claro que a história tem bases reais e aconteceu com a autora e seu filho - mas por ser escrito sem os sentimentalismos baratos e sem os clichês que poderiam acometer um autor ao escrever sobre uma experiência pessoal deste tipo. O conto tem o tamanho e ritmo certos, algo que, ainda bem, acontece com outras histórias do livro.

É também em "O mapa..." que Ana Cristina mostra a que veio. O conto tem a honestidade e coragem que são marca pessoal da autora. Ainda que algumas histórias soem amargas de tão irônicas, sarcásticas e ácidas, é na inocência, na singela coragem de ser honesta com sentimentos, impressões e homenagens que ela se destaca.

Fatos históricos e homenagens

"Os olhos de Joana", outro exemplo de conto com ritmo e tamanho exatos, apresenta um breve momento histórico recontado com maestria, mudando completamente a história como conhecemos em apenas seis páginas. Esta é uma habilidade na qual a autora deveria investir, basta lembrar o excelente "A Morte do Temerário", que resenhei em conjunto com os outros contos da coletânea "Espelhos Irreais".

Ana também brinca com a "história" - agora utilizando-a apenas como base para o cenário e situações, sem personagens famosos - em "A Princesa de toda a dor", narrativa em primeira pessoa, utilizando de folclore e elementos indígenas brasileiros; também em "Feitiço sem Nome", onde uma feiticeira, ou bruxa, é acuada por inimigos e se vê obrigada a reagir para proteger a vida... conto este que parece, ou poderia ser, uma continuação para o bom "Chiaroscuro", em que uma feiticeira em busca de vingança se vê envolvida de forma inesperada com um ser que convoca para ajudá-la - já "mini-resenhei" este conto aqui em fevereiro de 2008, mas a versão do livro apresenta um texto mais fluido e é superior ao conto on-line.

As homenagens também estão distribuídas pelas histórias, algumas explícitas, como em "É tarde!", conto de abertura, onde vemos o coelho branco correndo e tropeçando nos personagens consagrados de "Alice no país das maravilhas", tentando não perder a hora para entrar na história da literatura universal; em "A Dama de Shallott", uma visão interessante de um pequeno pedaço da tão visitada lenda do rei Arthur - e aqui, novamente, há de se louvar o fato da autora não cair no clichê previsível de Avalon e do foco nos personagens já conhecidos e desgastados.

Outros gêneros, ou gêneros misturados

Nem todos os contos, porém, falam de magia ou feitiçaria, nem estão calcados em homenagens ou momentos ou personagens históricos. "A casa do escudo azul", por exemplo, é uma ficção científica sobre a construção de um novo mundo utópico após a humanidade quase se exterminar em guerra. "Apocalipse NOW!", outro dos melhores contos do livro, também pode qualificar como ficção científica, com a ironia e sarcasmo afiados da autora no anúncio do evento mais esperado de todos os tempos.

Alguns contos misturam gêneros - fantasia e ficção científica - e homenagens, como acontece no "conto bônus", o excelente "O Sábio de Osgoroth", onde uma garota, um leão, um espantalho e um homem de lata procuram ter seus desejos incomuns atendidos. Já "Borboleta", "Pelo espaço de um momento" e "O último soneto" são contos que se passam em ambientes "reais" ou, ainda, atuais. Os três compartilham a nostalgia dolorida daqueles que amam, buscam algo inalcançável ou que buscam sem saber a que, descobrindo apenas no derradeiro momento - uma homenagem clara da autora ao romantismo?

Há ainda alguns mini-contos, como "Vida na estante" e "Deus embaralha, o Destino corta", que não consigo classificar em algum gênero, sendo contos despretensiosos ainda que bem escritos; assim como "O Senhor do Tempo", que poderia ser menos literal em favor de uma leitura mais rica. O amor que salva ao mesmo tempo que amaldiçoa é o tema de "Como nos tornamos fogo?" e do excelente "Lenda do Deserto". Já "O Baile das Máscaras" e "O Eremita" falam com ironia ácida sobre hipocrisia e decepção com a vida adulta, a vida "em sociedade".

Não apenas uma coletânea, mas uma declaração de princípios?

É possível notar desde o título que esta é uma coletânea pessoalíssima - e isso não é, de forma alguma, um defeito. Em lugar de uma pomposidade empolada, de uma pretensa aspiração aos píncaros da literatura nacional, Ana Cristina escolheu honestidade e crítica, sentimentos expostos e ilusões idem.

Talvez o mais significativo conto nesse sentido seja "Viagem à terra das ilusões perdidas", que está ali com "O mapa para a terra das fadas" como o melhor conto do livro. É um relato irônico e esperançoso, triste mas que mantém algumas portas abertas: paradoxal, enfim - como bem apontou Lúcio Manfredi em sua resenha.

"AnaCrônicas" fala de uma autora que vem amadurecendo seu texto diante do público, com muito trabalho mas também com talento, um potencial enorme que dá esperança de novas e excelentes histórias, tão boas quanto as desta coletânea, talvez o melhor livro de um autor iniciante no gênero fantástico nestes últimos - e "efervescentes" - meses.

Embora o encadernamento não seja a melhor coisa do mundo - e a falta de uma ficha catalográfica espante tanto quanto em "Espelhos Irreais" - o acabamento em geral não é ruim e a capa e as ilustrações de Estevão Ribeiro são ótimas. O livro pode ser comprado diretamente com a autora, na Livraria Cultura ou ainda na Leonardo da Vinci, custando meros 23 reais.

PS: a autora ainda disponibiliza no livro um e-mail para aqueles que quiserem receber material adicional referente ao livro. Ainda estou aguardando o meu, mas pelo que soube, vale a pena escrever e pedir o seu.

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Por: Gerson Lodi-Ribeiro
Editora: Devir, 2009, 1ª edição
360 páginas

Após estrear na literatura impressa com o romance "Despertar", de J. M. Beraldo (conferir a resenha anterior), a equipe do universo ficcional do jogo Taikodom volta à carga com esta ótima coletânea de contos, escritos por Gerson Lodi-Ribeiro.


A aposta que a maioria das desenvolvedoras de games fazem ao contratar escritores já conhecidos no gênero do jogo é a de ter obras de qualidade, com boa vendagem, além de consistentes com o que o jogo propõe. "Crônicas" é um livro que atende a todos os requisitos, além de trazer o melhor do estilo de Gerson Lodi-Ribeiro.

Em sete contos, somos apresentados a diversas peculiaridades desse futuro proposto: de pioneiros desbravadores do espaço até um comandante "louco" em combate a alienígenas inimigos; da relação improvável, e sexualmente diferente, entre uma "spacer" e um terráqueo ressuscitado a um novo Império nos moldes romanos.

Uma viagem pela "geografia" do Taikodom...

Passear pelo tempo e pelo "espaço" - aqui em diversos sentidos - do Taikodom através dos contos de Lodi-Ribeiro é o aspecto mais interessante do livro. Em "Despertar", a história se passa em uma região e, especialmente, tempo bem delimitados. Já em "Crônicas", viajamos para muito além do território do "Consortium", primeiro grupo humano organizado em algo parecido com um governo.

Em um conto curioso, "Guia Tertius do Taikodom para o Turista Independente", o leitor acompanha uma viagem turística pelo Taikodom, aprendendo tanto a "geografia" como muito da história e cultura que envolvem a humanidade no espaço. A narrativa em primeira pessoa, um monólogo da guia turística com o viajante, sem diálogos ou interações reais de outros personagens, é cansativa; mas a intenção de mostrar e contar sobre os planetas, regiões e culturas espaciais é bem sucedida.

O "Guia Tertius" também é um bom exemplo da idéia que, aparentemente, norteou a composição do livro: apresentar as características sócio-culturais (e geográficas, como indiquei anteriormente) vigentes nesta "nova era" da humanidade. Todos os contos, de alguma forma, seguem esta linha, mas "Guia Tertius" e "Despertar do Físico", são os que mais evidenciam suas intenções.

Este último, aliás, é uma história inusitada, pensando-se no provável público-alvo da coletânea: "ressuscitado" para ajudar a humanidade em um dilema, o físico Carlo Martino se vê em uma longa viagem com uma spacer sedutora... o resultado é um conto impróprio para menores, segundo o próprio livro. A inesperada dose de sexo explícito é bem-vinda no árido mundo da ficção científica "hard", que é a veia do autor, especialmente depois de "Point of K(no)w Return".

Conto de abertura, "PKR" acompanha a primeira expedição "interestelar", que utiliza um "ponto de salto" para deixar o sistema solar e aventurar-se no desconhecido. A nítida referência ao seriado "Jornada nas Estrelas" (ou Star Trek, série televisiva e de cinema que ganhou novo filme agora em maio) acaba aí. As informações científicas precisas e detalhadas fornecidas por Lodi-Ribeiro podem perder qualquer um que realmente se preocupe em captá-las todas sem o conhecimento necessário e não encontram paralelo na série criada por Gene Roddenberry.

Os "pontos de salto" - algo como supervias estelares, capazes de transportar uma nave de um ponto a outro da galáxia instantaneamente - são o tema dos três primeiros contos do livro, dando ênfase à expansão e exploração espaciais e os inevitáveis problemas e conflitos que trazem. Também pudera: nos falam do primeiro século e meio da humanidade "pós-Restrição", os dois contos iniciais em especial, que se passam em 52 e 53 ER (a sigla significa "Era da Restrição", ou a nova contagem dos anos após o planeta Terra ficar isolado por um campo de força misterioso), ou 2124/25 na nossa contagem atual. Mesmo "Morituri te Salutant!", que retrata uma obstinada tripulação do "Imperium" explorando o espaço às cegas, em 152 ER, trata, em última instância, dos pontos de salto e da expansão constante da humanidade.

Claro que o conto é utilizado para nos trazer mais informações sobre o Taikodom, na realidade, sobre uma dissidência do "Consortium" que segue regras culturais totalmente diversas das praticadas pelo núcleo "original" de humanos - a saber, uma sociedade análoga ao Império Romano. As dissidências tem motivação econômica e política, claro; mas a atenção ao fator cultural é bem-vinda.

A leitura do conto é difícil, especialmente para quem leu "Despertar" e os dois contos de abertura de "Crônicas". A mudança no jargão, hierarquia, cultura e conceitos dificulta a leitura, embora para o final a história ganhe em agilidade e interesse.


"Morituri te Salutant!" é seguido pelo "Guia Tertius" que, como eu já disse, é um conto bastante cansativo. Mas o encaixe dos contos é perfeito: iniciamos com a primeira viagem interstelar; continuamos acompanhando as desventuras da humanidade em compreender o funcionamento dos "pontos de salto" (enquanto aprendemos sobre sexo em gravidade zero); tomamos conhecimento de uma dissidência importante do Consortium, no conto situado mais próximo ao "presente do jogo"; e então somos levados a uma viagem turística para compreender melhor onde estamos.

...e também uma viagem pelo tempo

Os contos abarcam mais de 100 anos da história do game, inclusive indo além do "presente ficcional", que seria o ano de 156 ER. O recorte temporal é importante pois permite observar a mudança de costumes, a expansão da humanidade pelo espaço e a crescente influência das consciências artificiais, tanto na tecnologia quanto na mediação dos conflitos humanos.

Ao mesmo tempo, ler histórias que se passam em um momento futuro ao que acontece agora no jogo evidencia duas coisas: que a Hoplon já tem um caminho, um planejamento para encaminhar o jogo em termos de história, mas também que os jogadores não têm tanta influência assim no desenrolar dos fatos realmente importantes do jogo.

Batalhas espaciais e alienígenas

Enquanto os três primeiros contos tratam de expansão, dos novos conceitos culturais e dos conflitos vivenciados pela humanidade, os três contos finais tratam, todos, da realidade do primeiro contato com vida inteligente - e beligerante - alienígena.

Mas, mesmo nessa etapa que poderia facilmente sucumbir para clichês, Lodi-Ribeiro não se deixa levar e inicia com "Escambos com Nativos", onde acompanhamos um geólogo especializado em etnografia, isto é, um estudioso das culturas tribais que sobreviveram na Terra isolada. Usando o único meio de comunicação que consegue atravessar o campo de força e ser utilizado pelos nativos - o rádio - ele troca informações. Oferece ajuda técnica com os motores a combustão e outras tecnologias, já obsoletas para o "homem espacial", por informações sobre as mudanças no planeta.

Da mesma forma que temos em Ursulla Tertius um personagem constante e "âncora" para a primeira parte do livro, nestes três contos finais acompanhamos o Comandante Ruiz - Gary Liang y Ruiz ou Gary "Loco" Ruiz. Em "Escambos", é de Ruiz a idéia de utilizar a ficção científica (FC) como fonte de idéias para lidar com os ataques alienígenas que vitimam milhares de seres humanos, alguns sofrendo inclusive morte definitiva - um conceito que a humanidade já não sabe mais como lidar. O resgate futurístico da FC como fonte de idéias para lidar com alienígenas é uma dupla homenagem do autor, bem como um recurso metalinguístico interessante.

O conto seguinte, "Segunda Ressureição", acompanha os infortúnios da mulher amada por Ruiz, o primeiro ser humano a fazer contato direto e não belicoso com os alienígenas. Coincidentemente, Isadora é uma "restritivista", isto é, uma das pessoas que acreditam que a restrição da Terra por um campo de força foi obra de uma entidade superior, visando tanto punir quanto proteger a humanidade - e o próprio planeta.

Em "Encontro com Quimera", acompanhamos um saudoso Ruiz comandando uma das naves mais poderosas da frota humana, a Belerofonte - e se lamentando por ter perdido sua amada que, por ser restritivista, não aceitava ter sua personalidade "clonada" em outro corpo, caso morresse.

