Fernando S. Trevisan - Leituras


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Fernando S. Trevisan
2007-2009
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Leituras Web
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Na fila de leitura
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Por: Mark Millar (roteiro), Dave Johnson e Kilian Plunkett (arte), etc.
Editora: DC Comics, 2003, 1ª edição em trade paperback (2004)
160 páginas

"O que aconteceria se..." - complete esta frase com quase qualquer possibilidade, das mais ridículas às mais interessantes, e você terá uma visão de tudo que as editoras de heróis já fizeram com seus personagens. A maioria dessas histórias é fruto de oportunismo e não se sustentam. Mas "Red Son" ("Superman: Entre a foice e o martelo" aqui no Brasil, pela Panini) é uma grata exceção.

Neste caso, como deve parecer óbvio, o complemento da frase é: "...a nave do Super-Homem caísse na Ucrânia, e não nos Estados Unidos?". A premissa é boa, mas já imagino o leitor pensando: "ih, lá vem mais uma história super-patriótica mostrando como os Estados Unidos são superiores..." Confesso que pensei exatamente isso antes de ler, mas Millar conseguiu surpreender. Ainda que o roteiro não seja tão "cinzento", sem maniqueísmo, como querem alguns dos que comentaram a série, ainda assim há inovação e espaço para idéias interessantes.

O autor inicia a HQ já em um caminho bastante diferente da maioria das histórias do tipo. Ao invés de recontar toda a origem do herói, sua infância, a doutrinação comunista, etc. Millar partiu do momento em que o mundo descobre a existência de um alienígena super-poderoso. Os primeiros quadros, mostrando a estupefação e o medo norte-americanos, são impagáveis, bem como o discurso caipira e medroso de Martha Kent, ou a "mãe adotiva" do Super na "linha de tempo oficial". Mas a escolha por esse início da história tem outro motivo: contar tudo a partir do ponto de vista norte-americano, usando esse mesmo ponto de vista como uma crítica aos Estados Unidos.

Imagens icônicas

Ainda que anunciado pelos soviéticos como um soldado, uma nova arma que desequilibrava a guerra fria de vez, o Super desta história tem, basicamente, a mesma personalidade do Super "normal". Ou seja, ele ainda vai salvar a todos, sejam americanos ou comunistas. E a primeira oportunidade para o discurso "escoteiro" do personagem aparece logo: após salvar Metrópolis de um satélite russo em queda, ele volta para cidade para impedir que o famoso (e também icônico) globo do "Daily Planet" caia sobre a população. O resultado é a imagem ao lado, um exemplo excelente da iconografia utilizada.

A atenção aos detalhes na arte é ótima: o modo como o Super se veste - ainda de cueca por cima das calças, mas cada vez mais cinza conforme a história evolui, cada vez mais "oficial" e "soldado", chegando inclusive a usar coturnos e luvas, além de golas e ombreiras. Os edifícios comunistas também são bastante fiéis tanto ao que foi construído como ao que foi "sonhado" pela URSS.

Opções ideológicas

O Super-Homem de Millar vai recrudescendo conforme a história avança. De princípio, ele é basicamente um rapaz como seria "Clark Kent" - querendo ajudar o mundo, deixando a política para Stalin, a KGB e outros. Conforme a história evolui - e Stalin morre - ele vai assumindo mais e mais responsabilidades e dobrando o mundo para aquilo que ele considera correto.

Algo que não fica bem explicado na história é a conivência, desde o início, que o Super-Homem tem com as mortes provocadas pelo regime soviético. Em um momento da história, ele assiste ao capitão Pyotr, chefe de polícia e filho bastardo de Stalin, contar como assassinou o pai e a mãe de um garoto de nove anos (que virá a se tornar, é óbvio, o Batman), por imprimirem propaganda contra o regime. Nem uma palavra contra essa barbárie, nem uma ação para acabar com a violência - apenas a conivência passiva de quem está ali para garantir o sistema e prevenir catástrofes naturais, ou ataques inimigos.

É também nessa conversa com Pyotr que fica claro um traço importante da história de Millar, que voltarei mais à frente. Diz o capitão: "Você é o oposto da Doutrina Marxista, Super-Homem. Prova viva de que nem todos os homens são criados iguais." (tradução minha).

Homenagens aos personagens e passagens famosos

Um dos problemas é a necessidade - pela limitação de páginas, provavelmente - que Millar tem de "correr com a história". Ainda que isso não seja efetivamente algo que quebra a narrativa, é perceptível a tentativa de plantar homenagens em diversos pontos da história. Desde o Batman - que tem o pior uniforme, perdendo apenas para aquele filme com o George Clooney... - até a aparição relâmpago do amor de infância do Super - aqui, Lana Lazarenko - passando pelos vilões "clássicos" do herói, que, no entanto, não têm o peso normal: são todos "joguetes" de Lex Luthor. Exceto por Brainiac, o único vilão além de Luthor que tem participação efetiva na história - depois de transformar Stalingrado em miniatura, acaba reprogramado pelo Super para servir à humanidade...

Outros personagens aparecem: a Mulher-Maravilha assume a utopia soviética e luta ao lado do Super-Homem; o Lanterna Verde aparece, mas totalmente modificado, assim como outros heróis têm participação minoritária. O amor entre o Super e Lois Lane existe, mas é reprimido pela impossibilidade de concretização. Ela é esposa de Lex Luthor, ele, a principal arma do sistema adversário. É curioso também como as ilustrações são utilizadas para passar dicas e homenagens, como o processo de independência dos estados que compõem os EUA (visto em um jornal) ou a aparição de uma famosa estrela do cinema em idade avançada, quando na nossa realidade ela teria morrido no auge de sua carreira.

A vitória do ser humano

Talvez o ponto mais importante na história narrada por Millar - que já comecei a tratar anteriormente na citação ao capitão Pyotr - seja justamente uma crítica velada aos quadrinhos. Em todas as histórias de super-heróis, os seres humanos são fracos, dependentes, irresponsáveis. Não que isso não seja verdade, mas sabemos que isso é a "verdade da média". Temos provas - históricas e também atuais - de pessoas extraordinárias, com habilidades, bondade, inteligência, etc. acima da média - assim, claro, como o oposto.

O Super-Homem de Millar - que não tem nome, nem identidade alternativa e humana em nenhum momento da história - é cruel. Para sustentar seus ideais - da mesma forma que fez o socialismo soviético - ele aceita a morte, tanto física quanto da personalidade. Opositores são "lobotomizados" e têm de viver com um aparelho implantado no cérebro que os impede de ir contra o sistema, mas os deixa imbecilizados.