É nesse espírito, de vingança pela morte de milhares de seres humanos e de sua amada em especial, que Ruiz torna-se o primeiro comandante a dar combate a uma "nave-mãe" alienígena. Em sua caça, ele se dispõe a explodir um planeta inteiro para não deixar o inimigo escapar. Mas, se o leitor acompanhar a coletânea do início ao fim, sem pular contos, saberá que as coisas não são exatamente como Ruiz pensa.

Inovação literária, enfim?

Seria um exagero dizer que "Crônicas" é uma grande inovação literária para a FC, ou mesmo para a literatura de jogos. Não é, mas também não cai tão facilmente nos clichês como era o caso de "Despertar". É óbvio que a maior experiência de Gerson, bem como o fato de ser ele o "pai" dos conceitos e do universo do jogo, pesam a seu favor.

Não posso deixar de considerar, também, que apenas três dos sete contos são inéditos, infelizmente. "Point of K(no)w Return", "Escambos com Nativos", "Segunda Ressurreição" e "Confronto com Quimera" constam do acervo on-line; enquanto "Despertar do Físico", "Morituri te Salutant!" e o "Guia Tertius" são os contos inéditos. Coincidentemente ou não, fora "Despertar do Físico", os melhores contos do livro são os que já tinham sido publicados anteriormente.

A atenção aos detalhes, especialmente às informações científicas, são características já conhecidas nos textos de Lodi-Ribeiro, que consegue atingir boas histórias mesmo quando precisa explicar muitos conceitos científicos ou pertinentes ao universo do jogo. O amplo apanhado histórico dá conta de como a realidade "alternativa" proposta em Taikodom foi planejada meticulosamente e dá base e força ao crescimento do jogo.

A capa tem um tratamento melhor que "Despertar", mas em geral a qualidade gráfica do livro é a mesma - boa. "Crônicas", porém, tem como bônus 16 páginas de ilustrações retiradas de telas do game, que ajudam a visualizar e a convidar o leitor ao jogo. O preço salgado, típico da Devir, e o fato de conter apenas três contos inéditos podem desanimar o leitor, mas para aqueles que não leram ainda os contos online, ou que gostam do universo de Taikodom, a compra é plenamente justificada. "Crônicas", assim como "Despertar", pode ser encontrado no site do Universo Taikodom, na Devir ou em livrarias.

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Em Leituras
@ 6.6.09 06:06

Por: J. M. Beraldo
Editora: Devir, 2008, 1ª edição
320 páginas

"Despertar", romance de J.M. Beraldo que se passa no universo do "game" brasileiro Taikodom, faz a ponte entre duas mídias normalmente vistas como conflitantes.


Sabemos que não existem "obras isoladas", que nascem do nada. Há sim diálogo, troca e referência entre os artistas e seus trabalhos. Essa conversação vai além das mídias e dos movimentos "seculares" que costumam marcar as artes.

Uma troca que surgiu com o século XX foi a dos jogos com a literatura. É difícil definir historicamente quando e como essa dupla influência começou, mas é possível apontar o RPG "de mesa" (isto é, jogado sem auxílio de aparelhos eletrônicos) "Dungeons & Dragons", lançado em 1974¹, como o primeiro grande sucesso de um jogo que inspirou-se em vasta obra literária - a saber, a literatura "pulp" da época e a trilogia "O Senhor dos Anéis", de J.R.R. Tolkien².

O interessante no caso de "D&D" é que ele também fez o caminho reverso: a partir de seu sucesso, surgiu uma literatura que utilizava o "universo do jogo" como pano de fundo para suas histórias, além de livros escritos a partir de "campanhas" realizadas por jogadores. Com o advento dos jogos eletrônicos, especialmente a partir de meados da década de 90, essa interação tornou-se comum. Mesmo o super-violento e revolucionário "Doom"³, lançado em 1993 e o primeiro jogo de tiro em primeira pessoa (first-person shooter) de sucesso mundial, ganhou sua série de livros em 1995 e 96 - escrita a quatro mãos por dois autores indicados ao prêmio Nebula.

O Brasil até agora não participou ativamente desse diálogo, pois os jogos demoram a chegar - isso quando chegam; mas principalmente devido à quase inexistência de um mercado desenvolvedor local. A livraria Devir sempre importou material nessa área e inclusive lançou alguns romances escritos a partir de universos de RPG; a Ediouro e algumas outras editoras também tentaram investir, mas sem grande repercussão. Porém, o mercado para a "literatura de jogos" encontra-se pavimentado, por assim dizer, pelo recente crescimento da chamada literatura fantástica - isto é, fantasia, ficção científica e horror. Ao mesmo tempo, a geração que era adolescente em meados dos anos 90 atingiu a idade adulta, sem no entanto abandonar completamente os jogos e o mercado brasileiro esquenta cada dia mais.

Inovação: o jogo "online" massivo Taikodom e seu universo

É nesse cenário que surge o livro "Despertar", de João Marcelo Beraldo, lançado em outubro de 2008 pela Devir em parceria com a Hoplon, desenvolvedora nacional do game Taikodom - universo que o romance aproveita em sua história. Porém, antes de analisar o livro, vale a pena situar o leitor diante do game.

Taikodom é uma iniciativa rara e ambiciosa de criar um jogo em moldes inovadores até fora do país, especialmente na proposta de que todos joguem no mesmo "espaço virtual" ao mesmo tempo. O investimento passou de 15 milhões de reais, incluindo parcerias com a NVIDIA, fabricante de placas de vídeo para computadores e a IBM - que, em conjunto com a Hoplon, desenvolveu tecnologias novas para suportar a carga de diversos jogadores ao mesmo tempo. O escritor Gerson Lodi-Ribeiro foi chamado para desenvolver e dar consistência à história do universo, que tem base na ficção científica.

Em resumo, durante o início da colonização espacial pelos seres humanos, a Terra é "isolada" de maneira inexplicável. Ainda é possível deixar o planeta, mas não entrar. Devastados por guerras e caos econômico, os governos e corporações se unem aos "Spacers" - nome dado aos que nasceram ou vivem apenas nas colônias fora da Terra - para enviar alguns milhões de pessoas ao espaço, em animação suspensa, a fim de serem "ressuscitados" (o jogo e o livro chamam de "ressurectos" aos terrestres que são "despertados") gradualmente, conforme os Spacers considerarem melhor. A desculpa politicamente correta é que eles precisam ser "encaixados" na economia, que não suportaria o ingresso de tantas pessoas de uma só vez.

O "Despertar"

A história acompanha dois amigos, Santiago e Carrera, que são "despertados" 153 anos após a "Restrição" - como é chamado o isolamento da Terra no jogo - para viver em uma sociedade sem nações; sem fome nem miséria; e com acesso universal à informação. Porém a classe dos "ressurectos" enfrenta enorme preconceito: não foram selecionados geneticamente nem educados da melhor maneira possível, estão atados a conceitos antiquados e já inexistentes como "família", estados e nações.

Previsivelmente, o livro tem a função de apresentar o Taikodom (vindo com um CD do jogo encartado), adotando inclusive o ponto de vista que o jogador terá ao iniciar. A escolha de acompanhar dois ressurectos é acertada, embora o personagem de Santiago às vezes seja cansativo, com suas decisões emocionais. Carrera, o outro personagem que recebe foco, adapta-se rapidamente ao novo mundo, inclusive deixando para trás o amigo.


Na Terra, Santigo era piloto e Carrera, seu co-piloto. No espaço, Santiago não consegue se adaptar ao uso do "Organizador Neural Intracraniano", ou "ONI", uma inteligência artificial "implantada" em cada ser humano para auxiliá-lo com o enorme fluxo de informações e com a interação com o "mundo virtual" integrado ao físico. O "ONI" é também utilizado para intermediar o "registro padrão de personalidade", um método para "salvar" a consciência, memórias e personalidade de uma pessoa para implantação em um clone de segurança em caso de morte - o que é uma desculpa muito bem construída para os "retornos" dos personagens no jogo, após morrerem.

Essa é uma das primeiras irritações do protagonista: despertado em um mundo que não é o seu, tendo de aceitar interferências em seu corpo que não foram autorizadas por ele, Santiago revolta-se com o caminho padrão que é sugerido aos ressurectos, de adaptação e convivência. Enquanto Carrera constrói sua vida como "ressurecto exemplar", Santiago sente-se atraído pela vida de "freelancer", muitas vezes seduzido por organizações que são contra a crescente influência do "Consortium", grupo formado por corporações e consciências artificiais (com direito à cidadania, inclusive) que controla o comércio entre as colônias. Tudo isso soa confuso? Realmente é, embora durante a leitura do livro você se acostume com as nomenclaturas, posições e tecnologias, conforme descobre - junto com os personagens - que mundo é esse.

Uma literatura para iniciados

O livro de Beraldo é herdeiro em forma, linguagem e estrutura, de clássicos da ficção científica classificados como "space opera". Exemplos conhecidos desse sub-gênero são "Guerra nas Estrelas", com seus jedis e, especialmente, "Jornada nas Estrelas" - a série de Spock e Kirk, que está em processo de revitalização no cinema. A literatura de FC sempre foi um gênero considerado de difícil penetração para o público comum. Em primeiro lugar, é exigido do leitor postura muito mais "aberta" para entender e aceitar conceitos que são no mínimo extrapolações de teorias científicas ou, em alguns casos, invenções com base em palavras complexas sem real contato com a ciência que as envolve - como no caso do "cerébro positrônico" dos robôs de Isaac Asimov.

Isso apresenta um desafio a mais ao escritor do gênero: apresentar os conceitos, idéias e estruturas sociais de seu "mundo" correndo o risco de entediar o leitor ou correr com a narrativa e, pontualmente, explicar as coisas, sem "travar" a leitura? Em "Despertar" o autor escolheu seguir um caminho entre essas duas opções. A situação de partida - o despertar de dois terrestres 153 anos após serem colocados em animação suspensa - ajuda muito o autor, que pode apresentar o mundo ao leitor conforme apresenta-o aos personagens. Apesar do recurso inteligente, que vai criando uma tensão inicial entre os protagonistas, a história só engrena realmente pela metade do livro, quando começa a ganhar força para o final de batalhas e reencontro - novamente, um tanto previsível, mas ainda assim dotado de qualidades e boas doses de tensão e suspense.

Em todos os aspectos, "Despertar" não é um livro inovador - e nem deveria ser. Para aqueles que leram "Véu da Verdade", o romance anterior de João Marcelo que é também uma "space opera", o progresso é visível - os personagens, até mesmo algumas consciências artificiais, não são caricatos, mas trabalhados e críveis; as situações não "pulam" de uma para outra; o elemento cômico ainda está presente mas é melhor utilizado. O leitor de ficção científica reconhece e aprecia as estruturas utilizadas e os jogadores já iniciados com certeza vão adorar as batalhas, citações a lugares, corporações e personagens que conhecem.

Transições de mídia e público-alvo

Essa busca pelo "tradicional" nas transições de jogos para literatura são recorrentes. Em geral, as produtoras optam por nomes conhecidos no gênero do jogo - como a Hoplon fez com Gerson Lodi-Ribeiro e João Marcelo Beraldo - a fim de ficar com o melhor de dois mundos: ter sua obra adaptada por um "medalhão" e, de quebra, ganhar o público leitor desse escritor para o jogo.

A literatura de jogos não apresenta, portanto, inovações ou surpresas dentro dos gêneros literários (seja a ficção científica, fantasia, etc). Ao contrário, ela prefere manter-se dentro dos limites tradicionais a fim de evitar o fracasso com o público leitor daquele gênero, que já compra esperando uma determinada estrutura, ainda que clichê; do que arriscar e acabar como obra inovadora, mas que não vende.

O sucesso das vendas é importante para a produtora do game, ainda que poucos livros alcancem sucesso real, como "The Cole Protocol", de Tobias Buckell, livro situado no universo do jogo "Halo"¹⁰. O fator mais considerado nessas empreitadas é a consolidação da marca e do universo do jogo no imaginário dos leitores e jogadores, que de tal forma vêem-se mais "atados" e, portanto, mais fiéis ao jogo. No caso do Taikodom - ou de seu concorrente direto, World of Warcraft, que também explora quadrinhos e livros - a literatura e produtos derivados ajudam a manter os clientes. A lógica de negócios no jogo online difere do jogo "de caixa", onde o envolvimento da empresa com o jogador praticamente acaba no momento da compra.

No caso dos jogos online como o Taikodom, o envolvimento é constante: novidades no jogo são implementadas imediatamente, para todos os jogadores; a renda vem da participação ativa, recorrente destes. Falhar em construir uma "realidade alternativa" que prenda o jogador e que faça com que ele retorne ao jogo no mínimo diariamente é falhar no propósito central do negócio a que se propõem.

Explica-se portanto o investimento em livros, quadrinhos e produtos atrelados que trabalhem e fixem esse imaginário, bem como faz sentido também a escolha por manter-se dentro das formas, padrões e clichês do gênero. É uma pena - apesar de bem escrito e muito divertido, o livro desperdiça a chance de seguir a ambição original da Hoplon e quebrar barreiras também na literatura de jogos. "Despertar" tem 320 páginas e pode ser encontrado em livrarias e na internet, em www.universotaikodom.com.br.

No próximo artigo continuarei a análise da literatura de jogos com a coletânea "Taikodom: Crônicas", de Gerson Lodi-Ribeiro, lançada em São Paulo no dia 4 de abril. Até lá.

Referências:
  1. en.wikipedia.org

  2. en.wikipedia.org
    Mesmo o autor do RPG dizendo que "Senhor dos Anéis" influenciou pouco o RPG, as referências para quem conhece o jogo são nítidas.

  3. en.wikipedia.org

  4. en.wikipedia.org

  5. Conferir en.wikipedia.org e
    en.wikipedia.org

  6. Como demonstra pesquisa da Nielsen: en.wikipedia.org

  7. veja.abril.uol.com.br
    www.inovacaotecnologica.com.br
    blogs.abril.com.br

  8. jogos.uol.com.br

  9. bibliowiki.com.pt e
    pt.wikipedia.org

  10. www.nytimes.com

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Nesta terça-feira, 2 de junho, a escritora Giulia Moon convocou uma reunião de lançamento do número 25 do fanzine Scarium. Além de coordenar a edição, Giulia colabora com uma história em quadrinhos - sua primeira. A capa, de Alexandre Lancaster, é ótima e o conteúdo, com contos de Cristina Lasaitis, Marcelo Galvão, Martha Argel, Ana Cristina Rodrigues e outros, parece interessante. A edição tem como tema "Mulheres" e houve a habitual liberdade criativa aos colaboradores - com a condição de que houvesse elementos de horror na narrativa. Você pode comprar a Scarium 25 na loja virtual deles (link acima).

O lançamento foi divertido tanto por encontrar os amigos Galvão (e Daniela), Cristina Lasaitis, Richard Diegues (também colaborador desta edição da Scarium), Eric Novello e, claro, a Giulia. Causo também estava lá e tive o prazer de conhecer Nilza Amaral, mais uma das colaboradoras. O frio e provavelmente o dia da semana espantaram mais participantes, mas o evento valeu assim mesmo. A Giulia fez um post sobre o evento e publicou fotos no Flickr.

Você pode pegar o release com mais detalhes aqui. Assim que possível, devo resenhar essa edição (assim como as anteriores).

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Em Leituras
@ 15.5.09 02:00

Sei que é jabá, mas se eu não divulgar, qual a graça, não é mesmo? HOJE, às 19h, no Bardo Batata, será o lançamento do volume 2 da coleção Paradigmas, da Tarja Editorial, com um conto de minha autoria: "Fuga", uma ficção-científica.

Você pode ver o convite - e sinta-se desde já convidado(a) - aqui.

Quem quiser comprar ou saber mais sobre o livro, pode ir direto no site da Tarja ou deixar um recado aqui, para comprar comigo (R$ 13,00 mais frete).

Existem também três sites com promoções distribuindo o livro: POP DICE, RPG On-line e Pensotopia.

Para os ainda mais curiosos, aqui está o pre-release e aqui uma amostra do livro.

Espero a presença de todos que puderem e, aos que não puderem, comprem o livro, comentem (ou critiquem), resenhem, etc. A literatura de FC&F nacional - e eu, claro - agradece!

PS: o primeiro volume da coleção tem contos excelentes e recomendo - uma resenha mais detalhada deve sair em breve. No meio tempo, você pode comprar o vol. 1 clicando na imagem abaixo.

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Por: Aguinaldo Peres, Ana Carolina Silveira, Ana Cristina Rodrigues (também organizadora), Daniel Gomes e Roderico Reis
Editora: Multifoco, 2009, 1ª edição
188 páginas

Aviso: "Espelhos Irreais" terá lançamento em São Paulo no sábado, 9 de maio. Saiba mais.

Primeira coletânea impressa do coletivo "Fábrica do Sonhos", fundado em fevereiro de 2005 pela Ana Cristina Rodrigues (meu conto no volume 2 do Paradigmas teve sua primeira versão em um desafio promovido pelos "operários") é uma conquista e pequena mostra da qualidade que o grupo está alcançando.

A capa, bonita e com cores chamativas - criada por Estevão Ribeiro; a diagramação simples mas efetiva e a orelha escrita por Max Mallmann mostram o apuro e profissionalismo dispensados ao projeto. Só senti a ausência de uma ficha catalográfica, ainda mais que a Ana é uma historiadora que trabalha na Biblioteca Nacional. Mas, óbvio, nada que atrapalhe o livro.

O primeiro conto, "Os Três Trilios", de Aguinaldo Peres, reúne diversos elementos clássicos da fantasia - "buscas", dragões, reis, amores impossíveis, fadas. Mas o autor trabalha de forma inteligente, primorosa até, especialmente se levarmos em consideração as poucas páginas. A estrutura tem algo de fábula, o desenvolvimento é fluido e a história (ou as histórias, de cada um dos trilios), muito interessante. Fica o porém - nítido aqui, mas que repete-se pela obra - da revisão que poderia ter sido mais atenciosa.

Ana Cristina sucede-o com "A Morte do Temerário". Flutuando entre o real e a fantasia, o conto - muito bem escrito - retrata a morte de Carlos, Duque da Borgonha como um evento fantástico, envolvendo uma fênix, traições e grandes buscas por lugares mágicos e lendários. Novamente, a coletânea consegue inovar e surpreender em qualidade e temática, usando dos "clichês" do gênero com inteligência, para prender o leitor a uma boa história, misturando história real (e alternativa?) e gêneros.


Já "Bohtu e o elfo negro", de Roderico Reis, peca justamente por não inovar. É uma boa história, que poderia ser melhor escrita, mas a ladainha do rapazote órfão e desprezado, tentando salvar a princesa e o reino, já foi contada muitas vezes. Não é um conto ruim, apenas comum e sem brilho.

"Prelúdio", de Daniel Gomes, quase me fez desistir. Os clichês tropeçam um no outro, a escrita é péssima e me fez acreditar que o livro não tinha passado por revisão - a despeito do texto impecável de Ana Cristina. Saber que houve duas revisões (pelo menos) só aumentou meu desgosto.


O livro fecha, porém, com o ótimo "Gênese de um Novo Mundo", de Ana Carolina Silveira. Bem escrito, o conto é uma ficção científica com alguns elementos clássicos de fantasia. A história flui bem, porém - como bem apontou Eric Novello em sua resenha - os personagens exercem papéis muito bem definidos de "vilão, herói, mocinha em apuros, etc".

Mais que isso, a história é longa e cheia de informações que não necessariamente ajudam à trama. Seria melhor - visando o conto - que a autora reduzisse a parte explicativa ou fundisse a mesma com a trama atual, criando identificação no leitor com os personagens. Ou, outra opção, transformar o conto em novela e trabalhar melhor a história prévia e o desenrolar dos fatos.

A avaliação final é de que a "Fábrica dos Sonhos" traz grandes promessas de autores - como o Aguinaldo e a Ana Carolina; alguns "diamantes brutos", que precisam de mais trabalho mas estão na direção certa, como Roderico Reis; e autores que realmente precisam rever sua escrita, a despeito de terem idéias boas ou não, como é o caso de Daniel Gomes. Da Ana Cristina não falarei pois espero, em breve, resenhar "AnaCrônicas", primeiro - e excelente - livro "solo" dela.

Aos fãs de fantasia e de bons contos, fica a dica: dêem uma chance para "Espelhos Irreais" e vejam que sim, a internet pode trazer boa literatura, mesmo em gêneros normalmente desprezados, como a FC&F.

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Por: Carlos Orsi
Editora: Novo Século, 2005, 1ª Edição
157 páginas

A ficção científica brasileira "é invisível", dizem por aí. Nem marginal, pois que não é considerada. O que dizer, então, de um autor que se arrisca a produzir ficção científica e terror? Ingênuo?

Carlos Orsi é ousado, isso sim. Reconhecido internacionalmente, com três livros publicados e contos em diversos idiomas. Conhecido aqui por seus contos de terror inspirados em H. P. Lovecraft, o escritor mostra em "Tempos de Fúria" que seu trabalho está muito além disso.

Já no conto de abertura, "15 minutos", Orsi mostra a que veio. "Fim de tarde num boteco de chão de terra batida, a meio caminho do alto do morro." Hein? Boteco, morro? Como isso pode dar uma história e tanto de ficção científica?

Apenas um exemplo da mistura de Brasil puro com FC da melhor qualidade que poucos escritores podem oferecer. O poder de alterar a realidade como se faz na edição de um filme, quadro a quadro, é a base para uma trama que envolve roubo, traição, traficantes, pagode e popuzadas.

Dando mostras do "poder de fogo" - ou da fúria - que o livro oferece, segue a leitura com "Questão de Sobrevivência", conto mais longo que o anterior e que apresenta a guerra urbana que toma São Paulo e o Brasil em 2020. Na cidade devastada, grupos lutam por interesses econômicos escusos, usando a população como massa de manobra. Ao mesmo tempo um ataque a ideologias atuais com um vislumbre de algo que pode vir a ser real.


A seqüência, "Pressão Fatal", apresenta uma investigação em pleno espaço que rende homenagem tanto ao clássico detetive de Conan Doyle quanto aos contos de Isaac Asimov, que tinham por solução a aplicação de lógica pura dentro de um contexto de tecnologia e informações computadorizadas, aliados à boa e velha inteligência humana.

"Planeta dos Mortos" é o melhor conto do livro, apresentando mistura perfeita de ficção científica e horror. Um soldado em sua primeira missão enfrenta a realidade mais terrível e inescapável que se pode imaginar. Orsi consegue renovar diversos "clichês" dos dois gêneros em um texto fluido, interessante e inteligente.

O penúltimo conto, "Desígnios da Noite", é um dos que menos gosto no livro. Não significa que é ruim - apenas o tema, o desenvolvimento não me agradaram tanto. Acordado de uma ressaca homérica - cujo motivo, claro, é uma mulher - um duelista profissional precisa agir como detetive e descobrir a pessoa por trás de um atentado de proporções "galáticas" que esconde algo ainda mais podre.

E o livro fecha com "A Aventura da Criança Perdida", um conto ótimo, mas que também não é dos meus preferidos. É como se depois de "Planeta dos Mortos", os contos perdessem um pouco de sua luz, ofuscados pela genialidade ali presente. Novamente, o leitor não entenda errado: é um ótimo conto.

"Tempos de Fúria" é um dos melhores livros da literatura fantástica nacional e leitura obrigatória aos fãs da ficção científica, do terror ou de ambos! E Orsi, tá na hora de lançar um romance ou uma coletânea mais gordinha, não tá não?

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Foi um verdadeiro stack overflow (pare com o mouse sobre a palavra ou termo que tiver dúvida e estiver em itálico - aparecerá uma breve explicação). Dois dias de informações, pessoas, idéias e debates muito interessantes.

Apenas não participei da oficina "A Escrita em Ficção Científica Brasileira", do Roberto de Sousa Causo, no domingo; mas anotei as quatro mesas de debates e o Pecha Kucha Night (PKN, ou "noite do burburinho"), que foi um "final" exemplar para o evento.

Este é o primeiro de uma série de sete textos sobre o Invisibilidades II; nos próximos, abordarei cada mesa em separado, o PKN e por fim farei uma análise final, considerando a repercussão do evento em textos de outras pessoas.

Sem enrolar mais, a visão geral foi de que o evento valeu muito. Algumas mesas foram excelentes, outras tiveram alguns problemas, mas mesmo estas foram interessantes e geraram debate na platéia e para além dela.

O número de pessoas que assistiram - comparado ao pouco que vi do primeiro evento, em 2006 - foi drasticamente superior, certamente resultado da excelente divulgação combinado a um conjunto de temas mais atraentes e ao excelente momento do mercado de FC nacional. On-line, o primeiro invisibilidades (então "invisibilidade") rendeu cerca de 300 citações (confira aqui), incluindo links de divulgação. O Invisibilidades II, usando o mesmo critério de busca, já está em mais de 14 mil citações (aqui).

Se isso não é medida de sucesso suficiente (público e repercussão), vale lembrar que foi uma edição bastante heterogênea: desde escritores tão diferentes quanto Max Mallmann, Braulio Tavares, Octavio Aragão, Fausto Fawcett e Antônio Xerxenesky - para citar apenas alguns - até a participação de editores (a lamentar a ausência da Aleph e Devir) e pesquisadores do gênero em suas diversas formas (como Adriana Amaral, Alfredo Suppia e Rodolfo Londero).

Claro que nem tudo são rosas: infelizmente o velho embate entre pessoas do "fandom" ressurgiu; mas aqui uma postura do curador fez com que eu repensasse a minha própria: em conversa com Fábio Fernandes, ele foi claro ao dizer - e comprovar, pela composição do evento - que está passando por cima dos problemas que o fandom já teve e que quer criar espaço para todos.

As pessoas envolvidas têm seus motivos - realmente sérios, dos que sei - e não vou deixar de repudiar os atos que conheço e sei que são mais que condenáveis: são coisas de gente mau-caráter, mesmo. Mas, em prol da FC&F nacional, que precisa de todo e qualquer incentivo, estou deixando de ignorar determinadas contribuições e de atacar certas iniciativas. Não estou cobrando postura semelhante, nem condenando ninguém; cada um age como lhe cabe - inclusive eu.

Voltando aos pontos positivos, além dos debates, tivemos o PKN, que foi excelente e valeria, sozinho, pela apresentação em vídeo do Alfredo Suppia - que ele prometeu disponibilizar no YouTube, estou na espera! A curadoria do Fábio Fernandes foi impecável - e quero destacar uma postura que valorizo bastante, por considerar ética: o Fábio foi quase "invisível" no evento, deixando o destaque para os participantes das mesas, das quais ele não participou. Seria muito saudável ao gênero se todos os curadores/editores tivessem a mesma isenção.