Tal comportamento não seria aceito pelo "Super-Homem original". Ainda que bem-intencionado, a utopia criada por ele é falsa, mantida apenas pelo engenho tecnológico e pela imposição à força das regras. Ainda que a miséria, fome, analfabetismo, etc. tenham sido eliminados (exceto no que resta dos EUA, que resiste), a realidade é que a humanidade não vive - apenas segue dia após dia em uma rotina enfadonha onde nada pode dar errado. Como diz o próprio:

"Moscou funcionava com a precisão de um relógio suíço assim como toda cidade em nossa União Global Soviética. Todo adulto tinha um trabalho, toda criança um passatempo, e toda a população humana dormia suas oito horas diárias, de acordo com as necessidades de seus corpos. O crime não existia. Acidentes nunca aconteciam. Sequer chovia sem que Brainiac estivesse absolutamente seguro que todos tinham um guarda-chuva. Quase seis bilhões de cidadãos e quase ninguém reclamava. Mesmo intimamente." (tradução minha)

Essa "distopia" é combatida com a mesma "precisão de um relógio suíço" por Luthor, que toma posse de um anel dos Lanternas Verdes, assume a presidência dos Estados Unidos e inicia a campanha final para tanto derrotar o Super-Homem como implementar uma utopia alternativa, com resultados interessantes. Recomendo que o leitor não pule ao final da história, que é inteligente e surpreendente.

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Nesta terça-feira, 2 de junho, a escritora Giulia Moon convocou uma reunião de lançamento do número 25 do fanzine Scarium. Além de coordenar a edição, Giulia colabora com uma história em quadrinhos - sua primeira. A capa, de Alexandre Lancaster, é ótima e o conteúdo, com contos de Cristina Lasaitis, Marcelo Galvão, Martha Argel, Ana Cristina Rodrigues e outros, parece interessante. A edição tem como tema "Mulheres" e houve a habitual liberdade criativa aos colaboradores - com a condição de que houvesse elementos de horror na narrativa. Você pode comprar a Scarium 25 na loja virtual deles (link acima).

O lançamento foi divertido tanto por encontrar os amigos Galvão (e Daniela), Cristina Lasaitis, Richard Diegues (também colaborador desta edição da Scarium), Eric Novello e, claro, a Giulia. Causo também estava lá e tive o prazer de conhecer Nilza Amaral, mais uma das colaboradoras. O frio e provavelmente o dia da semana espantaram mais participantes, mas o evento valeu assim mesmo. A Giulia fez um post sobre o evento e publicou fotos no Flickr.

Você pode pegar o release com mais detalhes aqui. Assim que possível, devo resenhar essa edição (assim como as anteriores).

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@ 22.10.08 12:22



Book porn é um termo utilizado quando críticos, resenhistas e apreciadores recebem ou compram novos livros, para que as pessoas antecipem as resenhas que virão. Ou é exibição, mesmo, mas enfim...

Foto das aquisições recentes

Acima, aquisições recentes, livros devolvidos que ainda não li e, principalmente, o resultado da FestComix que rolou até domingo passado...

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@ 13.7.08 01:35

Veja também:
"PS"
Continuando a série de artigos sobre a FANTASTICON 2008... se você chegou aqui agora, leia a Parte 1 e a Parte 2 primeiro.

"Um olhar sobre a literatura fantástica atual", Fábio Fernandes, Guilherme Kujawski, Jacques Barcia e Sérgio Kulpas

Quero iniciar este texto dizendo que é impossível dar uma descrição tão detalhada quanto a que fiz da palestra do Octavio. Em primeiro lugar, não foi uma palestra "linear", com um conteúdo específico: foi muito mais um debate aberto, com interferência constante (e geralmente positiva) do público e troca de idéias entre os palestrantes - importante dizer que não há julgamento de valor aqui.

A mesa/palestra teve início com uma longa exposição - embora de forma alguma cansativa - do Fábio Fernandes sobre o "New Weird" e o novo na ficção científica. É preciso dizer que, apesar de ser uma mesa sobre a "literatura fantástica atual", falou-se muito mais em FC e um pouco de fantasia, sendo que os outros gêneros praticamente ficaram de fora. Novamente, isso não foi ruim!

Um dos primeiros livros citados foi "Perdido Street Station", de China Miéville, autor britânico. Comparado por Fernandes com "Neuromancer", de William Gibson - autor no qual o palestrante é especialista - devido a quebrar paradigmas então vigentes na literatura fantástica. A história envolve ficção científica, steampunk, magia e mitologia; sendo um exemplo perfeito da "New Weird".

Fernandes deu continuidade a sua fala com um clamor aos escritores que busquem e criem novos referenciais além dos clássicos como Clarke, Asimov e Heinlein - sem ignorá-los, claro - no que foi secundado por todos os participantes da mesa; que é necessário ler tanto para ter referências ("e por que não absorver estilos alheios? Por que não se influenciar?") e também para não "plagiar", para realmente inovar. Contraditório? Não: é assim que tudo vem sendo feito há tempos, como bem destacou o Octavio na palestra de sábado.

Conforme a globalização avança, ainda segundo o palestrante, devemos ter mais obras inovadoras de povos que tinham sua produção "represada" até agora, como os chineses, indianos e dos países do leste europeu. Não apenas a produção, mas também os temas estão globalizados, sendo um sinal disso os livros "River of Gods" e "Brazyl", ambos de Ian Mcdonald, ganhadores do Prêmio da Associação Britânica de Ficção Científica e indicados ao Hugo Award.

Se autores britânicos podem escrever sobre a Índia e o Brasil - e o melhor, com qualidade, sem cair nos clichês - por que não podemos escrever sobre o medieval? Por que não explorar os temas, os países, o mundo? Se houver inovação, não há motivo para limitar-se.

Desta análise a conversa focou no mercado nacional, que apresenta sinais claros de melhoria. Aumentou a quantidade de livros publicados - ainda que muitos sejam clássicos antigos ou republicações, há muitos novos autores nacionais publicando. Existe um aumento de eventos relacionados aos gênero fantástico - como as mesas promovidas pela Livraria Cultura em SP - e estes têm obtido boa recepção de público, para além do "fandom". Há ainda uma sintomática movimentação on-line, com as comunidades relativas ao gênero tendo participação massiva. Novas revistas, e-zines e publicações exclusivamente on-line também surgem quase que mensalmente.

O Fábio indicou ainda uma mudança de postura, como no caso do autor Nelson de Oliveira com seu "Subsolo Infinito", que é claramente literatura fantástica, publicada por uma grande editora e com boa recepção de crítica, mas que inicialmente não "se assumia" - a velha situação, se é bom, então não é de um dos "gêneros fantásticos". A situação está mudando com seu autor aproximando-se do gênero e desejoso de republicar o livro, agora assumindo o gênero¹.

Por fim, citou que há uma "mudança dos tempos" no "fandom" e nos escritores que participam do mesmo, onde o espaço para discussões inúteis, lamentações e imposição de egos está acabando, dando lugar a produção constante, consciente e, cada vez mais, com qualidade.

Sérgio Kulpas assumiu então, destacando que a FC não tenta "prever" ou "falar do" futuro, mas que ela o molda. Como? Devido a conexão que o gênero tem com tudo o que acontece de novo hoje; como Verne fazia e Gibson faz até hoje: lendo o jornal diariamente, estando a par daquilo que ocorre hoje e extrapolando isso, pensando no que isso significa ou no que isso pode influenciar nos anos futuros.

Guilherme Kujawski, que é um dos organizadores da "Emoção Art.ficial 4.0" e autor de "Piritas Siderais - Um Romance Cyberbarroco", considerou a dificuldade em criar FC hoje, devido a velocidade das mudanças tecnológicas, lembrando novamente de Gibson com seus "Reconhecimento de Padrões" e "Spook Country", que ocorrem nos tempos atuais, abandonando a ficção científica especulativa, pois ela já aconteceu na realidade.

Houve também uma citação que o Kujawski fez referente a um autor que não recordo (e que não consegui anotar a tempo), mas que dizia que existem três grandes problemas que a humanidade precisa resolver: o crescimento populacional, a imposição dos valores ocidentais e o progresso tecnológico¹ e que, resolvendo-se um dos três, os outros dois resolveriam-se por si - e isso poderia ser base para muitas histórias de FC "atualmente".

Kujawski falou também do que considera um problema atual para a FC: a queda para o transcendental; a experiência fora do corpo, o abandono dos problemas e questões de agora para uma solução pós-morte. Há uma tendência para reverter isso - ainda segundo o Guilherme¹ - trazendo uma estética imanente para a arte e, portanto, para a literatura e seus gêneros.

Fábio Fernandes fez um aparte citando o Accelerando, de Charles Stross (que está disponível para download gratuito aqui, em inglês, claro) que trata de um grupo de "realizadores", de pessoas que decidem fazer algo e realmente tomam a tarefa a cabo, mesmo levando séculos para resolver. Assim, o Fábio propõe que os escritores realmente assumam a tarefa de moldar o futuro.

O Jacques Barcia, que até então havia feito apenas alguns apartes e comentários, iniciou uma descrição dos principais "sub-gêneros", por assim dizer, atuais. Iniciando pelo já citado "New Weird", caracterizado pelo surreal; pelo grotesco do corpo, como meio de questionar o real e retratando sempre a cidade, como uma forma de questionar as estruturas de poder. O New Weird teria um componente muito forte de fantasia, porém não escapista e sim entrelaçada com a nossa realidade de alguma forma que a reflita e ainda possa gerar identificação.

Na seqüência ele falou do steampunk como um gênero em alta, senão na literatura ao menos nas animações, cinema, quadrinhos e outros meios mais visuais. Não poderia deixar de ser diferente, pois o steampunk tem uma "levada" muito mais estética do que política e/ou reflexiva, desde sua criação por William Gibson e Bruce Sterling com seu "The Difference Engine". Gerson Lodi-Ribeiro, que estava na platéia, fez um aparte sobre steampunk e história alternativa, mas o Jacques consideruo que steampunk eventualmente pode ser história alternativa, mas não obrigatoriamente, por não haver (muitas vezes) um ponto de divergência bem definido. Da mesma forma, steampunk é exatamente o cyberpunk, porém historicamente deslocado, utilizando tecnologia e estética vitorianas para quebrar com a frieza do concreto, do digital.

Não creio que o steampunk seja forte como literatura, hoje. Porém é forte com certeza como "imagem", como "imaginário". A quantidade de coisas criadas em torno da estética é estonteante, especialmente nos Estados Unidos.

Outros dois temas abordados foram o pós-humanismo, que seria o fim do corpo como conhecemos, sendo algo totalmente diferente no futuro e a new space opera. O pós-humanismo "per si" gera muita polêmica, especialmente em mentes mais "cruas", mas é uma realidade já hoje: quantas pessoas não vivem quase normalmente às custas de modificações corpóreas como marca-passos, próteses e similares? As técnicas de "brain hacking" estão tornando-se constantes em publicações científicas como um debate atual que precisa ser travado. A alteração do corpo por motivos estéticos também já é bastante comum, desde implantes sub-cutâneos até modificações mais extremas como bipartir a língua.

Isso indica que a FC ainda tem sim caminhos a percorrer, mesmo no meio especulativo. Não pude deixar de lembrar de Warren Ellis e seu "Transmetropolitan", onde um rapaz deixa seu corpo para viver como uma "poeira nanorobótica", fazendo "download" (ou "upload"?) de seu cérebro, de sua consciência, para essa "nanopoeira", que ele pode manipular de qualquer forma, inclusive dando aspecto "humano". Neste ponto, todos na mesa foram a favor de boas histórias, com elementos humanos, ao invés da mera "previsão futurística", no que foram aparentemente secundados pela platéia. Outra associação imediata foi com um conto de Cristina Lasaitis, onde o ato de deixar seus "corpos virtuais", pós-humanos, para trazer a "realidade física, limitadora" traz conseqüências funestas aos protagonistas.

A New Space Opera, por sua vez, seria uma atualização de Flash Gordon e Buck Rogers (exemplos), tendo a grandeza, a conquista espacial, grandes impérios com o elemento épico e a estética como chaves para a renovação do gênero. Removendo as "princesas" e o heroísmo maniqueísta original, claro.

Ao final da palestra, fiquei com a certeza de que existem chaves para a nova FC ou mesmo para a nova literatura fantástica, sendo a principal delas a "estética". Do papel que o "design" tem em nossa vida até a "imagética" que envolve os novos gêneros descritos, em tudo a estética exerce uma força enorme, quando não predominante, como no caso do steampunk e da new space opera.

Por fim, o Jacques anunciou a revista Kalíopes (que foi ao ar no site do CLFC ao mesmo tempo que o e-zine Somnium Nº 101) e a Terra Incógnita, uma revista editada em conjunto com o Fábio Fernandes, que será primariamente publicada em inglês, visando alçar a produção nacional ao alcance mundial. Atualização: Fábio Fernandes avisa nos comentários que a revista não será, inicialmente, em inglês, apenas o blog Post-Weird Thoughts, que já é em inglês, será incorporado. Porém avisa também que os planos são de publicações em inglês no futuro, sim, o que não invalida meu comentário abaixo :)

Particularmente, não só quero aplaudir como festejar a iniciativa. Faz tempo que debato, especialmente na extinta (infelizmente!) lista da Intempol, que a internacionalização não só é uma saída para o mercado de nicho que é a literatura fantástica aqui no Brasil, como também a via mais "futurista" possível. O uso de inglês tende a difundir-se cada vez mais, sendo já a linguagem padrão nos negócios e no turismo. O lançamento de um fanzine como o Fabulário em inglês, dentro de uma feira literária nacional, apenas reforça essa impressão e o acerto da iniciativa. Sabendo ainda que eles têm diversos textos de grandes autores anglófonos para publicar, a coisa só fica melhor.