Também foi um bom evento em publicações: ganhei uma cópia "beta" do fanzine Overclock (cortesia do Rodolfo Londero), comprei a edição 1 do Fabulário em português e em inglês, ganhei uma revista UFO (cortesia de Renato A. Azevedo). O Jacques Barcia aproveitou para lançar, sem muito alarde, a Terra Incógnita. Dois lançamentos foram confirmados: "De Roswell a Varginha" - de autoria do já citado Renato A. Azevedo - e o "Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica", pela Tarja Livros; a Giz Editorial anunciou que em breve terá um novo livro de Miguel Carqueija no mercado.

Há de se notar também a organização e atenção da equipe do Itaú Cultural, que se desdobrou para atender às demandas de última hora conforme possível (esperamos wifi no Invisibilidades III, em 2009, além de umas tomadas perto do palco, por favor ;). Todos foram muito gentis e quero agradecer nominalmente à Larissa Corrêa, ao Ricardo Shimabukuro Tayra e à Patrícia Hellena, além do sempre solícito Guilherme Kujawski, claro. O Itaú Cultural ainda tem o bom gosto de utilizar ColdFusion em seu web-site, yay! :)

Por fim, como todo evento desse tipo, um dos "charmes" é o contato com as pessoas da área e nisso, especialmente para mim, o "Invisibilidades II" foi fantástico. Almocei e tomei chope com o Braulio Tavares - escritor que admiro muito e que não canso de citar aqui - e com o Max Mallmann - outro escritor com justo reconhecimento dos fãs. Conheci a Adriana Amaral "ao vivo" e o pessoal do Fabulário Zine; além de reencontrar amigos, conhecer pessoas novas da comunidade de ficção científica do Orkut, entre outros atrativos de amizade e "networking". Não citei aqui nem um décimo das pessoas cuja companhia tive o prazer de compartilhar durante o evento!

O saldo geral foi extremamente positivo: segunda de madrugada - chegando em casa após o chope de "fim-do-evento" - acabado (precisei de três dias para me recuperar) mas feliz, fiquei com aquele gostinho de quero-mais. É nesse espírito que parto para os próximos relatos, que devem aparecer por aqui no máximo semanalmente, conforme possível.

Isso não significa que o Leituras passará esse tempo todo apenas na expectativa dos relatos do "Invisibilidades II". Tem um novo Leituras Web (o #11) para sair, o novo portal do CLFC em fase final para publicação, novas resenhas no forno, entre outras novidades. Fique ligado e obrigado pela leitura!

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Por: Max Mallmann
Editora: Rocco, 2003, 1ª edição
224 páginas

Nada melhor para iniciar uma nova fase - com um novo layout aqui no Leituras - do que com a resenha de uma obra excelente: "Zigurate" é o quarto livro de Max Mallmann - ainda não tive a oportunidade de ler os outros, porém isso não deve demorar agora que li este. Um nome conhecido dentro e fora dos meios de ficção científica nacionais, Mallmann é roteirista da TV Globo e um dos grandes talentos consolidados do país, com projeção internacional, inclusive.

Para escrever este livro ele mergulhou no mito de Gilgamesh - a ponto de estudar o idioma e dos capítulos abrirem com caracteres cuneiformes sumérios - entrelaçando a história do mítico rei que buscava a imortalidade com o questionamento às origens do Cristianismo. Não pense, porém, que esse é um romance histórico. Na realidade, a história não poderia ser mais moderna.

Logo de cara somos confrontados com a "sentença de morte" da protagonista, uma balzaquiana francesa que, em conseqüência de genes ruins e dos coquetéis anti-AIDS que toma desde os 20 anos, sofre do coração. "Sofre" na realidade é um eufemismo: o infarto, segundo os médicos, é apenas uma questão de pouco tempo.

Sem amigos realmente íntimos e nem amores, distante de sua mãe, Sophie - nossa quase-morta - não vê outro consolo a não ser continuar vivendo e trabalhando em sua tese de doutorado: um estudo antropológico sobre como o velho testamento bíblico é, na realidade, uma compilação de mitos anteriores ao povo Hebreu.

É nesta pesquisa que Sophie se depara com uma evidência daquilo que ficará conhecido no livro como "Bíblia dos Áureos", uma versão adulterada que dá conta da criação do homem inicialmente a partir do ouro e não do barro, e de fato idêntico a Deus e imortal. Tendo - é claro - desafiado o Senhor, o primeiro homem e a primeira mulher são amaldiçoados a viverem eternamente, sem poderem ter filhos e sendo condenados ao esquecimento por parte dos "humanos de barro", que vivem tão pouco.

Parece incrível que, em um romance com pouco mais de 200 páginas, Paris, Edimburgo e Rio de Janeiro - com criminalidade e favela, inclusive, mas de forma interessante e original - possam coexistir com imortais de ouro, mitos Sumérios e uma francesa à beira da morte? Pois eu recomendo que você leia: o Mallmann atropela tudo e ainda adiciona marqueteiros norte-americanos e políticos brasileiros!

O ritmo do texto não é frenético, está mais para um passeio em uma estrada bem pavimentada, com um bom carro: não há solavancos, as coisas vão fluindo e os acontecimentos sucedem com inteligência e criatividade. Mesmo as reviravoltas e surpresas encaixam com perfeição na trama, que por vezes acelera, especialmente para o clímax ao final.

É uma pena que, nestes cinco anos, a história não tenha dado outros frutos - eu acho que caberiam tranqüilamente continuações ou histórias anteriores no mesmo "universo". No livro chegamos a saber o e-mail de um dos personagens e somos incentivados a escrever para ele na "orelha", mas o endereço já não pertence ao autor e as iniciativas de blogs de personagens não são atualizadas desde 2004.

A edição da Rocco é ótima, bastante durável e com uma capa, cores e diagramação atrativas. Porém, quando recebi o livro fiquei surpreso com a capa: não parecia algo de FC. Confesso que, se visse exposto numa livraria, sem saber quem é o Max e o que ele escreve, nem pegaria na mão para ler a sinopse. Mas, isso sou eu, nerd e fã de fc e fantasia. Eventualmente, pode ser que o livro tenha boa saída com o público "leigo" justamente por esses atributos que, para mim, são defeitos.

Portanto, não se deixe enganar pela capa e nem pelo "rótulo" de roteirista da Globo, que pode soar mal aos ouvidos mais, errr, "literatos". "Zigurate" é literatura de qualidade e o Max não foi finalista do Jabuti - com Síndrome de Quimera - à toa. Atualização: o parágrafo anterior foi mal-escrito por mim e dá a impressão que a capa é de má-qualidade; ela não é. Veja meu comentário abaixo, em resposta ao do Fábio Fernandes.

Cabe ainda uma nota final: o livro está em adaptação para o cinema! Segundo o IMDB, a estréia deve ser em 2009 e ele está em pré-produção... e eu mal posso esperar :)

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Em Leituras
@ 3.8.08 12:30

Veja Também:
Resenha do Romeu Martins no Overmundo
Por: Flávio Medeiros Jr.
Editora: Monções, 2004, 1ª edição
232 páginas

Elogiado primeiro romance do autor, "Quintessência" faz por merecer seus fãs: é uma estréia e tanto, misturando ficção científica, investigação e suspense.

A história situa-se em Minas Gerais - e esta já é uma boa surpresa -, em algum momento após a primeira metade do século XXI, sendo que a data nunca é precisada. De cara somos apresentados a um crime horrendo, aparentemente um atentado terrorista, que termina com seu autor suicidando-se usando uma "Sacred Fire" (ou "Fogo Sagrado"), um tipo de bomba que acaba com tudo o que toca em nível molecular - isto é, o autor do atentado não pode ser identificado, pois nada sobra dele para isso.

Designado para o caso, o oficial Tom Rizzatti fica assustado: ele já viu algo muito parecido, 5 anos atrás... Deste momento em diante temos uma corrida contra o tempo, conforme novas mortes acontecem e a polícia - em última instância, Rizzatti - encontra-se pressionada para resolver o caso.

Mas não pense que o livro é um page turner, no sentido de ser um daqueles livros que você vai pulando palavras e fazendo leitura dinâmica para chegar logo ao final, de tão empolgante. Ele é empolgante, mas a história tem pausas estratégicas, onde o autor inseriu reflexões de seu protagonista (creio que espelhando idéias do próprio autor) sobre a tecnologia, a sociedade e as motivações das pessoas.

Servindo tanto para pausar o ritmo - que poderia ser alucinante - como para acrescentar psicologia e profundidade na obra - que poderia ser rasa -, os pensamentos de Rizzatti fornecem pistas sobre a evolução do mundo e do Brasil nesses mais de 50 anos no futuro, com as implicações morais e éticas decorrentes da tecnologia cada dia mais avançada.

Os personagens não são "super-reais" - exceto pelo protagonista e alguns outros personagens importantes, mas isso não é um problema de forma alguma. As referências à literatura policial noir, aos quadrinhos e à cultura estadunidense são claras, prazerosas e não comprometem a leitura para os leigos nos assuntos - não são crípticas, sendo que muitas são explicadas pelo próprio protagonista, sob a forma de piadas.

Aliás, essa é outra excelente parte do romance, que balanceia o conflito entre a tensão e a profundidade com um humor aliviante, inteligente e não repetitivo. A própria situação-chave do romance, quando começa a se resolver, é cômica - embora trágica. E nisso o romance aproxima-se ainda mais de fatos reais, a despeito de toda a super-tecnologia existente e do distanciamento temporal da história.

Algo que também me atraiu foi o modo como o Flávio consegue projetar discussões atuais para esse seu futuro - só tomando um exemplo, o Brasil tem a Polícia Unificada, isto é, a Civil e Militar de hoje como uma polícia só, mas com dois gabinetes de comando, o civil e o militar. Ou seja, a mesma zona sob um nome só - bem típico do Brasil, bastante realista e ainda assim inovador.

Alguns amigos meus citaram que o livro pede uma seqüência. Eu não acho, mas não reclamaria nada de ler contos ou novelas das "Aventuras de Tom Rizzatti" ou algo assim - mas aí é o fã de histórias policiais/detetivescas, e de ficção científica, falando.

No saldo geral, um excelente livro, um dos melhores dessa "nova geração" de autores nacionais que agora começam a ganhar espaço no "fandom" - e nas livrarias, espero eu. Não consegui encontrar o "Quintessência" para vender on-line, minha edição - com uma simpática dedicatória - foi comprada diretamente do autor na Fantasticon 2008. O e-mail para contato é: livro.quintessencia@terra.com.br. Entre em contato com ele, garanta sua cópia e divirta-se!

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Atribuição-Uso Não-Comercial-Compartilhamento pela mesma Licença 2.5 Brasil
Por: Cristina Lasaitis
Editora: Tarja Editorial, 2008, 1ª edição
176 páginas

Às vezes, fico pensando nas pessoas que resenharam Asimov, Clarke, etc em seu começo de carreira. Era evidente que eles teriam a popularidade e o reconhecimento que tiveram? Soube a crítica, os resenhistas de então, captar isso?

Eu tenho a sensação de que, sendo consistente o crescimento atual da Ficção Científica e da Fantasia nacionais, a Cristina com certeza terá um lugar entre os melhores escritores daqui. E resenhar o primeiro livro dela é uma responsabilidade e uma aposta.

Prematuro? Não creio. Embora tenha começado a escrever recentemente - desde 2004 - a Cristina vem consistentemente emplacando contos em concursos e coletâneas, desde a polêmica "FC do B - Panorama 2006/2007" até a "Visões de São Paulo". Ter um prefácio de Fábio Fernandes em seu livro de estréia não é para qualquer um, com certeza, então creio sim que é uma aposta, mas mais devido ao risco - ou o potencial - de um mercado como o nacional para absorver e realmente recompensar uma escritora como ela.

"Fábulas" é uma coletânea de contos, primariamente de ficção científica, mas com a fantasia aparecendo aqui e ali. É uma bem construída, inteligente e prazerosa colcha de retalhos. Alguns contos interligam-se e, ao final da leitura, a sensação é de que tudo faz parte de um mesmo "multi-verso", onde personagens tão díspares quanto um Inca medroso e sedento de poder, uma cientista inteligentíssima e otimista e um anjo "caído" podem fazer parte do mesmo universo - mas não do mesmo tempo.

Durante todo o livro fica-se com a sensação de que cada conto é apenas um ensaio, uma pequena introdução a algo maior. Como se ela estivesse apresentando pequenas histórias, para nos acostumar com seus personagens, seus cenários... e depois virem os romances desenvolvendo melhor o povo que vive no deserto, tendo que "ressuscitar" o conhecimento perdido da humanidade em velhos computadores ou as aventuras da cientista que ousou tentar matar o tempo - a Susan Calvin da Cristina.

Alguns contos já eram conhecidos do site Nova Visões ou mesmo da coletânea FC do B, e aparecem com algumas modificações aqui. Não é algo ruim - ao contrário, para entender essa "colcha de retalhos" é preciso ler tudo do começo ao fim, identificando aqui e ali onde ela mudou os textos e os interligou.

Não cabe aqui - tanto para não estragar a surpresa do leitor como por não ser o meu objetivo - mapear essas interligações, mas é algo que vai dando prazer de acompanhar conforme o livro se desenvolve. Claro que, como qualquer coletânea, existem contos mais fracos e outros excelentes. Em minha opinião, por exemplo, "Meia-noite", o décimo-segundo conto, que fecha o livro, é um dos melhores textos que já li na minha vida. Mas isso pode ter a ver com a Cristina falar diretamente ao meu "universo" aqui, com personagens que adoram estar on-line, "hackeando" e brincando com os códigos que formam os programas, a rede e os web-sites - e, neste caso, as realidades virtuais também.

Já o conto "Caçadores de Anjos", embora interessante, não captou tanto minha atenção, bem como "Irmãos Siameses". Eles não são ruins, que fique claro - apenas não alcançaram a expectativa que eu tinha antes de ler.

Há em todo o livro, como pode parecer óbvio, o questionamento do tempo, das marcas de sua passagem e de quanto realmente entendemos dele - cientificamente falando - e quanto o sentimos. E talvez essa seja uma chave para entender o sucesso da Cristina - embora meticulosa com os detalhes, com a pesquisa, seus contos não estão focados na ciência, nos mecanismos fantásticos e nem em questionamentos polêmicos. O foco é nas pessoas, em como elas vivem, sentem e reagem ao tempo, aos acontecimentos - frutos do acaso? Ou de um destino?

Algo que inicialmente me decepcionou foi o modo com o a Cristina, em basicamente todos os contos, dá por certo a existência do "Destino". Em "A Outra Metade", por exemplo, têm-se a sensação de uma entrega absurda a um destino sem divindades, sem justiça ou compensação, mas ainda assim pré-definido. Porém, com o correr do livro, vemos que não é bem assim e que há espaço para o livre-arbítrio nesses mundos, mesmo que ele jogue uma parte pequena da história e tenha aparência de ser mais esperança, ilusão dos personagens do que algo real. Bom esclarecer, esta é uma "decepção filosófica pessoal", pois a autora tem todo o direito de posicionar-se como quiser em relação aos seus temas.

Um ponto a criticar é o acabamento do livro, que não é muito durável. Pelo preço de venda da Tarja - R$ 23,00 ou 25, dependendo de onde você comprar - eu esperava um "pocket" melhor acabado ou um livro de "porte normal" com o acabamento que o "pocket" teve. Embora o formato seja um acerto por ser fácil de levar no metrô, ônibus e outros lugares, o acabamento é ruim: minha edição, comprada há apenas um mês e lida por apenas duas pessoas, já está bem desgastada, especialmente a capa. O valor do livro, portanto, deveria ser menor ou o acabamento melhor, creio eu.

Se você leu esta resenha até aqui, deve ter notado que o livro me empolgou. A capacidade da Cristina de falar diretamente no imaginário, de criar descrições interessantes e ao mesmo tempo sem preciosismos desnecessários e de absorver os dramas humanos, tornando seus personagens reais, próximos, é viciante. Recomendadíssimo!

Atualização:
Faltou dizer que, para comprar o "Fábulas", o melhor caminho é acessar:
http://cristinalasaitis.wordpress.com/2008/07/17/como-adquirir-o-fabulas/

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@ 30.7.08 10:00

Durante e depois de ter escrito os artigos anteriores sobre a FANTASTICON, estive em uma maratona de trabalho que não me deixou fazer quase nada mais, a não ser acompanhar as listas e blogs - e olhe lá; na seqüência fiquei bastante doente mas já estou me recuperando.

Só que, desde a publicação do primeiro artigo, surgiu a idéia de fazer um "pós-escrito" sobre a parte pessoal do evento e sua repercussão on-line. Vamos a ele.

Outras resenhas

Muita gente falou da FANTASTICON 2008. Na comunidade de Ficção Científica do Orkut, por exemplo, houve um tópico especialmente sobre ela com mais de oitenta mensagens e muitos participantes colocando fotos nos álbuns de seus perfis.

Na web "afora", algumas resenhas pipocaram, como a da Ludimila Hashimoto que, embora ela classifique como "chapada", foi muito boa: uma impressão bastante pessoal sobre o que rolou por lá, complementada com a reprodução - autorizada - do ótimo relato sobre o sábado, primeiro dia do evento, por Ivo Heinz.

Nazarethe Fonseca, escritora de "Kara e Kmam", também "resenhou" o evento em seu blog, que foi "repostado" por Alex de Souza no site "No Minuto".

Giseli Ramos também deu sua opinião sobre o evento; Fábio Fernandes por sua vez - infelizmente! - não fez um relato pessoal, mas agradeço imensamente a citação dele aos meus relatos.

Para fechar as resenhas que surgiram, o Luiz Pires do Fabulário Zine fez um artigo em três partes sobre as palestras e sobre o evento como um todo, bem interessante e com fotos: primeira, segunda e terceira (final). O Luiz conseguiu colocar em palavras a sensação que eu tinha sobre os "eventos paralelos", dos quais reclamei na primeira parte dos meus relatos, falando sobre palestras que começavam enquanto outras ainda rolavam - realmente, uma boa solução seria "intercalar eventos", sem sobrepor, como ele sugeriu.

O "lado pessoal"

Depois de honrar as outras resenhas, acho que compete falar um pouco do lado pessoal do evento. Em primeiro lugar, é sempre ótimo rever os amigos (Ivo, Cris, Octávio, Gerson, Ana, não vou conseguir listar todos) e conhecer um pessoal novo, como a Nazarethe que eu já citei, o pessoal da Hoplon (responsáveis pelo Taikodom), o Flávio Medeiros (autor do excelente Quintessência) e um pessoal da comunidade de FC do Orkut.

A cervejada de sábado a noite também trouxe papos ótimos sobre FC, o fandom atual e "histórico", projetos novos que estão aparecendo dos participantes, etc. Estavam lá o Gerson Lodi-Ribeiro, a Ana Cristina Rodrigues (presidente do CLFC), o pessoal da Hoplon que eu já citei (Tarqüínio, Maria Emília, Jacque, Roctávio), um pessoal da comunidade de FC (Huguinho, Jorge, Ricardo), Octavio Aragão, Jacques Barcia, Flávio Medeiros, Marcelo Galvão, Clinton Davisson, Aguinaldo Peres, entre outros que eu certamente devo ter esquecido.

Circulei muito pelo EIRPG, também, especialmente com o Ivo Heinz no sábado e encontrando poucos amigos - infelizmente! Será que o pessoal todo já abandonou o RPG? - um deles o Leandro R. Fernandes, colaborador do Fabulário, que estava com alguns livros que "comprei" através dele há meses (desculpe por isso!); o Richard Diegues (da Tarja Livros) e a sempre sorridente Verena Peres, entre outros.

Fiquei decepcionado com o EIRPG: nada de "grandes ofertas" e descontos, pouquíssimos livros e quadrinhos disponíveis, nenhum ou quase nenhum lançamento... senti uma queda substancial do ano passado para este, com a Devir/Terramédia "dominando" a venda de itens em seus já conhecidos "preços abusivos" - minha opinião.

Outra coisa decepcionante no EIRPG foi a proibição que o pessoal da OPELF enfrentou de vender os livros da Cristina Lasaitis e da Nazarethe Fonseca, entre alguns outros, que não estavam disponíveis por nenhum outro comerciante no EIRPG, mas que ainda assim proibiram pois o estande deles era do tipo "não comercial". Entendo que deve haver um contrato e restrições, mas eles não estavam realmente ali para fazer comércio e sim para divulgar a OPELF e conseguir arrecadar uma grana para ajudar a organização deles - tanto é assim que a organização do EIRPG permitiu que vendessem o fanzine. Se o fanzine pode, por que os livros não?

Respondendo comentários e agradecendo

Na comunidade do Orkut, o Aguinaldo sugeriu e a Ana deu esperanças de um "repeteco" das palestras em outro evento, vamos "aguardar e confiar"! O Ricardo - ainda na comunidade FC no Orkut - sugeriu que eu faça outras resenhas de eventos sobre literatura fantástica: elas virão, conforme eu participe dos eventos, e ficarão agrupadas sob a etiqueta evento.

Por fim, agradeço novamente a todos que comentaram/recomendaram os textos, confesso que não esperava a repercussão e fiquei feliz que os relatos serviram tanto para quem não estava presente - que era meu público-alvo - como para quem estava.

É isso. E agora volto com a programação normal do blog: ainda esta semana, resenha de "Fábulas do Tempo e da Eternidade" de Cristina Lasaitis e a edição #8 do "Leituras Web"! Na seqüência, resenhas de "Zigurate" de Max Mallmann e "Quintessência" de Flávio Medeiros Jr. Até lá!

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@ 13.7.08 01:35

Veja também:
"PS"
Continuando a série de artigos sobre a FANTASTICON 2008... se você chegou aqui agora, leia a Parte 1 e a Parte 2 primeiro.

"Um olhar sobre a literatura fantástica atual", Fábio Fernandes, Guilherme Kujawski, Jacques Barcia e Sérgio Kulpas

Quero iniciar este texto dizendo que é impossível dar uma descrição tão detalhada quanto a que fiz da palestra do Octavio. Em primeiro lugar, não foi uma palestra "linear", com um conteúdo específico: foi muito mais um debate aberto, com interferência constante (e geralmente positiva) do público e troca de idéias entre os palestrantes - importante dizer que não há julgamento de valor aqui.

A mesa/palestra teve início com uma longa exposição - embora de forma alguma cansativa - do Fábio Fernandes sobre o "New Weird" e o novo na ficção científica. É preciso dizer que, apesar de ser uma mesa sobre a "literatura fantástica atual", falou-se muito mais em FC e um pouco de fantasia, sendo que os outros gêneros praticamente ficaram de fora. Novamente, isso não foi ruim!

Um dos primeiros livros citados foi "Perdido Street Station", de China Miéville, autor britânico. Comparado por Fernandes com "Neuromancer", de William Gibson - autor no qual o palestrante é especialista - devido a quebrar paradigmas então vigentes na literatura fantástica. A história envolve ficção científica, steampunk, magia e mitologia; sendo um exemplo perfeito da "New Weird".

Fernandes deu continuidade a sua fala com um clamor aos escritores que busquem e criem novos referenciais além dos clássicos como Clarke, Asimov e Heinlein - sem ignorá-los, claro - no que foi secundado por todos os participantes da mesa; que é necessário ler tanto para ter referências ("e por que não absorver estilos alheios? Por que não se influenciar?") e também para não "plagiar", para realmente inovar. Contraditório? Não: é assim que tudo vem sendo feito há tempos, como bem destacou o Octavio na palestra de sábado.

Conforme a globalização avança, ainda segundo o palestrante, devemos ter mais obras inovadoras de povos que tinham sua produção "represada" até agora, como os chineses, indianos e dos países do leste europeu. Não apenas a produção, mas também os temas estão globalizados, sendo um sinal disso os livros "River of Gods" e "Brazyl", ambos de Ian Mcdonald, ganhadores do Prêmio da Associação Britânica de Ficção Científica e indicados ao Hugo Award.

Se autores britânicos podem escrever sobre a Índia e o Brasil - e o melhor, com qualidade, sem cair nos clichês - por que não podemos escrever sobre o medieval? Por que não explorar os temas, os países, o mundo? Se houver inovação, não há motivo para limitar-se.

Desta análise a conversa focou no mercado nacional, que apresenta sinais claros de melhoria. Aumentou a quantidade de livros publicados - ainda que muitos sejam clássicos antigos ou republicações, há muitos novos autores nacionais publicando. Existe um aumento de eventos relacionados aos gênero fantástico - como as mesas promovidas pela Livraria Cultura em SP - e estes têm obtido boa recepção de público, para além do "fandom". Há ainda uma sintomática movimentação on-line, com as comunidades relativas ao gênero tendo participação massiva. Novas revistas, e-zines e publicações exclusivamente on-line também surgem quase que mensalmente.

O Fábio indicou ainda uma mudança de postura, como no caso do autor Nelson de Oliveira com seu "Subsolo Infinito", que é claramente literatura fantástica, publicada por uma grande editora e com boa recepção de crítica, mas que inicialmente não "se assumia" - a velha situação, se é bom, então não é de um dos "gêneros fantásticos". A situação está mudando com seu autor aproximando-se do gênero e desejoso de republicar o livro, agora assumindo o gênero¹.

Por fim, citou que há uma "mudança dos tempos" no "fandom" e nos escritores que participam do mesmo, onde o espaço para discussões inúteis, lamentações e imposição de egos está acabando, dando lugar a produção constante, consciente e, cada vez mais, com qualidade.

Sérgio Kulpas assumiu então, destacando que a FC não tenta "prever" ou "falar do" futuro, mas que ela o molda. Como? Devido a conexão que o gênero tem com tudo o que acontece de novo hoje; como Verne fazia e Gibson faz até hoje: lendo o jornal diariamente, estando a par daquilo que ocorre hoje e extrapolando isso, pensando no que isso significa ou no que isso pode influenciar nos anos futuros.

Guilherme Kujawski, que é um dos organizadores da "Emoção Art.ficial 4.0" e autor de "Piritas Siderais - Um Romance Cyberbarroco", considerou a dificuldade em criar FC hoje, devido a velocidade das mudanças tecnológicas, lembrando novamente de Gibson com seus "Reconhecimento de Padrões" e "Spook Country", que ocorrem nos tempos atuais, abandonando a ficção científica especulativa, pois ela já aconteceu na realidade.

Houve também uma citação que o Kujawski fez referente a um autor que não recordo (e que não consegui anotar a tempo), mas que dizia que existem três grandes problemas que a humanidade precisa resolver: o crescimento populacional, a imposição dos valores ocidentais e o progresso tecnológico¹ e que, resolvendo-se um dos três, os outros dois resolveriam-se por si - e isso poderia ser base para muitas histórias de FC "atualmente".

Kujawski falou também do que considera um problema atual para a FC: a queda para o transcendental; a experiência fora do corpo, o abandono dos problemas e questões de agora para uma solução pós-morte. Há uma tendência para reverter isso - ainda segundo o Guilherme¹ - trazendo uma estética imanente para a arte e, portanto, para a literatura e seus gêneros.