O Kulpas e o Kujawski, por sua vez, anunciaram planos de publicar livros, sendo um em conjunto e outro "solo" (do Kulpas). O livro em conjunto, ao que tudo indica, vem sendo desenvolvido há anos e trata-se de dois irmãos que comunicam-se apenas via cartas (ou e-mails?) e que refletem sobre suas vidas em ambientes totalmente diferentes, um imerso na cidade, na urbanidade e o outro em um ambiente mais saudável/bucólico¹.

Achou esta descrição da mesa muito cheia de referências, links? Sua cabeça está explodindo com a quantidade de coisas faladas, com a diversidade de assuntos? Se a reposta for sempre "sim", então eu consegui passar para você o que foi estar lá. Era impossível anotar tudo de interessante que vinha à tona! Caso contrário, fique ligado para a FANTASTICON do ano que vem e, se alguma mesa deste estilo, com algum desses caras (ou, melhor ainda, todos juntos) estiver na programação, não perca!

Aproveito para pedir desculpas pelo atraso na publicação deste relato, espero que o resultado final tenha compensado a espera!

¹ Aqui escrevo de memória e, como já faz uma semana praticamente, posso estar errado. Corrijam-me nos comentários se for o caso, por favor!

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@ 10.7.08 13:20

Veja também:
Parte 3

"PS"
Continuando a série de artigos sobre a FANTASTICON 2008... se você chegou aqui agora, leia a Parte 1/3 primeiro.

"A Ficção como base para uma nova realidade: de Baker Street ao Sítio do Picapau Amarelo", Octavio Aragão

A palestra teve início com um pouco de atraso, mas começou bem, com uma surpresa: um "clipe" da nova HQ "Para tudo se acabar na quarta-feira", que se passa no "multiverso" da Intempol. Muito bem produzido, o vídeo deixou todos ansiosos pela publicação.

Logo após - e aqui estou me guiando tanto pela memória quanto pelas notas que fiz - Octavio apontou a pós-modernidade como chave para toda a palestra. Contrapondo a "leitura funcional" - extremamente popular hoje com os best-sellers de auto-ajuda - e a leitura "por prazer", apresentou a visão de que a realidade hoje é composta pela ficção.

Segundo o palestrante, quando assistimos a um jornal, o "fato" ali apresentado é incompleto e depende da nossa imaginação e interpretação para tornar-se real. Dessa percepção - e de dados como a pesquisa onde os entrevistados disseram que Winston Churchill era ficcional e Sherlock Holmes, real - conclui-se que a realidade é composta pela ficção e que descartar uma leitura por ser "ficcional demais" ou não-utilitária é não atentar para o que fazemos diariamente, mesmo que inconscientemente.

O "mix" entre personagens e fatos "reais" (ou "históricos") com personagens e fatos "fictícios" foi um dos temas mais presentes na palestra do Octa. Desde Homero e a Ilíada, passando pelos folhetins - que teriam realmente iniciado a confusão de "real" com "ficcional" na mente do leitor, talvez por serem seriados - até as "biografias" de Holmes e de outros personagens ficcionais, o "crossover" realidade vs. ficção está presente na literatura e no imaginário das pessoas.

O "mapeamento" invocou a confusão com direitos autorais - o que fazer no caso de "reaproveitamento" de personagens como, por exemplo, Alan Moore fez em seu "Lost Girls"? Essa é uma questão atualíssima, que o palestrante soube trazer à tona com uma visão histórica - os direitos autorais, especialmente na "ficção alternativa", jamais foram respeitados, a não ser forçosamente, por meio de leis e ação policial ou, em casos raros, preventivamente, por meio de compra ou cessão dos direitos de uso.

Ainda falando nesse "crossover" realidade e ficção, bem como sobre "ficção alternativa", Octavio comprovou que as "fanfics" são muito mais presentes do que se imagina. Citando o infame livro de Jô Soares, "O Xangô de Baker Street" e a obra de Monteiro Lobato (que reconta Peter Pan e inclui diversos personagens de outros escritores em seus livros), a "fanfic" é presente e antiga, recebendo essa denominação e sua atual popularidade com a internet - de onde também vem sua conotação negativa, devido a alguns trabalhos de baixa qualidade publicados on-line.

Aproveitando o tema, Octavio demonstrou que "ficção alternativa" é um termo real, acadêmico, citando o livro de Eric B. Henriet (veja abaixo) e também que seu livro, "A Mão que Cria", foi o primeiro a ser publicado assumindo-se como ficção alternativa, e não o primeiro texto de ficção alternativa publicado no Brasil.

Outro tema, conseqüência dos anteriores, foi o conceito de "Mitoversos", ou os mundos "mitológicos" formados pela união de diversos cenários, personagens e fatos reais e ficcionais, como no caso de Wold Newton, de Philip José Farmer.

Por fim, Octavio citou alguns livros que inclui em minhas anotações para comprar ou pesquisar futuramente: "Encyclopedia of Science Fiction", de John Clute (mais informações); "L' Histoire Revisitée" de Eric B. Henriet e "A Turma do Sítio na Semana de 22" de Márcia Camargos.

A palestra toda foi bastante empolgante, cheia de insights e de referências interessantes. Deu para perceber que o conteúdo foi preparado com esmero e que o Octavio falou de algo que realmente entende. Houveram as "cutucadas básicas", como na questão da importância e qualidade das fanfics, bem como no assunto "ficção alternativa" (conforme descrevi acima). Enfim, uma palestra excelente e com conteúdo relevante. Estou na torcida para que o Octa coloque a palestra on-line para download!

Respondendo aos comentários

Vou aproveitar o espaço para falar um pouco dos comentários recebidos para a parte 1 deste relato. Primeiro agradeço a leitura e a disposição em comentar da Gi, da Cris e do Silvio Alexandre, organizador da FANTASTICON. Creio que é importante avaliar os problemas e as qualidades de toda empreitada, a fim de fazer um ajuste fino nas próximas oportunidades. Embora tenha resultado em um evento "escondido", a mudança de local foi bem justificada pelo Silvio, que lembrou a barulheira (realmente) vinda do pátio no ano passado.

Quanto a ter que escolher entre boas palestras rolando ao mesmo tempo, claro que não era uma "reclamação": sem dúvida prefiro um evento com muitas oportunidades. Como não consegui me ater ao que havia programado, não tive realmente essa dificuldade, mas foi algo que me deixou pensando e planejando antes de ir para lá. E isso é bom! Que o ano que vem nos deixe assim, ansiosos e planejadores, novamente.