Fábio Fernandes fez um aparte citando o Accelerando, de Charles Stross (que está disponível para download gratuito aqui, em inglês, claro) que trata de um grupo de "realizadores", de pessoas que decidem fazer algo e realmente tomam a tarefa a cabo, mesmo levando séculos para resolver. Assim, o Fábio propõe que os escritores realmente assumam a tarefa de moldar o futuro.

O Jacques Barcia, que até então havia feito apenas alguns apartes e comentários, iniciou uma descrição dos principais "sub-gêneros", por assim dizer, atuais. Iniciando pelo já citado "New Weird", caracterizado pelo surreal; pelo grotesco do corpo, como meio de questionar o real e retratando sempre a cidade, como uma forma de questionar as estruturas de poder. O New Weird teria um componente muito forte de fantasia, porém não escapista e sim entrelaçada com a nossa realidade de alguma forma que a reflita e ainda possa gerar identificação.

Na seqüência ele falou do steampunk como um gênero em alta, senão na literatura ao menos nas animações, cinema, quadrinhos e outros meios mais visuais. Não poderia deixar de ser diferente, pois o steampunk tem uma "levada" muito mais estética do que política e/ou reflexiva, desde sua criação por William Gibson e Bruce Sterling com seu "The Difference Engine". Gerson Lodi-Ribeiro, que estava na platéia, fez um aparte sobre steampunk e história alternativa, mas o Jacques consideruo que steampunk eventualmente pode ser história alternativa, mas não obrigatoriamente, por não haver (muitas vezes) um ponto de divergência bem definido. Da mesma forma, steampunk é exatamente o cyberpunk, porém historicamente deslocado, utilizando tecnologia e estética vitorianas para quebrar com a frieza do concreto, do digital.

Não creio que o steampunk seja forte como literatura, hoje. Porém é forte com certeza como "imagem", como "imaginário". A quantidade de coisas criadas em torno da estética é estonteante, especialmente nos Estados Unidos.

Outros dois temas abordados foram o pós-humanismo, que seria o fim do corpo como conhecemos, sendo algo totalmente diferente no futuro e a new space opera. O pós-humanismo "per si" gera muita polêmica, especialmente em mentes mais "cruas", mas é uma realidade já hoje: quantas pessoas não vivem quase normalmente às custas de modificações corpóreas como marca-passos, próteses e similares? As técnicas de "brain hacking" estão tornando-se constantes em publicações científicas como um debate atual que precisa ser travado. A alteração do corpo por motivos estéticos também já é bastante comum, desde implantes sub-cutâneos até modificações mais extremas como bipartir a língua.

Isso indica que a FC ainda tem sim caminhos a percorrer, mesmo no meio especulativo. Não pude deixar de lembrar de Warren Ellis e seu "Transmetropolitan", onde um rapaz deixa seu corpo para viver como uma "poeira nanorobótica", fazendo "download" (ou "upload"?) de seu cérebro, de sua consciência, para essa "nanopoeira", que ele pode manipular de qualquer forma, inclusive dando aspecto "humano". Neste ponto, todos na mesa foram a favor de boas histórias, com elementos humanos, ao invés da mera "previsão futurística", no que foram aparentemente secundados pela platéia. Outra associação imediata foi com um conto de Cristina Lasaitis, onde o ato de deixar seus "corpos virtuais", pós-humanos, para trazer a "realidade física, limitadora" traz conseqüências funestas aos protagonistas.

A New Space Opera, por sua vez, seria uma atualização de Flash Gordon e Buck Rogers (exemplos), tendo a grandeza, a conquista espacial, grandes impérios com o elemento épico e a estética como chaves para a renovação do gênero. Removendo as "princesas" e o heroísmo maniqueísta original, claro.

Ao final da palestra, fiquei com a certeza de que existem chaves para a nova FC ou mesmo para a nova literatura fantástica, sendo a principal delas a "estética". Do papel que o "design" tem em nossa vida até a "imagética" que envolve os novos gêneros descritos, em tudo a estética exerce uma força enorme, quando não predominante, como no caso do steampunk e da new space opera.

Por fim, o Jacques anunciou a revista Kalíopes (que foi ao ar no site do CLFC ao mesmo tempo que o e-zine Somnium Nº 101) e a Terra Incógnita, uma revista editada em conjunto com o Fábio Fernandes, que será primariamente publicada em inglês, visando alçar a produção nacional ao alcance mundial. Atualização: Fábio Fernandes avisa nos comentários que a revista não será, inicialmente, em inglês, apenas o blog Post-Weird Thoughts, que já é em inglês, será incorporado. Porém avisa também que os planos são de publicações em inglês no futuro, sim, o que não invalida meu comentário abaixo :)

Particularmente, não só quero aplaudir como festejar a iniciativa. Faz tempo que debato, especialmente na extinta (infelizmente!) lista da Intempol, que a internacionalização não só é uma saída para o mercado de nicho que é a literatura fantástica aqui no Brasil, como também a via mais "futurista" possível. O uso de inglês tende a difundir-se cada vez mais, sendo já a linguagem padrão nos negócios e no turismo. O lançamento de um fanzine como o Fabulário em inglês, dentro de uma feira literária nacional, apenas reforça essa impressão e o acerto da iniciativa. Sabendo ainda que eles têm diversos textos de grandes autores anglófonos para publicar, a coisa só fica melhor.

O Kulpas e o Kujawski, por sua vez, anunciaram planos de publicar livros, sendo um em conjunto e outro "solo" (do Kulpas). O livro em conjunto, ao que tudo indica, vem sendo desenvolvido há anos e trata-se de dois irmãos que comunicam-se apenas via cartas (ou e-mails?) e que refletem sobre suas vidas em ambientes totalmente diferentes, um imerso na cidade, na urbanidade e o outro em um ambiente mais saudável/bucólico¹.

Achou esta descrição da mesa muito cheia de referências, links? Sua cabeça está explodindo com a quantidade de coisas faladas, com a diversidade de assuntos? Se a reposta for sempre "sim", então eu consegui passar para você o que foi estar lá. Era impossível anotar tudo de interessante que vinha à tona! Caso contrário, fique ligado para a FANTASTICON do ano que vem e, se alguma mesa deste estilo, com algum desses caras (ou, melhor ainda, todos juntos) estiver na programação, não perca!

Aproveito para pedir desculpas pelo atraso na publicação deste relato, espero que o resultado final tenha compensado a espera!

¹ Aqui escrevo de memória e, como já faz uma semana praticamente, posso estar errado. Corrijam-me nos comentários se for o caso, por favor!

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@ 10.7.08 13:20

Veja também:
Parte 3

"PS"
Continuando a série de artigos sobre a FANTASTICON 2008... se você chegou aqui agora, leia a Parte 1/3 primeiro.

"A Ficção como base para uma nova realidade: de Baker Street ao Sítio do Picapau Amarelo", Octavio Aragão

A palestra teve início com um pouco de atraso, mas começou bem, com uma surpresa: um "clipe" da nova HQ "Para tudo se acabar na quarta-feira", que se passa no "multiverso" da Intempol. Muito bem produzido, o vídeo deixou todos ansiosos pela publicação.

Logo após - e aqui estou me guiando tanto pela memória quanto pelas notas que fiz - Octavio apontou a pós-modernidade como chave para toda a palestra. Contrapondo a "leitura funcional" - extremamente popular hoje com os best-sellers de auto-ajuda - e a leitura "por prazer", apresentou a visão de que a realidade hoje é composta pela ficção.

Segundo o palestrante, quando assistimos a um jornal, o "fato" ali apresentado é incompleto e depende da nossa imaginação e interpretação para tornar-se real. Dessa percepção - e de dados como a pesquisa onde os entrevistados disseram que Winston Churchill era ficcional e Sherlock Holmes, real - conclui-se que a realidade é composta pela ficção e que descartar uma leitura por ser "ficcional demais" ou não-utilitária é não atentar para o que fazemos diariamente, mesmo que inconscientemente.

O "mix" entre personagens e fatos "reais" (ou "históricos") com personagens e fatos "fictícios" foi um dos temas mais presentes na palestra do Octa. Desde Homero e a Ilíada, passando pelos folhetins - que teriam realmente iniciado a confusão de "real" com "ficcional" na mente do leitor, talvez por serem seriados - até as "biografias" de Holmes e de outros personagens ficcionais, o "crossover" realidade vs. ficção está presente na literatura e no imaginário das pessoas.

O "mapeamento" invocou a confusão com direitos autorais - o que fazer no caso de "reaproveitamento" de personagens como, por exemplo, Alan Moore fez em seu "Lost Girls"? Essa é uma questão atualíssima, que o palestrante soube trazer à tona com uma visão histórica - os direitos autorais, especialmente na "ficção alternativa", jamais foram respeitados, a não ser forçosamente, por meio de leis e ação policial ou, em casos raros, preventivamente, por meio de compra ou cessão dos direitos de uso.

Ainda falando nesse "crossover" realidade e ficção, bem como sobre "ficção alternativa", Octavio comprovou que as "fanfics" são muito mais presentes do que se imagina. Citando o infame livro de Jô Soares, "O Xangô de Baker Street" e a obra de Monteiro Lobato (que reconta Peter Pan e inclui diversos personagens de outros escritores em seus livros), a "fanfic" é presente e antiga, recebendo essa denominação e sua atual popularidade com a internet - de onde também vem sua conotação negativa, devido a alguns trabalhos de baixa qualidade publicados on-line.

Aproveitando o tema, Octavio demonstrou que "ficção alternativa" é um termo real, acadêmico, citando o livro de Eric B. Henriet (veja abaixo) e também que seu livro, "A Mão que Cria", foi o primeiro a ser publicado assumindo-se como ficção alternativa, e não o primeiro texto de ficção alternativa publicado no Brasil.

Outro tema, conseqüência dos anteriores, foi o conceito de "Mitoversos", ou os mundos "mitológicos" formados pela união de diversos cenários, personagens e fatos reais e ficcionais, como no caso de Wold Newton, de Philip José Farmer.

Por fim, Octavio citou alguns livros que inclui em minhas anotações para comprar ou pesquisar futuramente: "Encyclopedia of Science Fiction", de John Clute (mais informações); "L' Histoire Revisitée" de Eric B. Henriet e "A Turma do Sítio na Semana de 22" de Márcia Camargos.

A palestra toda foi bastante empolgante, cheia de insights e de referências interessantes. Deu para perceber que o conteúdo foi preparado com esmero e que o Octavio falou de algo que realmente entende. Houveram as "cutucadas básicas", como na questão da importância e qualidade das fanfics, bem como no assunto "ficção alternativa" (conforme descrevi acima). Enfim, uma palestra excelente e com conteúdo relevante. Estou na torcida para que o Octa coloque a palestra on-line para download!

Respondendo aos comentários

Vou aproveitar o espaço para falar um pouco dos comentários recebidos para a parte 1 deste relato. Primeiro agradeço a leitura e a disposição em comentar da Gi, da Cris e do Silvio Alexandre, organizador da FANTASTICON. Creio que é importante avaliar os problemas e as qualidades de toda empreitada, a fim de fazer um ajuste fino nas próximas oportunidades. Embora tenha resultado em um evento "escondido", a mudança de local foi bem justificada pelo Silvio, que lembrou a barulheira (realmente) vinda do pátio no ano passado.

Quanto a ter que escolher entre boas palestras rolando ao mesmo tempo, claro que não era uma "reclamação": sem dúvida prefiro um evento com muitas oportunidades. Como não consegui me ater ao que havia programado, não tive realmente essa dificuldade, mas foi algo que me deixou pensando e planejando antes de ir para lá. E isso é bom! Que o ano que vem nos deixe assim, ansiosos e planejadores, novamente.

Amanhã, a parte final do meu relato da FANTASTICON 2008, com as impressões sobre a mesa "Um olhar sobre a literatura fantástica atual". Até lá!

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@ 9.7.08 20:40

Veja também:
Parte 2

Parte 3

"PS"
Para aqueles que não sabem, a FANTASTICON é um evento sobre literatura fantástica, isto é, ficção científica, fantasia, horror e terror, além de uma série de "sub-gêneros" dentro destes.

A edição deste ano teve lugar no Colégio Marista Arquidiocesano em São Paulo (capital) nos dias 5 e 6 de julho, junto ao XVI Encontro Internacional de RPG, com palestras, vídeos, mesas de bate-papo, lançamentos de livros e revistas, entre outros.

Um resumo

Daquilo que participei, só posso dizer que o evento foi excelente. Participação, temas, palestrantes/debatedores, tudo ótimo. A reclamar apenas o excesso de eventos paralelos interessantes (ok, isso não é algo realmente a reclamar) e a "invisibilidade" da FANTASTICON dentro do evento de RPG - conseguiram colocar as salas em um local ainda mais isolado do que na edição anterior.

Fui para a FANTASTICON querendo participar, essencialmente, de três palestras: a de Octavio Aragão no sábado (que foi excelente), a de Braulio Tavares (que perdi) e a mesa-redonda sobre novos rumos da FC (excelente), ambas no domingo.

Maiores detalhes

O evento começou "realmente" para mim na sexta-feira de tarde, em um almoço com meu amigo Ivo Heinz, que é um grande conhecedor de FC e sempre me apresenta para livros e autores interessantes. À noite, ainda na sexta, fui até o lançamento de "Fábulas do Tempo e da Eternidade", da minha amiga Cristina Lasaitis - já estou na metade do livro e gostando muito, em breve sairá uma resenha por aqui.

No sábado, ainda sentindo efeitos do "buslag" (viagem de 11h de Balneário Camboriú até SP, sem dormir), cheguei por volta do meio-dia no EIRPG. Porém e a FANTASTICON? Foi difícil encontrar o evento: placas indicavam a direção, mas de repente elas sumiam e eu ficava "?!?"

Rodei o pátio, subi até onde havia sido o evento no ano anterior, procurei meus amigos, nada. Só quando encontrei a já mencionada Cris, próximo à área de estandes do EIRPG é que consegui entender como fazer para chegar até a FANTASTICON. Infelizmente, parece que a "invisibilidade", tão recorrente quando se fala de FC e afins, atacou novamente.

Uma vez no lugar certo, embarquei no finalzinho da palestra "O Vampiro Antes de Drácula", da Martha Argel e Humberto Moura Neto, que estava divertida e informativa, apesar de um sujeito irritante na primeira fileira ficar interrompendo o tempo todo. A palestra seguinte seria naquela mesma sala, com Octavio Aragão...

Na próxima parte, a ser publicada amanhã, falarei sobre a palestra de Octavio Aragão. Na terceira e última parte, a ser publicada na sexta-feira, a mesa sobre novos rumos da FC com Fábio Fernandes, Guilherme Kujawski, Jacques Barcia e Sérgio Kulpas. Até lá!

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@ 31.3.08 04:11

A partir de:
www.forbes.com

A Forbes fez um especial sobre o "Tempo" (link acima), em suas diversas formas, com artigos bem interessantes que só consegui ler há pouco.

Uma nota: o link acima aponta para o índice de artigos, abaixo listo os artigos, minha mini-resenha e seus respectivos links... para a página de "impressão", mais leve de carregar e ler. Se souber inglês, aproveite!

Time's Sleight Of Hand

Por Brian Greene
www.forbes.com

Greene - um físico conhecido como um dos principais acadêmicos da "teoria das cordas", escritor de "O Universo Elegante" e "O Tecido do Cosmo" - escreve com simplicidade sobre o estado do nosso conhecimento atual sobre o tempo. Isto é: não sabemos, realmente como ele funciona.

Partindo de um histórico que é, basicamente, Einstein e utilizando analogias inteligentes e simples, Greene demonstra que avançamos pouco no conhecimento do tempo e que hoje supomos que ocorre mais ou menos como a temperatura em nosso corpo. Isto é, quando os átomos e moléculas estão se movendo rápido, sentimos calor; quando devagar, sentimos frio. Porém, não sabemos quais seriam essas "unidades" que operam o tempo e nem como manipulá-las e como elas afetam a experiência de tempo que temos.

Talvez, essa seja a grande sacada do artigo: o tempo é algo mensurável, mas é uma experiência ou, nas palavras do autor, um "fenômeno emergente". O artigo é curto e a leitura é simples, não confie apenas na minha interpretação do que li - vá lá e confira por si próprio. Vale a pena.

A Brief History Of Time Machines

Por David Toomey
www.forbes.com

Toomey não é famoso como Greene, porém seu artigo põe em perspectiva o eterno sonho - e eterno tema da literatura de ficção científica - de viajar no tempo. Partindo, novamente, de Einstein (é possível ter outro início, quando se fala no tempo, em termos de ciência?) o físico explica o interesse que surgiu quando Carl Sagan investigava como realmente poderia acontecer uma viagem no tempo para seu roteiro de filme/livro "Contato".

A teorização de Kip Thorne sobre os buracos de minhoca (ou verme - no inglês, "wormhole") a pedido de Sagan agitou a comunidade científica provocando uma avalanche de artigos e teorias sobre máquinas do tempo e viagens temporais. Lembro de ler muito sobre isso em revistas como a SuperInteressante, que ecoavam de forma simples e legível para seres humanos parte das teorias "da moda".

Toomey mostra como o interesse cresceu e decaiu, com a compreensão de que, sem a "Teoria Unificada da Física", qualquer teorização sobre viagens no tempo seria mera especulação, provavelmente inútil. Não que todos os cientistas concordem, porém a maioria está em busca de entender e unir as teorias de Einstein e da Mecânica Quântica. Momento no qual - tanto Toomey quanto Greene concordam - muito da mecânica do tempo será esclarecida.

The Price Of Time

Por Paul Maidment
www.forbes.com

Maidment faz uma avaliação histórica e funcional do valor do tempo. Note, valor não tem necessariamente a ver com preço e nem com dinheiro. Analisando o quanto o tempo sempre foi importante para a cultura humana - até ser objeto recorrente de livros de auto-ajuda, especialmente empresariais, nos dias de hoje - o texto segue verificando o quanto sobre ou subestimamos o tempo, finalizando com um chavão básico da auto-ajuda sentimental que é quase inescapável...

The Money Meter

Por David M. Ewalt & Blair Ellis
forbes.codefix.net

O "medidor de tempo" tenta dizer o quanto o seu tempo vale. Por ele, fiquei sabendo que meu tempo "vale" mais ou menos metade do que vale o de um trabalhador estadunidense comum. Espero que quando estiver trabalhando fora do país, isso mude um pouco!

A Cure For Chronocentrism

Por Tim Powers
www.forbes.com

Quando eu já pensava "ué, um especial sobre o tempo e nenhum artigo de um escritor de ficção científica?" eis que surge este divertido e despretensioso texto de Powers. Partindo do fato de ter nascido em um 29/fevereiro, o escritor desmonta nossa ligação tão cômoda com a "cronologia" em nossas vidas.

Peace Time

Por David A. Andelman
www.forbes.com

Adelman, editor-executivo da Forbes, analisa como o momento histórico e tecnológico do acordo de Versailles resultou em um tratado que até hoje dá dor de cabeça ao mundo, especialmente se comparado ao tratado que ainda hoje funciona para a Bósnia (Acordo de Dayton). Guardadas as proporções dos dois conflitos, Adelman verifica como o timing e a possibilidade de comunicações eficientes, rápidas e seguras nos dias de hoje acelerou a negociação e adoção de um tratado costurado de forma muito mais bem informada que o de Versailles. Um artigo interessante aos que se interessam por história e aos que esquecem o quanto a tecnologia evoluiu em coisa de apenas 100 anos.

The World's Oldest Working Clock

Por Parmy Olson
www.forbes.com

Falando sobre o relógio na catedral de Salisbury, conhecido como o relógio mecânico mais antigo do mundo ainda em funcionamento, Olson escreve um texto árido e chato, falando por alto de relógios de sol e água e descrevendo o funcionamento do relógio. Uma abordagem bem rasa de como o relógio pode ter afetado os paroquianos, quando de sua instalação, completa o texto mais decepcionante desta série.

Collections: Vintage Rolexes

Por Nicola Ruiz
www.forbes.com

Descrevendo o mercado de colecionadores de relógios - e seus valores, chegando a absurdos (para mim, ao menos) 250.000 USD - este texto, que tinha tudo para ser seco e chato, acaba sendo uma descoberta gostosa, com link para um web-site de aficionados e para uma galeria: By The Numbers: The World's Most Expensive Watches.

What Is Time?

Por Elisabeth Eaves
www.forbes.com

Passando por alto pelas questões filosóficas sobre "o que" é o tempo, Eaves tenta pintar um cenário com declarações tão diferentes quanto de religiosos e físicos, gurus de auto-ajuda e médicos, sobre o que é o tempo. O resultado é um mosaico interessante porém previsível. O artigo vale especialmente por seus links e pelo quadro In Their Own Words: 14 Experts On Time.

Is Time Just A Trick Of The Mind?

Por Lionel Laurent
www.forbes.com

Um debate interessante, mediado pelo autor, entre dois físicos que prevêem "destinos" diferentes para a nossa percepção de tempo. Embora ambos concordem que o tempo é, na realidade, apenas algo que existe na nossa percepção, Rovelli defende que uma xícara que cai e se quebra pode sim voltar para a mesa e reconstituir-se - isso só é muito improvável. Já Le Poidevin demonstra que o tempo pode não existir, mas existe uma relação de "causalidade" - batemos na xícara, ela cai e se quebra. O que "causaria" ela voltar para cima da mesa e se reconstituir?

O debate é frágil pois tudo que o sustenta são teorias, não comprovadas inclusive sob parâmetros matemáticos, quiçá práticos. Porém, novamente, a Teoria Unificada entre a Mecânica Quântica e a Relatividade pode decidir a parada - apenas não sabemos quando e nem como...

The End

Por Steve Almond
www.forbes.com

E, ainda bem, a coleção de artigos termina de forma extremamente bem humorada e divertida com este texto de Steve Almond!

Brincando com o "fim do tempo" em termos de cultura norte-americana, Almond refere-se ao relatório que declara que "O tempo acabou"... para "o aquecimento global", a "água", os "jornais diários" e o Shaquille O'Neal, entre outros. Boas referências e frases, três destaques:

"Federal officials concede that the new report is disturbing, but they are urging citizens not to panic. Or, if they must panic, to make it appear as if they are dancing."

"Jose Rivera, a mechanic from San Antonio, didn't see what all the fuss was about. 'Time is money, right? So just print more.'"

"Some religious leaders seized on the report as proof that the end days are near. Television minister Joel Osteen said he plans to rush to print a new book, Why God Wants You to Profit From the End of Time."

No geral, uma ótima coletânea de artigos, especialmente aqueles com foco científico e político.

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  Duna
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@ 15.2.08 18:03

A partir de:
www.estantevirtual.com.br

Por: Frank Herbert
Tradução de: Jorge Luiz Calife
Editora: Nova Fronteira, 1984, 3ª edição
615 páginas (672 considerando apêndices)

Atualização: Ivo Heinz avisa que a série do Scifi Channel não só passou no Brasil, como está disponível em DVD para compra.

Um clássico da literatura de ficção-científica (ou da fantasia científica), livro excelente e premiado, vergonhosamente ausente das livrarias brasileiras - o link logo abaixo do título desta resenha é para a Estante Virtual, web-site que reúne sebos e livrarias de usados de todo o país.

A história é forte e emocionante e se desenvolve principalmente em Arrakis (ou Duna), um planeta periférico e desértico, que só tem importância por ser a única fonte de uma substância conhecida como "a especiaria" ou "melange" que, além de retardar o envelhecimento e proteger contra venenos, teria ainda efeito sobre os dons de presciência e aumento de capacidades dedutivas/lógicas de quem a toma.

Conhecemos o planeta por meio de três "povos", por assim dizer, os Atreides e os Harkonnen, duas famílias em guerra dentro do grupo de "grandes casas", que servem de balanço a um domínio imperial, em uma cultura feudalista e os Fremen, habitantes do deserto. Marginalmente, existe "A Corporação", um grupo de humanos viciados em especiaria que controla as viagens espaciais - eles afirmam que a especiaria é que torna os cálculos possíveis.

Neste cenário, acompanhamos a ida dos Atreides para Arrakis para substituir a tirania dos Harkonnen (o livro, nesse sentido, é bastante dicotômico, ao menos na primeira metade). Mas não há engano: os Atreides caminham para uma armadilha, preparada pelo próprio Imperador. O enfoque político, religioso e ecológico não briga com os dramas humanos existentes na trama, ao contrário, dá credibilidade aos mesmos, dando força ao roteiro extremamente bem pensado, tornando o livro o best-seller que foi, muito premiado e inclusive convertido em filme com direção de David Lynch (Twin Peaks, Cidade dos Sonhos) - que, apesar de elogiado por diversos quesitos técnicos, foi considerado uma bomba em termos de roteiro adaptado, tanto por fãs como pela crítica de cinema. Uma série de TV foi produzida depois pelo Scifi Channel (que eu saiba, não chegou ao Brasil) e há boatos de que um novo filme ou série seria produzido.

Sob qualquer ponto de vista, o livro de Herbert merece ser lido. É uma história de tirar o fôlego, com considerações cuidadosas em temas delicados como a religião; a consciência ecológica e política/estratégica encontrada na obra ainda hoje é rara de se encontrar na literatura. Não se deixe assustar pela quantidade de páginas e nem pelas seqüências - o livro vale muito por si só.

A criticar, apenas a descrição econômica de batalhas e o final um pouco apressado, deixando com gosto de quero mais. Algumas situações/idéias podem soar clichê, mas o leitor deve entender que Duna foi escrito em 1965, isto é, ele inventou algumas coisas que hoje são clichê. As notas ao final do livro também poderiam ser distribuídas em notas de rodapé, simplificando a leitura e o acesso do leitor à informação.

A avaliação final é de que o livro é fantástico, inteligente e mais do que recomendado. Se encontrar em algum sebo, compre!

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@ 13.2.08 07:15

A partir de:
www.lulu.com
"Antologia da nova literatura fantástica em língua portuguesa"
Por: diversos autores (João Ventura, Wolmyr Alcantara, Yves Robert, Octavio Aragão, Jorge Candeias, Gabriel Boz, Telmo Marçal, Carlos Orsi, João Ventura, Carlos Patati, Sofia Vilarigues, Maria Helena Bandeira, António Candeias e Carla Cristina Pereira)
Edição: Luís Filipe Silva
Organização e seleção: Jorge Candeias e Luís Filipe Silva
Impressão: Lulu
262 páginas (255 desconsiderando a introdução)

Acabamento: ótimo em princípio, um pouco menos durável (especialmente a capa) do que eu esperava (pelo preço). A ilustração da capa é fantástica, embora o título do livro fique um pouco "escondido". A impressão (via Lulu, uma gráfica sob demanda) deixa a desejar na capa e contra-capa (imagens "pixelizadas", por exemplo) mas compensa inteiramente no miolo, com um papel e impressão de qualidade.

Impressão geral: boa compra, a antologia reúne alguns contos muito bons, outros medianos e alguns ruins - como toda coletânea. Talvez fosse de esperar mais de uma "Antologia", ainda mais editada pelo Luís Filipe e pelo Candeias, já há muito conhecidos pela qualidade e perfeccionismo em seus empreendimentos. Não é algo que decepciona, mas preço vs. acabamento vs. conteúdo acaba fechando em uma conta não completamente positiva.