Amanhã, a parte final do meu relato da FANTASTICON 2008, com as impressões sobre a mesa "Um olhar sobre a literatura fantástica atual". Até lá!

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@ 27.8.07 02:55

Os ilustradores:
Charles Vess
John Bolton
Mark Buckingham
James Jean
Mark Wheatley
Derek Kirk Kim
Tara McPherson
Esao Andrews
Brian Bolland
Jill Thompson
Por Bill Willingham (texto) e diversos (arte)
150 páginas aprox., 50 por edição, Editora Pixel Media/DC Comics (Vertigo)

Já falei de Fábulas na edição 3 da Pixel Magazine. Na primeira edição deste especial - que a Pixel pretensiosamente diz ser em três "volumes" - acompanhamos a saga da Branca de Neve, que abandona o refúgio criado pelas Fábulas em nosso mundo para alertar as fábulas árabes sobre o perigo do Adversário, aquele que matou diversas Fábulas e provocou a fuga das sobreviventes.

Aprisionada no castelo do Sultão, Neve só é levada à presença deste quando revolta-se e recusa a comida e os banhos. Então, jantando a sós com o Sultão, Neve se vê na mesma situação de Sherazade, tendo que entreter o Sultão com histórias para evitar sua morte.

Desta forma, começamos a saber mais do passado de Neve depois de seu casamento com o Príncipe Encantado, cujo reino erguia-se sobre o reino dos anões, que exploravam as minas subterrâneas para obter ouro e prata e negociar com os humanos na superfície. Um delicado equilíbrio garante que ambos os reinos não colidam, porém anões aparecem assassinados na superfície e o Príncipe se vê na difícil situação de solucionar os crimes ou enfrentar uma guerra sangrenta.

Ótima história, com as ilustrações também muito boas de Vess e Bolton, casando perfeitamente com o clima. O preço poderia ser um pouco menor dado que são apenas 48 páginas "reais", sendo que as capas internas são utilizadas para a história, em um resultado pouco profissional.

Os volumes seguintes apresentam histórias mais sortidas, algumas reveladoras do universo de Fábulas, outras mais generalistas, apontando para caminhos que o autor ainda pode tomar, como apresentar Fábulas do oriente, da África ou mesmo da América do Sul. A variação de ilustradores é interessante porém às vezes decepcionante, especialmente quando um ilustrador em especial agrada e o seguinte, nem tanto.

Fábulas tem ganho meu respeito a cada nova leitura que faço e, de repente, me vejo questionando se o título de "sucessor de Sandman" não é apropriado. O universo criado por Willingham é vasto, pode render histórias por anos, isso sem nem pensar na possível "vingança" das Fábulas contra O Adversário. O negócio é acompanhar os lançamentos e juntar dinheiro para comprar as caríssimas edições anteriores lançadas pela Devir.

Nota final: como eram muitos ilustradores, listo os nomes na coluna lateral, para quem quiser saber a informação completa.

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@ 18.7.07 22:00

Por Alan Moore, Paul Jenkins, Warren Ellis (texto) e J. H. Williams III, Sean Phillips, John Cassaday, Kevin Nowlan, Rick Veitch (arte)
98 páginas, Pixel Media/DC Comics (Vertigo)

A revista segue firme com histórias interessantes e apresentando séries importantes do selo Vertigo. Neste número, temos a estréia de Promethea, mais John Constantine e Planetary, além de duas histórias de Alan Moore por seu selo "ABC (America's Best Comics)".

Em Promethea, somos apresentados à personagem principal que é na realidade uma história, uma menina salva por seu pai e por deuses pagãos do genocídio promovido por fanáticos católicos. Levada ao mundo de Imatéria, Promethea pergunta aos deuses se poderá voltar ao nosso mundo - ao que respondem "Bem, às vezes, se uma história for muito especial, ela pode conquistar as pessoas. Veremos."

Já Sophie Bangs vive em um futuro um pouco distante, em meio a carros que voam, grupos de super-heróis "comportadinhos", policiamento ostensivo e gibis com nomes como "Gorila Chorão" ("*soluço* a vida moderna me faz sentir tão solitário!"). Pesquisando sobre Promethea para um trabalho final de escola, ela revive a heroína e inicia uma série de aventuras.

O sempre excelente texto de Moore com a nada convencional arte de Williams III garantem uma ótima história - o negócio é acompanhar para ver como será o desenrolar. Mas, pela fama da série lá fora, o material todo deve ser muito bom.

Na seqüência, mais uma boa história de John Constantine, embora cheia de referências que podem confundir os leitores que não conhecem bem o personagem. Nenhuma história tão boa quanto a de Ellis na edição anterior, porém intrigante para quem leu edições anteriores de Constantine.

Planetary dá prosseguimento ao mistério que circunda a série - e sua publicação aqui no Brasil. Afinal, será lançada em revista isolada ou continuará dentro da Pixel Magazine? A história é boa e a arte de Cassaday, como sempre, é fantástica. Mas nada se esclarece e essa indefinição quanto ao futuro da série é inquietante.

Por fim, temos duas historietas de Alan Moore bastante engraçadas e gostosas de ler, um bom fechamento, leve e irônico, para uma revista com histórias mais "pesadas" como Constantine e Planetary.

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@ 11.7.07 18:35

Por: Ferréz (texto) e Alexandre De Mayo (arte)
50 páginas (aprox), Editora Pixel Media

Aposta em quadrinhos nacionais da Pixel Media - a primeira, até onde sei - Ferréz fez fama com seu livro "Capão Pecado" e sua coluna na "Caros Amigos". Já De Mayo é mais conhecido por seu trabalho junto ao mundo do Rap.

O resultado é uma ótima HQ, com leitura muito boa e uma arte que - embora não seja genial e abuse de recursos de colorização computadorizada - é competente. Na história, acompanhamos como a vida daqueles que entram no crime se repete, a partir de dois personagens centrais: Igordão e Pipo.

Claro que há o habitual "playboyzinho, vai se fudê", "a vida na periferia é quente", etc. Os clichês sobre a favela e a atitude "rebelde" perante a sociedade que marginaliza também estão ali. Mas a história nem por isso perde o apelo. As imagens da favela são bastante realistas e o drama dos dois personagens em destaque é sincero e crível.

O único porém - apesar da qualidade gráfica da edição - é o preço, que está um pouco além do que deveria estar. É uma Graphic Novel boa para todos os que quiserem variar das histórias de heróis/fc/fantasia/horror que existem no mercado. Mas eu não consegui deixar de sentir um cheiro de potencial mal aproveitado...

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@ 10.7.07 06:10

Por Ed Brubaker, Greg Rucka (textos) e Michael Lark, Brian Hurtt, Greg Scott, Stefano Gaudiano, Jason Alexander (arte)
700 páginas aprox., Editora DC Comics/Panini Comics

O título desta resenha poderia muito bem ser "Law And Order: Gotham City". A série de quadrinhos ambientada no "universo" de Batman é uma autêntica série policial, com duas "pequenas" diferenças: 1. maior uso de palavrões e 2. existem "aberrações" no cenário, como o próprio Batman, Coringa, Duas Caras, etc.

A série enfoca a vida dos detetives que trabalham na polícia de Gotham. Batman "em pessoa" é um personagem secundário, que aparece pouco nas páginas da HQ. Porém sua presença, sua sombra é fonte de medo, frustração e reações extremadas por parte dos policiais. O novo comissário, além de estar "sob" Batman, ainda enfrenta o desafio de substituir James Gordon, agora aposentado e um herói reconhecido da cidade.

Premiadíssima, a série faz por merecer seu reconhecimento, trazendo personagens humanos, críveis, em um universo ficcional saturado de fantasias, justiceiros, super-vilões e semelhantes. Pelas mais de 700 páginas (até agora) desfilam dramas de morte, medo, desejo e superação, fracasso e desistência.

A série é publicada dentro da "DC Especial", uma série regular que publica histórias paralelas de personagens do universo DC. O primeiro número saiu em março de 2005, o que significa que não é tão fácil de se obter, mas vale tanto a busca quanto o investimento. Recomendado a qualquer fã de histórias policiais, telespectadores de Law And Order e até mesmo aos fãs "normais" do homem-morcego. Fico só me perguntando quando é que alguém vai ter a inteligência de produzir uma série para TV adaptando estes roteiros...

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@ 05:40

Por Grant Morrison (texto) e Frank Quitely (arte)
88 páginas aprox. (24 por edição), Editora DC Comics/Panini Comics

Recomendação do amigo Marcelo Galvão, confesso que jamais compraria por iniciativa própria. Primeiro que Superman não é meu personagem favorito, segundo por desconfiar dessas séries com títulos pomposos.

Porém, seria um desperdício deixar passar o excelente roteiro de Grant Morrison e a arte limpa, meio européia e com influências de Moebius, de Quitely. A série abre com a morte anunciada de Superman, em uma trama muito bem pensada por Lex Luthor (claro).

Somos apresentados a cientistas que buscam colher amostras solares e viajam entre dimensões, enquanto Superman tenta lidar com seus "novos poderes" e o recente anúncio de que não é mais imortal.

A série nestes 4 números desenvolve-se bem - nas bancas, já está no número 7, mas não consegui achar o 5º ainda - e estou curioso para ver o que Morrison fará com esse Super, mortal e cheio de poderes estranhos. É continuar a ler para saber, comentarei em novas resenhas aqui...

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@ 6.7.07 12:45
Por vários autores/artistas
96 páginas, aproximadamente, Editora Pixel Media

A Pixel Magazine - revista de "apresentação" (ou revista "balão de ensaio") dos títulos de que a Pixel dispõe de direitos para publicação - firma-se como uma revista agradável, interessante e variada.

Neste número, temos uma apresentação convincente de "Fábulas", série premiadíssima lá nos EUA, que chegou a ser comparada com o Sandman, de Neil Gaiman - exagero, em minha humilde opinião.

Apesar de não ser tão genial quanto Sandman, a história nesta edição é uma excelente e inspiradora leitura. A revista continua com uma história curta de John Constantine, escrita por Warren Ellis, de horror psicológico, um dos pontos altos de Ellis.

Na seqüência, uma história de Planetary, que não explica nada e apenas atiça a curiosidade para a série. Aliás, esse foi um dos pontos baixos da edição, embora a história em si seja boa, ela é claramente um ponto de ligação entre histórias e não "fecha", ao contrário da história de Fábulas e de Constantine, fugindo ao propósito declarado da revista.

Por fim, temos uma história curta e ingenuamente divertida de Cobweb, por Alan Moore e sua agora esposa Melinda Gebbie, seguida de uma matéria tergiversando sobre os futuros lançamentos da Pixel. Resultado final: a Pixel Magazine continua na minha "lista de compras" de HQs mensais.

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@ 5.7.07 12:10

Por Alfredo Castelli (texto) e Lucio Filippucci (arte)
50 páginas (aprox.), Editora SAF Comics/Mythos Editora

Mystère teria sido um personagem criado por Paul Deleutre (sob o pseudônimo de Paul D'Ivoi) que teria conhecimentos exóticos e viveria fantásticas aventuras em todo o mundo ao lado de seu jovem e desastrado assistente Cigale.

Os quadrinhos extrapolam o conceito, reaproveitando - e satirizando - clichês da literatura de aventura fantástica. A narrativa irônica de Castelli em perfeita fusão com a arte "ingênua" de Filipucci ajudam ao efeito cômico e aventuresco.

Nos dois volumes lançados até o momento, vemos repetidas vezes Cigale amparar - em momentos de perigo - as madames e senhoritas que requisitam os serviços do famoso detetive, não sem deixar de apalpar seus seios ou olhar suas roupas íntimas. A série satiriza de Sherlock Holmes e Peter Pan até Star Wars e Jornada nas Estrelas, passando por H. G. Wells e E. T. A. Hoffman - e isso apenas em dois volumes!

A edição bem cuidada graficamente pela Mythos apenas adiciona valor a esta HQ, minha única "crítica" sendo o valor final, que poderia ser reduzido em 2 ou 3 reais, certamente ampliando o público potencial. Um fator extremamente positivo é o conceito de publicar uma história completa por edição, mesmo havendo alguma continuidade.

No volume 1 vemos o detetive e seu ajudante chegarem a Madri em seu "hotel elétrico" para ajudar uma dama cujo marido, construtor de um metrô subterrâneo "ecológico", desapareceu. Na investigação, Mystère enfrenta seu arquiinimigo, que manipula e ajuda um grupo de chineses a ressuscitar um dragão que dormiria sob a cidade.

No volume 2, Mystère e Cigale embarcam na primeira viagem tripulada para a lua, onde descobrem... que a lua é habitada e freqüentada, já, por seres humanos! Mystère tem o dissabor de saber que seu arquiinimigo não morreu, mas encontra-se na lua aliado aos habitantes da "face escondida" do satélite no planejamento de uma invasão à Terra.

Diversão garantida, sem compromisso e nem profundidade, com muita ironia.