Vou analisar aqui o livro em termos gerais - com o tempo, disponibilizarei uma resenha para cada conto, com a exceção apenas do conto de Octavio Aragão, "Para tudo se acabar na quarta-feira", que será alvo de resenha em outra análise futura, acerca da Intempol (universo onde o conto se encaixa).

A introdução do Luís Filipe é um bom começo para o livro. Com um apanhado geral e resumido do cenário de literatura fantástica, mostrando que as dificuldades para publicar no gênero existem aqui e lá e apresentando o que é o projeto, de seu princípio, onde nota-se especialmente uma certa melancolia e negativismo na atitude portuguesa - que aliás espalha-se em fóruns e listas de discussão, bem menos ativas que as brasileiras.

O livro alterna contos de brasileiros com portugueses, criando um efeito inusitado e um tanto complicador para a leitura contínua. Por mais que seja interessante ler os contos em sua grafia original, isso acaba deixando a leitura um pouco mais pesada do que deveria ser, dadas as diferenças gramaticais - como bem lembra o editor na introdução.

O veredicto final da coletânea é positivo, embora o preço cobrado pela Lulu (incluindo o frete) seja um tanto caro, pensando no conjunto e na alternância de qualidade entre os contos, conforme já citei. Não diria que é um livro essencial para qualquer leitor, mas o fã de fantasia e ficção-científica pode comprar sem medo: é uma boa aquisição.

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@ 18.7.07 22:00

Por Alan Moore, Paul Jenkins, Warren Ellis (texto) e J. H. Williams III, Sean Phillips, John Cassaday, Kevin Nowlan, Rick Veitch (arte)
98 páginas, Pixel Media/DC Comics (Vertigo)

A revista segue firme com histórias interessantes e apresentando séries importantes do selo Vertigo. Neste número, temos a estréia de Promethea, mais John Constantine e Planetary, além de duas histórias de Alan Moore por seu selo "ABC (America's Best Comics)".

Em Promethea, somos apresentados à personagem principal que é na realidade uma história, uma menina salva por seu pai e por deuses pagãos do genocídio promovido por fanáticos católicos. Levada ao mundo de Imatéria, Promethea pergunta aos deuses se poderá voltar ao nosso mundo - ao que respondem "Bem, às vezes, se uma história for muito especial, ela pode conquistar as pessoas. Veremos."

Já Sophie Bangs vive em um futuro um pouco distante, em meio a carros que voam, grupos de super-heróis "comportadinhos", policiamento ostensivo e gibis com nomes como "Gorila Chorão" ("*soluço* a vida moderna me faz sentir tão solitário!"). Pesquisando sobre Promethea para um trabalho final de escola, ela revive a heroína e inicia uma série de aventuras.

O sempre excelente texto de Moore com a nada convencional arte de Williams III garantem uma ótima história - o negócio é acompanhar para ver como será o desenrolar. Mas, pela fama da série lá fora, o material todo deve ser muito bom.

Na seqüência, mais uma boa história de John Constantine, embora cheia de referências que podem confundir os leitores que não conhecem bem o personagem. Nenhuma história tão boa quanto a de Ellis na edição anterior, porém intrigante para quem leu edições anteriores de Constantine.

Planetary dá prosseguimento ao mistério que circunda a série - e sua publicação aqui no Brasil. Afinal, será lançada em revista isolada ou continuará dentro da Pixel Magazine? A história é boa e a arte de Cassaday, como sempre, é fantástica. Mas nada se esclarece e essa indefinição quanto ao futuro da série é inquietante.

Por fim, temos duas historietas de Alan Moore bastante engraçadas e gostosas de ler, um bom fechamento, leve e irônico, para uma revista com histórias mais "pesadas" como Constantine e Planetary.

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@ 10.7.07 05:40

Por Grant Morrison (texto) e Frank Quitely (arte)
88 páginas aprox. (24 por edição), Editora DC Comics/Panini Comics

Recomendação do amigo Marcelo Galvão, confesso que jamais compraria por iniciativa própria. Primeiro que Superman não é meu personagem favorito, segundo por desconfiar dessas séries com títulos pomposos.

Porém, seria um desperdício deixar passar o excelente roteiro de Grant Morrison e a arte limpa, meio européia e com influências de Moebius, de Quitely. A série abre com a morte anunciada de Superman, em uma trama muito bem pensada por Lex Luthor (claro).

Somos apresentados a cientistas que buscam colher amostras solares e viajam entre dimensões, enquanto Superman tenta lidar com seus "novos poderes" e o recente anúncio de que não é mais imortal.

A série nestes 4 números desenvolve-se bem - nas bancas, já está no número 7, mas não consegui achar o 5º ainda - e estou curioso para ver o que Morrison fará com esse Super, mortal e cheio de poderes estranhos. É continuar a ler para saber, comentarei em novas resenhas aqui...

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@ 6.7.07 12:45
Por vários autores/artistas
96 páginas, aproximadamente, Editora Pixel Media

A Pixel Magazine - revista de "apresentação" (ou revista "balão de ensaio") dos títulos de que a Pixel dispõe de direitos para publicação - firma-se como uma revista agradável, interessante e variada.

Neste número, temos uma apresentação convincente de "Fábulas", série premiadíssima lá nos EUA, que chegou a ser comparada com o Sandman, de Neil Gaiman - exagero, em minha humilde opinião.

Apesar de não ser tão genial quanto Sandman, a história nesta edição é uma excelente e inspiradora leitura. A revista continua com uma história curta de John Constantine, escrita por Warren Ellis, de horror psicológico, um dos pontos altos de Ellis.

Na seqüência, uma história de Planetary, que não explica nada e apenas atiça a curiosidade para a série. Aliás, esse foi um dos pontos baixos da edição, embora a história em si seja boa, ela é claramente um ponto de ligação entre histórias e não "fecha", ao contrário da história de Fábulas e de Constantine, fugindo ao propósito declarado da revista.

Por fim, temos uma história curta e ingenuamente divertida de Cobweb, por Alan Moore e sua agora esposa Melinda Gebbie, seguida de uma matéria tergiversando sobre os futuros lançamentos da Pixel. Resultado final: a Pixel Magazine continua na minha "lista de compras" de HQs mensais.

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@ 5.7.07 12:10

Por Alfredo Castelli (texto) e Lucio Filippucci (arte)
50 páginas (aprox.), Editora SAF Comics/Mythos Editora

Mystère teria sido um personagem criado por Paul Deleutre (sob o pseudônimo de Paul D'Ivoi) que teria conhecimentos exóticos e viveria fantásticas aventuras em todo o mundo ao lado de seu jovem e desastrado assistente Cigale.

Os quadrinhos extrapolam o conceito, reaproveitando - e satirizando - clichês da literatura de aventura fantástica. A narrativa irônica de Castelli em perfeita fusão com a arte "ingênua" de Filipucci ajudam ao efeito cômico e aventuresco.

Nos dois volumes lançados até o momento, vemos repetidas vezes Cigale amparar - em momentos de perigo - as madames e senhoritas que requisitam os serviços do famoso detetive, não sem deixar de apalpar seus seios ou olhar suas roupas íntimas. A série satiriza de Sherlock Holmes e Peter Pan até Star Wars e Jornada nas Estrelas, passando por H. G. Wells e E. T. A. Hoffman - e isso apenas em dois volumes!

A edição bem cuidada graficamente pela Mythos apenas adiciona valor a esta HQ, minha única "crítica" sendo o valor final, que poderia ser reduzido em 2 ou 3 reais, certamente ampliando o público potencial. Um fator extremamente positivo é o conceito de publicar uma história completa por edição, mesmo havendo alguma continuidade.

No volume 1 vemos o detetive e seu ajudante chegarem a Madri em seu "hotel elétrico" para ajudar uma dama cujo marido, construtor de um metrô subterrâneo "ecológico", desapareceu. Na investigação, Mystère enfrenta seu arquiinimigo, que manipula e ajuda um grupo de chineses a ressuscitar um dragão que dormiria sob a cidade.

No volume 2, Mystère e Cigale embarcam na primeira viagem tripulada para a lua, onde descobrem... que a lua é habitada e freqüentada, já, por seres humanos! Mystère tem o dissabor de saber que seu arquiinimigo não morreu, mas encontra-se na lua aliado aos habitantes da "face escondida" do satélite no planejamento de uma invasão à Terra.

Diversão garantida, sem compromisso e nem profundidade, com muita ironia.

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@ 18.6.07 02:37

Por Philip K. Dick
300 páginas, Editora Aleph

Intenso, assustador e surpreendente. A literatura de Dick muitas vezes evoca estes adjetivos, mas não é sempre que eles aparecem em conjunto. Neste livro, Dick apresenta uma história alternativa sobre nosso mundo: o que aconteceria se os aliados perdessem a II Guerra Mundial contra o eixo?

Em um mundo dividido entre os metódicos e - para os ocidentais - incompreensíveis japoneses e os racistas expansionistas alemães, personagens improváveis como um judeu e sua ex-mulher; um comerciante de "antigüidades" norte-americanas; um executivo japonês e um misterioso escritor têm suas vidas entrelaçadas em fatos que vão além de seu alcance ou mesmo de suas ambições.

Além de apresentar o mundo nesta realidade alternativa, Dick também explora preconceitos e orgulhos dos estadunidenses, visões de um mundo mais avançado cientificamente porém ainda desequilibrado em termos de poder. A Ásia e o Oriente Médio, que em nossa realidade sempre foram importantes em termos de balanço do poder mundial, são áreas meio "apagadas do mapa" no livro de Dick.

O foco nos EUA e nas culturas germânicas e nipônicas dá força ao livro, que poderia tornar-se cansativo ou mesmo "escolar", se seguisse por outra linha. Ao invés, Dick leva o leitor por uma trama envolvente, buscando a solução do mistério por trás de um livro que fala... sobre como seria o mundo se os nazistas não ganhassem a guerra.

Há também a curiosa influência do I Ching, que é originalmente chinês, mas que permeia o universo nipônico imaginado por Dick e tem parte decisiva no desenvolvimento da história. Um livro que joga com questionamentos sobre a realidade e o papel que desempenhamos com nossas ações, da importância delas para o mundo.

Leitura mais que recomendada, sendo este um clássico da história alternativa e da ficção científica.

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@ 01:29

Por Orson Scott Card (texto) e Andy Kubert (arte)
Aprox. 120 páginas, Editora Panini Comics/Marvel

Li opiniões extremadas sobre esta série - uns acharam instigante, outros, lixo ilegível. A verdade é que: 1. é pouco espaço para muita história; 2. é muita pirotecnia para explicar algo razoavelmente simples (e um moralismo que só o Card poderia ter, para explicar o alcoolismo de Tony Stark); 3. é o segredo mais mal guardado da história dos quadrinhos!

Há uma série de potencialidades que, com mais espaço e um tratamento mais sutil, poderiam dar um resultado excelente. Mas a arte do Andy Kubert, comercial apenas, não ajuda na empreitada e o resultado é mediano. Para completar, na edição 2 eles finalizam com... "continua em Homem de Ferro Millenium 2!"

Das duas uma, ou estão tratando o leitor como idiota, anunciando uma série em 2 edições e depois prolongando-a artificialmente por criar um "volume" 1 e 2; ou o erro foi tão grosseiro que denota pressa, incompetência e falta de cuidado com o trabalho. Não sei o que é pior. Resultado final? Economize seu dinheiro...

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@ 01:11

Por vários autores
90 páginas, Editora Pixel

A Pixel Magazine é como uma revista de "apresentação", reunindo histórias "fechadas" e isoladas de diversos universos publicados pela editora.

Nesta edição, uma história bastante original com John Constantine, uma história interessante com o nem sempre bom "Sandman original" (Weasley Dodds, que usa uma máscara e usa um gás do sono para prender bandidos), uma história forte e intrigante de "Planetary", da dupla Ellis & Cassaday, com o adendo ótimo do maluco Grant Morrison e seus Invisíveis, além de duas histórias curtas no "universo" criado por Neil Gaiman, no sonhar, uma com Morte e outra com Nuala, a ex-amante do ex-Lorde Moldador...

Tudo muito confuso? Muitos nomes? Vale a pena correr nas bancas, que até sexta ainda tinham esta edição da PM, e comprar - você leva algumas horas de diversão das boas, sem ter que ler zilhões de quadrinhos depois para situar-se na "cronologia".

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@ 00:11

Veja Também:
Scarium
Por diversos autores
70 páginas, Scarium

Uma das mais bem-sucedidas revistas de Ficção Científica & Fantasia nacionais, com mais de 5 anos de estrada, tem nessa edição comemorativa de aniversário um de seus pontos altos.

Além dos contos excelentes - incluindo uma nova tradução de Poe pelo editor, Gabriel Boz - a revista foi responsável por acender uma enorme celeuma no "gueto" da FC nacional, com o artigo bombástico de Alexander Lancaster e Ana Cristina Rodrigues.

Os adjetivos acima não são exageros - ao menos se considerarmos as reações ao artigo. Vi e ouvi, ao vivo e a cores, a revolta, mágoa e indignação de muitos que levantaram vozes - e digitaram furiosamente ao teclado - contra o texto.

Polêmicas à parte - abordarei isso de outra forma, em outro espaço - a revista firma-se como uma referência de FC&F no país, capaz de mexer com o gueto de fãs e esgotar uma edição, feito que não é para qualquer revista.

Não recomendo apenas a Scarium 19, mas sim a assinatura completa da revista. Não é muito dinheiro pelo retorno em diversão, conhecimento e - até - polêmica!

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