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@ 23.6.07 15:58

Por Grant Morrison (texto) e vários (arte)
Aprox. 100 páginas, Editora Panini Comics/DC Comics

A série firma-se agora como um trabalho autoral de Morrison de extrema qualidade e cheio de auto-referências reveladoras da trama que apenas aponta nas histórias. Neste número, acompanhamos mais uma aventura de Zatanna, outra de Klarion, do Guardião e do Cavaleiro Andante.

Klarion firma-se como meu personagem preferido até o momento - emergindo de sua cidade isolada, onde vivia com seus pais e parentes bruxos e "puristas" -, Klarion quer conhecer a "abóboda azulada", isto é, nosso mundo.

Aqui inicia um cruzamento de informações interessantes entre os personagens, pois Klarion interage com criaturas do submundo de Nova Iorque que já haviam aparecido ou citadas anteriormente na história do Guardião.

Há toda uma mitologia urbana que envolve o metrô e o subterrâneo de Nova Iorque - como pode ser visto, só para citar um exemplo, no filme "Os Caça-Fantasmas" - e ver essa mitologia tão bem mesclada com esses personagens estranhos que Morrison traz à tona é intrigante.

Zatanna continua interessante, mas a aprendiz Misty está cada vez mais roubando a cena e a aparição de um personagem mais "clássico, famoso e bem-sucedido" trouxe um interesse renovado à história.

Por fim, o Guardião finalmente descobre quem é seu contratante, enquanto sua vida desmorona aos poucos: sua namorada o abandona, ele e o jornal são ameaçados de processo e ele resolve desistir da carreira de herói, por considerar-se um fracasso.

Uma ótima edição, que continua a amarrar as pontas soltas mas deixando ainda mistérios suficientes para prender o interesse do leitor. E uma revelação interessante: na abertura, logo na contra-capa, o texto diz: "(...)Juntos, mesmo sem interagir entre si(...)". Estou ansioso pelo restante da série.

ATUALIZAÇÃO: esquecer de falar do Cavaleiro Andante apenas revela o quanto a aventura da edição atual me deixou desgostoso com o personagem. Entregando-se à polícia, o Cavaleiro tenta avisar o "tempo atual" sobre o perigo que enfrenta, porém ninguém acredita, é claro.

Não temos muitas novidades sobre o que aconteceu com seu cavalo alado - apenas citações de outros personagens - e revela-se um pouco mais sobre os objetivos dos Sheeda. Esta história do Cavaleiro é apenas um meandro, com muitas explicações mas poucos acontecimentos e, talvez por isso, a minha decepção. Mas, as conseqüências desta história serão importantes e, ao que tudo indica, o único realmente alerta do que está ocorrendo é o Cavaleiro... como coloquei antes, estou ansioso pelo restante da série :)

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@ 02:42

Por Bruce Jones (texto) e Ariel Olivetti (arte)
111 páginas, Editora Panini Comics/DC Comics

O primeiro arco de histórias (nº 1 e 2) desta nova publicação da Editora Panini Comics foi um pouco fraco. A idéia é revisitar histórias clássicas do homem-morcego, trazendo o lado mais "detetive" de Batman, ao invés do lado super-herói.

Já neste nº 3, o resultando é um "page turner" de tirar o fôlego. A trama gira em torno de um seqüestro e um desaparecimento misteriosos em uma noite de blecaute em Gotham City, com Wayne envolvido amorosamente com a irmã de uma das vítimas.

Tomado de dúvidas sobre sua missão, Batman segue as migalhas de pistas que tem e que o levam, cada vez mais, a becos sem saída - informantes que sumiram, um velho inimigo aparentemente aposentado do crime, o corrupto dono de uma casa de shows (ou "inferninho")... a cada passo, Batman percebe que sim, algo está acontecendo e sim, todos eles sabem o que é... menos ele.

O final não foi a melhor coisa da edição, embora não tenha estragado o desenvolvimento primoroso e quase psicológico da história. Sem dúvida, a revista vale a pena de comprar e ótima arte apenas ajuda a compor o quadro sombrio que é a alma torturada de Wayne, em sua cidade sem esperança...

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@ 18.6.07 01:48

Por Grant Morrison (texto) e vários artistas
Aprox. 100 páginas por edição (200 páginas até agora), Editora Panini Comics/DC Comics

Que Morrison é louco, isso é de conhecimento geral de quem curte quadrinhos. Agora, 7 Soldados da Vitória é um "tour de force" de loucura, jogando a criação de um grupo de heróis "fracassados" (tanto em vendas quanto nos quadrinhos) em histórias separadas, que vão lentamente (até o momento) se entrelaçando.

A primeira edição é bastante confusa, com a tentativa inicial de criação de um grupo e subseqüente dispersão do mesmo. A segunda edição começa a dar linha para algumas das idéias iniciais, gerando curiosidade e interesse pelo restante da história e fazendo valer o investimento.

Os personagens mais interessantes até o momento são Zatanna - que já era interessante quando participou de "Livros da Magia", entre outros - e Misty, sua aprendiz; o Cavaleiro Andante e Klarion, o menino-bruxo. O submundo no universo do "Guardião" é interessante, também, mas algo ainda a avaliar.

Vai ser interessante ver o que Morrison faz com essa salada de personagens, estilos e histórias e como tudo isso vai se integrar em uma série só.

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@ 01:29

Por Orson Scott Card (texto) e Andy Kubert (arte)
Aprox. 120 páginas, Editora Panini Comics/Marvel

Li opiniões extremadas sobre esta série - uns acharam instigante, outros, lixo ilegível. A verdade é que: 1. é pouco espaço para muita história; 2. é muita pirotecnia para explicar algo razoavelmente simples (e um moralismo que só o Card poderia ter, para explicar o alcoolismo de Tony Stark); 3. é o segredo mais mal guardado da história dos quadrinhos!

Há uma série de potencialidades que, com mais espaço e um tratamento mais sutil, poderiam dar um resultado excelente. Mas a arte do Andy Kubert, comercial apenas, não ajuda na empreitada e o resultado é mediano. Para completar, na edição 2 eles finalizam com... "continua em Homem de Ferro Millenium 2!"

Das duas uma, ou estão tratando o leitor como idiota, anunciando uma série em 2 edições e depois prolongando-a artificialmente por criar um "volume" 1 e 2; ou o erro foi tão grosseiro que denota pressa, incompetência e falta de cuidado com o trabalho. Não sei o que é pior. Resultado final? Economize seu dinheiro...

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@ 01:11

Por vários autores
90 páginas, Editora Pixel

A Pixel Magazine é como uma revista de "apresentação", reunindo histórias "fechadas" e isoladas de diversos universos publicados pela editora.

Nesta edição, uma história bastante original com John Constantine, uma história interessante com o nem sempre bom "Sandman original" (Weasley Dodds, que usa uma máscara e usa um gás do sono para prender bandidos), uma história forte e intrigante de "Planetary", da dupla Ellis & Cassaday, com o adendo ótimo do maluco Grant Morrison e seus Invisíveis, além de duas histórias curtas no "universo" criado por Neil Gaiman, no sonhar, uma com Morte e outra com Nuala, a ex-amante do ex-Lorde Moldador...

Tudo muito confuso? Muitos nomes? Vale a pena correr nas bancas, que até sexta ainda tinham esta edição da PM, e comprar - você leva algumas horas de diversão das boas, sem ter que ler zilhões de quadrinhos depois para situar-se na "cronologia".

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@ 17.6.07 23:26

Por Christopher Moeller (texto e arte)
120 páginas, Editora DC Comics

Com um roteiro interessante e arte "aquarelada" (?) boa, fora do padrão dos quadrinhos normais, a aventura centra-se na Mulher-Maravilha. Em uma visita à Ilha Themyscira, lar das amazonas, ela descobre uma profecia sobre a sua morte... e de toda a Liga da Justiça, por obra de uma rainha-dragão que está sendo revivida.

Decidida a salvar a Liga e matar a rainha-dragão sozinha, a Mulher-Maravilha mente e derruba um a um de seus companheiros. Uma boa briga com a Rainha-Dragão e seus súditos, seguidos por um final previsível, tornam essa HQ uma leitura interessante, mas nada essencial. A boa arte de Moeller vale a pena, também, mas sozinha não salva o roteiro previsível.

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@ 23:23

Por Judd Winick (texto) e Dale Eaglesham (arte)
45 páginas, Editora DC Comics

História interessante - arte mediana - com o novo Lanterna Verde (sucessor de Hal Jordan), Kyle. Naquilo que ele pensa que serão férias (óbvio que algo acontece), ele viaja para um distante planeta chamado Tendax, para servir como embaixador em uma cerimônia importante - o acordo definitivo de paz entre duas facções daquele planeta que passaram muito tempo em guerra.

Após alguns dias de descanso e paz, Kyle e sua namorada participam da cerimônia, com cenas grandiosas de alegria popular. Kyle descreve assim: "Parece uma mistura de casamento real com vitória eleitoral. É como um carnaval com aliens, música de primeira". Mas um atentado terrorista que mata 43 crianças põe fim tanto à festa como ao tratado de paz, mergulhando o planeta em uma guerra que Kyle e sua namorada vão tentar evitar.

O final é algo surpreendente para um quadrinho de heróis e é impossível não fazer paralelos com situações infelizmente cotidianas em nosso planeta, como a briga israelenses vs. palestinos ou outros confrontos raciais. étnicos ou similares. Boa leitura para uma hora livre, mas nada clássico ou realmente surpreendente.

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@ 23:06

Por R. Crumb (aproveitando trechos de entrevista de Dick para Gregg Rickman)
9 páginas, Fragments West/The Valentine Press

Dick foi um dos maiores escritores de ficção científica de todos os tempos. Suas obras geraram adaptações cinematográficas clássicas, rentáveis e famosíssimas, como Blade Runner, Total Recall, Minority Report e A Scanner Darkly. E deve ter mais por vir.

Além de escritor de FC, Dick também era um sujeito considerado muito doido. Um dia, sofrendo de terríveis dores na boca devido a um dente do siso arrancado, ele pede para entregarem em casa remédios para a dor. Ao ver um reflexo do sol no pingente da entregadora - um peixe dourado de perfil - ele alucina que está na Palestina antiga e é um cristão perseguido pelo Império Romano.

A visão dura apenas um momento, mas retorna ainda mais forte um mês depois. Dick sente como se houvesse uma outra consciência em sua mente, uma outra pessoa que o faz agir corretamente, "arrumando" literalmente sua vida - ele começa a ganhar muito dinheiro; descobre, por indicação da tal consciência, que seu filho tem uma hérnia e consegue tratá-lo a tempo; além de conseguir falar grego, hebraico e aramaico fluentemente.

Toda essa experiência é relatada por Dick em diversos textos e em uma entrevista concedida a Gregg Rickman, em 1981, cujos diálogos são extensamente utilizados nos quadrinhos. A arte de Crumb intensifica a sensação surreal da leitura, especialmente nos trechos em que Dick descreve como tudo continuou normal na vida dele, embora a consciência sempre estivesse ali, controlando-o, enquanto ele é apenas um espectador.

Dick passa anos com essa consciência que, depois, ele acredita ser Elias ou o próprio Deus. A crença dele nisso é tão poderosa que ele tenta se matar quando o espírito finalmente o abandona. Esse período de Dick, por assim dizer, influenciou fortemente suas obras, que passaram a ter um componente místico até então apenas sugerido, se tanto. A HQ é quase uma biografia super-resumida de Dick, do momento em que ele é tomado pelo espírito até sua morte. Uma leitura inquietante, valorizada pela arte de Crumb, altamente recomendada.

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@ 22:22

Por Mike W. Barr (texto) e Jerry Bingham (arte)
100 páginas, Editora DC Comics

História e arte medianas, que apresentam o lado detetive de Batman misturado a um lado humano pouco comum no cavaleiro das trevas. A premissa básica é o aparecimento (ou retorno?) de um terrorista - Qayin - e sua briga pessoal com um velho inimigo de Batman, Rã's Al Ghül. Para temperar a história, Batman só toma conhecimento de tudo isso ao ser salvo por uma aliada e ex-amante, Tália, filha de Rã's.

A história evolui da investigação de Batman - ajudado pelo comissário Gordon, coadjuvante na trama - para identificar os terroristas e tentar acabar com seu plano, que envolve controle do clima e chantagem. Na busca desse objetivo, Batman vê-se temporariamente aliado de Rã's, enquanto um envolvimento - que os autores gostariam que fosse romântico, mas torna-se apenas sexual - desenvolve-se com Tália.

A história força na direção que os autores queriam, sem um desenvolvimento decente dos personagens ou mesmo dos acontecimentos, que se atropelam a fim de cumprir a limitação de 100 páginas. Há um final razoavelmente surpreendente, com uma ponta solta para futuras histórias ou, pior, para futuras lambanças da DC Comics com seus personagens. Enfim, mediano.

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@ 20:43

Por Angeli, Glauco e Laerte (com participação "especial" do Adão Iturrusgarai)
80 páginas, 1994, Editora Ensaio

Caçar miguelitos, brigar com os "Hell's Angels de Acapulco" e tentar arrumar mulheres são apenas algumas das enrascadas em que os 3 amigos se metem. Coletânea de tirinhas publicadas no jornal Folha de São Paulo, entre 1991-92, com adição de "tirinhas de rodapé" especiais para esta edição, o trio arrasa no humor negro, escrachado e politicamente incorreto que marcou época. Vale a compra!

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